Granada de bolso

231. Missa

Quinta-Feira, 03-Jul-2008 · 1 Comentário

Igreja de Santa Ifigênia. A cantilena em latim era já cansativa, e ele (sim, sempre ele), estava ali. Terno branco, de linho e o chapéu de palhinha cristianamente no banco, ouvindo missa também. O padre e seu defumatório vinham e iam, na cadência do dominustecum. E aquele ir e vir o fez lembrar da Mariazinha, sim, a Mariazinha que ele ia visitar à noite, nas horas silentes. A igreja escura e sombria lembrou-lhe, por um segundo, a alcova da Mariazinha, aquele pardieiro imundo e tantas manchas no lençol. Mas ele percebeu a comparação e viu que era bom. A pouca luz externa, filtrada pelas nuvens e pelos vitrais e a luz amarelenta e quente das velas, dominante, davam à igreja um incomum aconchego. Quase em êxtase, passou o olhar pela igreja e via somente sedas envoltas pela luz quente, havia mesmo flores, e, no crucifixo, uma mulher de redondos e alvos seios. Era Mariazinha sangrante pregada à cruz e com uma dolorosa expressão no rosto. O susto o fez soltar um gemido curto e seco, que trouxe novamente a luz monótona da igreja e a voz pouco luminosa do padre e seu latim de breviário. O Cristo estava na cruz. Passado o susto, persignou-se e fez esforço para prestar atenção à missa e à salvação da alma. “Ite, missa est”, fez o padre rotundo com amplo gesto.

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230. Oulipianas

Terça-feira, 01-Jul-2008 · Sem Comentários

Seguindo o contrainte alfabético do Ouvroir de Littérature Potentielle.

Alfaiate, Bernardo cumpria diariamente elucidantes falhas graduais; helicoidais ímpetos justos limitavam muito novos ostracismos. Por querelas, resmungos, sarilhos, tentava unicamente viver; xícaras zuniam.

Acordado buliçosamente, Camilo dizia efemérides fazendo gargarejos. Hesitante, ia junto Leandro. Miguel negava. Orlando pendurava queijos (rentes à sala torquemadeana). urlavam xenofobias zodiacais.

Ai! Benevento caía dividida em facções gananciosas. Hedonistas irritavam-se juntos; lamentavam-se marcialmente na oval praça querida. Restavam somente turbas ululantes de Xenical zuretas.

Aurora bela cantava dedidalhos esfuziantes, femininamente graciosos. Havia imensas jutas lambendo montanhas nativas, olentes perfumados qüercos. Rugiam serras talhantes; xingos zoológicos.

Ao bater cadenciado dos elegantes e fastidiantes golpes, hélices imperiosas jaziam levianas. Mas não oligofrênicas; padeciam quenturas rubescentes secretas. Teciam Ulisses velozes e Xivas zangados.

Alugaram bela casa, detrás do Estuário. Fácil ganho (histórico imóvel). Juvenal limitou manobras navais, oceanograficamente perigosas, riscavam sarilhos tabuísticos. Urbes: vasos de xaxim zafimeiros.

Arrasto bolas candentes, descidas economicamente feridas. Gastando heliantos, indico juventudes limpas e maquinosas. No opróbrio pequeno, quis riscar silogismos tão únicos: verdades xumbregas e zarolhas.

Âmbar, berílio, carvão. Dúvidas efêmeras, fulgurantes, garbosas. Helenas imploram (jocosas), lâminas, manias, nácares. Ostras e pérolas quaisquer, rogavam seus timoneiros, urrando, veleidades; xilófagos zicavam.

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229. Lamentáveis novas sobre o estulto, inapropriado e profundamente desagradável Acordo Ortográfico da Língua portuguesa, onde os pares do reino manifestam sua nefasta opinão favorável ao despropósito institucional

Sexta-feira, 27-Jun-2008 · 2 Comentários

Depois de algumas relutâncias, o parlamento português aprovou em 16 de maio, o texto do Acordo Ortográfico de 1990. Uma das grandes esperanças dos contrários à reforma era justamente a relutância portuguesa em pôr o acordo em prática.
Fora as questões políticas, há as questões práticas. Penso eu: quanto tempo vou demorar para acostumar-me às novas regras, muito embora rezem de pé junto por aí que somente cinco palavras em mil sofreriam modificações no português escrito do Brasil, e essa taxa subiria a 16 por mil em Portugal, nos países africanos de língua oficial portuguesa (horrivelmente apostrofados em PALOPs), além da Lusitânia dispersa (Timor e Macau).
Como já tratei desse assunto anteriormente no blogue, volto à carga: para que essas mudanças? São mínimas e não trarão benefício algum. Ao contrário: justamente por causa da hesitação política e nos recentes deslocamentos de ar trombetados na imprensa, se tem levantado alguma celeuma. O pior é tratar disso na escola. Na escola onde faço os estágios da Licenciatura, tantos alunos perguntaram que tive de dedicar quase quarenta minutos de uma aluna para explicar a reforma, e com um pequeno agravante, não fazia dez minutos que eu havia explicado o uso do trema.
“Mas, professor, se a trema (sic) vai cair, por que que a gente tem que (sic) aprender?”. Pronto, furdunço armado. E eu justamente vinha tratando com eles a importância da norma no auxílio à compreensão geral, ou seja, caí numa armadilha que eu mesmo pus a isca. Isso se passou em abril.
Em maio, os parlamentares do caro país-irmão fazem-me esse grande desserviço. Já é verdadeiro malabarismo fazer com que pessoas que vivem imersas num mundo materialista e que tratam o conhecimento como um mero instrumento entenderem um mínimo da “norma”, que dirá uma nova alteração.
Há horas em que temos de ser taxativos: “A mudança só passa a valer quando for aprovada; o que não aconteceu”. Porém, Portugal vem desferir o golpe fatal e o Acordo Ortográfico, como um rolo compressor em alta velocidade, vem se aproximando. Todos saímos perdendo: nós, Portugal e todos os outros.

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228. Quarenta aforismos de mau-tom, potencialmente ofensivos, defendidos com verborragia e grandiloqüência pelo autor deste blogue

Terça-feira, 24-Jun-2008 · 7 Comentários

1) Tibete é China.

2) As Malvinas são argentinas.

3) Tchetchênia é Rússia.

4) Catalunha não é Espanha.

5) O kemalismo parece um bom caminho.

6) O socialismo também.

7) A União Soviética faz falta.

8) Napoleão Bonaparte é o maior herói nacional brasileiro.

9) A democracia representativa está falida.

10) Há boa Literatura e porcarias.

11) Há boa música e lixo ruidoso.

12) Berimbau não é instrumento (se for, peço a inclusão da matraca e da sirene na mesma categoria)

13) A Anarquia não dará certo enquanto houver gente.

14) Galiza não é Espanha.

15) Muamar Kadafi não me parece tão ruim quanto parece.

16) Côssovo é Sérvia.

17) Terroristas de verdade são os EE. UU.

18) Religião é a negação de qualquer raciocínio e inteligência.

19) Há casos em que a democracia é desnecessária e incômoda.

20) Vegetarianismo militante é histeria politicamente correta.

21) Então, vejo vacas como comida.

22) Coelhos não são animais de estimação, mas sim galinhas de casaco.

23) Circo-escola não é cultura e muito menos “inclusão”.

24) Os brasileiros não temos identidade pátria.

25) País Basco não é Espanha.

26) O trema em português é necessário e imprescindível.

27) A televisão é nociva.

28) Mas basta desligá-la.

29) A Lingüística na USP é catequese e ditadura gerativista.

30) Academia de ginástica = rodinha para hamsters.

31) O Uruguai é um estado-tampão; só existe porque existem igualmente o Brasil e a Argentina e nenhum dos dois decidiu-se em cedê-lo para o outro.

32) A primeira utilidade do jornal é embrulhar peixe.

33) Logo perseguirão os fumantes como perseguiram os nazistas.

34) Antes ninguém se preocupava com colesterol e punham banha de porco no arroz; hoje, na ditadura dos índices médicos, a histeria tomou conta das velhas hipocondríacas e o arroz (ai, o arroz!) ficou sem gosto.

35) Só vou economizar papel quando pararem de publicar os tablóides britânicos, as revistas de fofoca e a “Caras”.

36) Absurdo é a classe média dizer “absurdo” a tudo que lhe contraria. Estou pegando asco da palavra.

37) Tanto desespero cá na terra; enquanto no espaço imediatamente superior à atmosfera tudo continua plácido.

38) A vida em outros planetas está tão longe (se estiver) que não vale a pena preocupar-se com ela.

39) Transes religiosos e descarregos são induzidos por mesmerização.

40) A literatura vai morrer porque o povo está sendo vítima de um processo de imbecilização em massa (viva a tevê!)

Faixa-bônus: não gostou, come menos.

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227. Lavalle 560: Diário de Buenos Aires

Domingo, 22-Jun-2008 · 4 Comentários

INTRÓITO
Buenos Aires, capital da República Argentina, às margens do rio da Prata. Coisas que eu só sabia das aulas de Geografia e do noticiário. Quando se pensa em capital, logo nos vem a imagem de uma cidade que se move ao redor da burocracia: ministérios, sedes de órgãos governamentais, emanações da democracia representativa.
Buenos Aires é muito mais que isso: é uma cidade que, de fato, pulsa e tem vida própria e paralela à da função de capital. Buenos Aires é tudo: é magnânima (bem mais que a minha São Paulo) e também miserável. E é mais tudo do que se possa imaginar.
Dividirei, então, os relatos em algumas postagens, para que a cousa não se torne profundamente enfadonha e serei fiel aos detalhes mais interessantes.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES E ALGUMAS PRECISÕES
A descida fez-se, como a todos que vão a Buenos Aires, pelo Aeroporto Ministro Pisarini, localizado no partido (município) de Ezeiza, província de Buenos Aires. Explicitemos um pouco: a Argentina é dividida em províncias que, apesar do nome, funcionam como nossos estados, ou seja, têm diversas autonomias em relação ao governo da Nação. Caímos nessa descrição político-administrativa para dizer algumas obviedades: Ezeiza fica na província de Buenos Aires; porém a cidade de Buenos Aires não. Assim como temos o Distrito Federal dentro do estado de Goiás, a cidade de Buenos Aires, dita oficialmente Cidade Autônoma de Buenos Aires, é uma entidade autônoma e não pertence à província homônima.
Terminando com as considerações de cunho territorial, continuemos. Ezeiza está a cerca de 35 quilômetros do centro da Capital; a autopista que liga-a a Buenos Aires está cheia de curiosidades para os olhos que nunca se colaram sobre as coisas argentinas. Principalmente os nomes curiosos nas placas. Na verdade, um nome curioso chamou-me a atenção: Ciudad Evita. Também a indicação para o Centro Atômico de Ezeiza deixou-me intrigado. Há pedágios, dois; nada muito escorchante - lembro-me que a tarifa de um deles era um peso - mas são dois pedágios.
A beira da estrada é particularmente bonita, há uma espécie de acostamento largo uns sessenta, setenta metros em alguns pontos, de grama. As pessoas param o carro neles e ficam ali, tomando sol. Ou param para consertar alguma avaria, seja mecânica, do carro, seja psíquica, do motorista. Não sei quais foram as reações dos meus cunhados e da minha namorada, a paisagem me tinha absorvido.

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226. Sábios pensamentos engendrados pelo Conselheiro Gomes, o Chalaça, fiel servo de Sua Majestade Imperial, o senhor Dom Pedro I do Brasil e IV de Portugal

Sexta-feira, 20-Jun-2008 · 5 Comentários

[...]

É sabido de todos que muitos homens e mulheres - principalmente estas últimas - defendem a tese de que o momento em que se realiza o despejamento das fezes deve ser considerado ad hoc, ou seja, não pode ser confundido com nenhuma outra atividade, por mais ligeira que seja, sob pena de tornar imperfeita a defecação.
Ora, minha teoria não poderia ser mais contrária a esta. É meu pensamento que, no momento em que essas impurezas desprendem-se do nosso corpo, está se abrindo, simultaneamente, um vazio dentro de nós, argumento que, creio, será referendado por todas as pessoas de bom senso e capazes de observação.
Admitindo-se, pois, essa premissa, decorre necessariamente uma pergunta. Como e com o que deve ser preenchido esse espaço oco do nosso ser? Eu respondo: com a leitura. Que entretenimento mais proveitoso poderia haver no mundo do que este em que nos livramos de uma substância fétida ao mesmo tempo em que aumentamos o nosso saber? Purifica-se o corpo, engrandece-se o espírito. Haverá receita mais sábia para o aproveitamento dessa hora?

[...]

Extraído das fantásticas “Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes, o Chalaça”, tradizas à luz por José Roberto Torero. Companhia das Letras, p. 108

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Vídeo: Les Luthiers, “Canción Proselitista”

Quarta-feira, 18-Jun-2008 · Sem Comentários

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Verbete mui recomendado da Wikipédia (es): Les Luthiers

Terça-feira, 17-Jun-2008 · 3 Comentários

A genialidade: Les Luthiers.

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225. Notas curtas e de grande utilidade acerca da ciência que é o acendimento cuidadoso e eficaz de uma churrasqueira de modo a evitar queimaduras à pele e que o fogo queime de modo uniforme o carvão para o cozimento adequado das viandas que são cozidas por esse processo

Terça-feira, 10-Jun-2008 · 2 Comentários

Disponha o carvão em monte, como se fosse um nurague, ou seja, formando um cilindro oco. Formado o cilindro, pegue um pão velho (preferencialmente seco ao sol), parta-o e encharque o miolo com álcool. Introduza o pão com cuidado no meio do nurague de carvão de modo que a face partida fique para cima. Jogue um fósforo (após riscá-lo contra a parede da caixa que o contém) exatamente sobre o miolo exposto (e devidamente umidecido com álcool). O resultado desse processo será o início de uma combustão, caracterizada por um tipo de chama bem tênue, resultado da combustão pela queima do agente químico. Quando o pão começar a apresentar os primeiros sinais de esturro, ponha alguns fragmentos de carvão sobre a abertura do nurague (e, conseqüentemente, sobre o pão com o miolo exposto voltado para cima). Assim, os carvões começam também a entrar em lenta combustão (transformam-se em brasas ou tições) e, espalhados pela área da churrasqueira coberta com carvão, fazem com que os outros fragmentos de carvão também se abrasem. Quando boa parte do carvão apresentar estiver incandescida (por baixo) e esbranquiçada (por cima), o calor emanado pela queima será o ideal para o cozimento das carnes variegadas destinadas a esse fim.

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Vídeo: Dia da Vitória (2008)

Segunda-feira, 09-Jun-2008 · Sem Comentários

Este ano, esperamos quase um mês para que os vídeos da parada do dia da Vitória aparecessem, mas ei-los! Pobeda!

Mulher Garota Melancia dando cu buceta chupada tomando rola

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Vídeo: El No-Do surrealista (però no massa)

Sexta-feira, 06-Jun-2008 · 3 Comentários

Salvador Dalí no noticiário cinematográfico espanhol conhecido como “Noticias y Documentales”, em pleno regime franquista.

Caçador de pipas pdf James C. Hunter O monge e o executivo

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224. De como questões mundanas podem ser nitidamente tradadas e facilmente resolvidas através da linguagem límpida e clara e da exata definição do tema a ser efetivamente tratado de modo dialógico e sem divagações prolixas e perda inútil de tempo e latim

Terça-feira, 03-Jun-2008 · 3 Comentários

Entretanto, não nos podemos deixar abater; essas coisas ocorrem todos os dias, se não comigo, contigo, consigo, com eles. Acontece. É claro que é possível evitá-las, simplesmente não saindo de casa. Como eu gostaria, se pudesse, não pôr mais o nariz para fora de casa. Uma casa comigo e minhas manias, todas elas, exasperadas, violentas. Mas temos de sair, enfrentar o turbilhão, a ausência de poesia no dia-a-dia cinza da cidade cinza. Mas mesmo assim, não é? Isso, às vezes, é tão inevitável quanto o mato que brota nos canteiros ou nas frestas dos viadutos e viram chumaços de pêlo, como se viadutos tivessem pêlos. Mas, voltando à vaca fria, nessas situações, você pode fazer o seguinte…

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223. A raiva é um produto orgânico (não duvide)

Segunda-feira, 02-Jun-2008 · 2 Comentários

É curioso como a raiva é orgânica. Ela desenvolve-se sabe deus onde e vem vindo. Vem do peito para os dentes (que rangem), para as mãos (que se dobram em punho) e fica no peito também (que aperta a aorta como morça). Qualquer fagulha da consueta estupidez pode ser o suficiente para fazer tudo explodir, sem ver a quem. Um odor forte de perfume vagabundo, uma palavra parva que se quer dito espirituoso, os abusinhos de costume, uma moeda tomada à esperteza. A raiva é como fermento de pão, que faz a cabeça inchar, latejar, arder. E a raiva que sedimenta no baço ou no fígado (não há estudos que o comprovem) ou até mesmo, cogita-se que os cálculos renais sejam raiva solidificada, sedimenta-se e age quando o nível de raiva aumenta acima do suportável.
Situações cotidianas passam a ser um martírio, um ônibus cheio, esbarrões, gente, de uma maneira geral. Aí a raiva vem, entope veias, prejudica o cérebro, esclerosa, provoca colapsos variados. A medicina caseira recomenda descanso e chá de camomila. Algumas pessoas utilizam-se do descarrego aleatório. Aleatório porque será no primeiro imbecil incauto que passar.

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221-bis. “Prelúdio da Cachaça”

Sábado, 31-Mai-2008 · Sem Comentários

Depois do comentário do Breno na postagem 221, numa feliz coincidência, encontrei em Prelúdio da Cachaça, de Luis da Camara Cascudo (edição comprada ontem), um trecho que faz referência direta ao costume de tomar pólvora misturada à aguardente. Transcrevo.

“Há uma tradição de que a cachaça misturada com pólvora provoca a coragem. Fora estímulo belicoso nas guerras do Império.
O poeta pernambucano Ascenso Ferreira, no poema “Branquinha” (1939) recordou:

Contavam os veteranos do Paraguay
que rasgavam no dente o cartucho,
misturavam pólvora com aguardente,
passavam a mistura no bucho
e depois iam brigar…

Meu pai, antigo oficial do Batalhão de Segurança, dizia-me haver essa fama entre as “praças”, mas nunca vira beber. Comandara patrulhas no sertão, perseguindo cangaceiros, oportunidade para aplicar-se o incentivo. O capitão honorário do Exército Joaquim Freire informava-me que a mistura era comumente ingerida durante a fase tumultuosa do governo do Marechal Floriano (1891-1894), no Rio de Janeiro, e onde houvesse luta, notadamente nos combates na revolta da Armada. E a mistela que datava da Guerra do Paraguai ou mesmo Cisplatina. O major Antônio Augusto de Athaide (1855-1935), confirmava o uso da cachaça com pólvora na campanha de Canudos (1897). O general João da Fonseca Varela (1850-1931), veterano do Paraguai, vira muitas vezes preparar e beber, antes da batalha. Era mais comum na tropa de infantaria. Os lanceiros do general Osório gostavam muito desse excitante.”

Camara Cascudo, Luis da. 11. Coragem, in Prelúdio da Cachaça. Itatiaia: Belo Horizonte, s/d (original: Rio de Janeiro, 1968).

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222. A poesia prosaica

Quinta-Feira, 29-Mai-2008 · 3 Comentários

Poesia prosaica

Assim como há a prosa poética, que é um texto cuja forma remete à prosa e seu conteúdo remete à poesia. Outra forma mista é possível de ser engendrada no turbilhão da língua: a poesia prosaica.
A poesia prosaica valoriza mais as imagens consideradas próximas da poesia (alegorias, metáforas etc.) do que a forma própria rígida (métrica e rimas), embora siga preceitos atribuíveis à forma poética externa (organização em versos e estrofes, aliterações). Um precursor da forma, sem que a tenha teorizado, foi Konstantinos Kaváfis, nas suas poesias mais do cotidiano, introspectivas.
A valorização do tema poético e a negação da rigidez da forma poética.

Do Grande livro desconhecido de crítica e teoria literárias.

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221. Chá

Domingo, 25-Mai-2008 · 5 Comentários

Em algum canto perdido entre a Moldávia e a Ucrânia, uma mulher arranca ervas daninhas da horta diante de casa. Diante da casa, passa um caminhão do Exército russo levantando poeira no calor de junho, logo atrás, um caminhão entitulado “Exército da República Moldava da Transnístria”. O mulher levantou os olhos do jardim. Viu uma bandeira alvi-rubro-cerúlea seguida, no meio da poeira, por uma rubro-víride. A mulher abaixou os olhos e continuou a tentar divisar as ervas daninhas entre os alfaces. Achou também umas cápsulas de balas de fuzil que pôs no bolso do avental. Moldávia, Transnístria, Ucrânia. E daí? A única coisa que nos dão abundantemente são os cartuchos das balas. Ainda que fossem umas moedas, dava para comprar açúcar. A mulher entra na casa de madeira destroçada e com marcas de tiro; acende o fogão a lenha não sem certo esfoço. Enquanto a lenha pega fogo bem, a mulher, de chaleira na mão, vai à parte de trás da casa, ali há um poço, onde ela enche a chaleira. Volta, põe a chaleira sobre o fogão e pára os olhos num canto escuro do assoalho. Ali há um podre, logo se abrirá um buraco. Perde-se nas divagações, no céu, nos girassóis junto à casa. A água ferve. A mulher pega a chaleira, despeja a água fervente numa chávena de ágata, salga-a e tira do bolso as cápsulas joga-as na chávena. Deixa que as cápsulas descansem na água salgada; recolhe-as com um garfo e lentamente sorve o chá, acompanhando bolinhos de aveia.

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220. Marcha de Esmirna

Quinta-Feira, 22-Mai-2008 · 5 Comentários

Eram Kombis. Reuniram-se num ponto ignoto do semi-árido. Andavam em círculos enquanto que dos seus alto-falantes cansados de anunciar pamonha, saía uma ode cantada ao Pai dos turcos. Arrancos dos moribundos motores volks entrecortados pela conclamação altíssona a Atatürk. Os cactos não entendiam. As pedras, muito menos. A nuvem de poeira vermelha erguia-se e o vento soprava-a para nordeste. De uma das kombis, saltou um homem que berrou para que parassem com aquela marcha. Primeiro, foi uma kombi verde que veio e atropelou-o com tal força, que quase partiu o peticionário em dois, jogando-o uma quinzena de metros adiante. As loas a Mustafá Kemal continuavam. Uma kombi branca, pintada com anúncio de ovos, esmagou violentamente o corpo e reagiu como se tivesse passado sobre uma lombada. O corpo, já uma massa amorfa de ossos moídos e órgãos feitos patê ainda foi atingido por uma furibunda kombi de cândida. As kombis ritualmente fizeram um círculo ao redor do morto e giraram ao redor dele três dias e três noites, louvando Atatürk. Depois, os abutres fizeram seu repasto e as kombis voltaram para as cidades tão suas.

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219. Esdextrossinistrodirecionalmente

Terça-feira, 20-Mai-2008 · Sem Comentários

Ouro, dólar, euro. Os homens-sanduíche. Milhares deles, com suas placas sebentas cobrindo os corpos decadentes, marchando em direção ao palácio do governo. A polícia não tem como pará-los, milhares. O exército tentou jogar os tanques, esmagam-se uns e outros ali, mas a massa de homens-sanduíche é inexorável e os tanques viram ilhas no mar de anúncios. Cercam o palácio do governo, ficam dias de pé, sem sentar-se, parados, esperando que o governador se renda. O governador mandou bombardear a massa, visto que era um atentado à ordem pública. Parte da massa, armada com suas tabuletas de mão, começaram a bater na cerca do palácio até derrubá-la. Os homens-sanduíche continuaram a avançar malgrado as balas, malgrado os mortos. O governador, isolado numa torre do palácio, escuta milhares de passos simultâneos aproximarem-se. Ouro, dólar, euro. Arrombam a porta da torre e encontram um homem de terno esparrapado, óculos quebrados, com as calças sujas do medo que se lhe vazou pelo ânus. Os dois mais próximos, um que anunciava fotos três-por-quatro e outro que anunciava empregos, pegaram o governador pelos braços e alçaram-no. Outro homem-sanduíche, esferogástrico e bigodudo investiu o governador de um manto de anúncios. Agora, o governador, devidamente investido das dignidades, era um deles também.

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Festinha de arromba

Segunda-feira, 19-Mai-2008 · 6 Comentários

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Vídeo: Seu Lili (Terça Insana)

Sexta-feira, 16-Mai-2008 · 3 Comentários

Eu, às vezes.

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