Granada de bolso

Casa nova

Sábado, 27-Dez-2008 · Deixe um Comentário

Estamos de casa nova: Hepáticas.

→ Leave a CommentCategorias: Uncategorized

243. “Qui ens aclarirà amb què se’n van les taques de cafè?”

Domingo, 24-Ago-2008 · 7 Comentários

Meus amigos, meus poucos leitores

É comovido que vos agradeço a audiência, a paciência que dedicastes aos meus textos. Não são a melhor coisa do mundo, bem o sei, mas me esforcei para que fossem o mais interessante e bem construídos o possível. Deixo de escrever temporariamente; mas será uma pausa longa, no mínimo de um ano e alguma coisinha, tempo que creio necessário para pôr as coisas da vida em ordem.
Bons textos ou textos que sejam interessantes, às vezes nos vêm subitamente. Outras muitas vezes, uma idéia interessante tem de ser trabalhada, como o mineral bruto, até que seja o metal que dará vida a algum artefato útil, seja moeda, seja parafuso. Não quero escrever tão-somente por fazê-lo, por isso a necessidade imperiosa de parar.
Também não tenho o ímpeto ‘bloguicida’ e, por um certo sentido de auto-preservação e de apegar-se aos cacos, o blogue continuará aqui, como um memorial a não sei o que ou como uma cidade bombardeada. Os comentários ficaram destravados e, se quiserdes entrar em contacto, bastará escrever.

Um abraço a todos,
Sérgio

P. S.: como música de encerramento, poema sinfônico “Finlândia”, do Jean Sibelius.

→ 7 CommentsCategorias: Comunicados

Mr. Otto in Olympics por Bruno Bozzetto

Quarta-feira, 20-Ago-2008 · Deixe um Comentário

Aproveitando todo chilique e frenesi por causa das Olimpíadas, um videozinho bonitinho para relaxar de tanta gente suada correndo, batendo-se, correndo atrás de bolas e fazendo contorcionismo.

→ Leave a CommentCategorias: Vídeo

242. Ladeira General Carneiro, 06:45

Segunda-feira, 18-Ago-2008 · 5 Comentários

As primeiras pessoas desembarcadas dos ônibus que as trouxeram do subúrbio começam a subir a ladeira. E a descê-la também. O movimento começa. As primeiras lojas começam a erguer ruidosamente suas portas de aço. Os camelôs montam suas barracas de quinquilharias várias. De uma porta estreita, esmagada entre duas lojas, um homem obeso empurra seu obuseiro da batalha diária. Alta qual um homem e coberta de chapas de aço, a máquina desliza sobre suas rodinhas; é uma máquina, ou aparenta sê-lo. Com um toco feito de caibro – de algum telhado desmanchado nas redondezas – o gordo estanca a sede de correr ladeira a baixo da máquina. Volta à portinha e de lá vem com uma grande caixa de papelão cuja face aberta está tampada por uma folha de jornal. Da caixa, cheia e manchas profundas de gordura e poeira, emerge um espeto de carne, cilíndrico, de quase um metro, um cilindro feito de raspas de carne. O gordo encaixa-o à máquina, acende-a – antes, liga o gás – e, com um motor elétrico, o espeto começa a fazer o mundo girar ao seu redor. Será repasto de muita gente, aqueles nacos gordurosos de carne salgados e apimentados, dentro dum pão, acompanhados ainda de um suco amarelo.

→ 5 CommentsCategorias: Cidade · Crônicas · Quitutes e acepipes · comes e bebes · escritos

241. Fomes

Terça-feira, 12-Ago-2008 · 5 Comentários

I
Tem fome, mas não de comida. Tem fome de espaço livre pròs olhos, caminhos sem pedras pròs pés. Tem fome de cousas que se vão ao longe, fome de silêncio e fome de tempo. Há fomes que se curam com meio quilo de arroz-e-feijão; estas não se alteram com o alimento. Fomes que engrossam cadenas, incham sapatos, de multiplicar papéis, chuvas torrenciais e ônibus que nas enxurradas navegam. Fome de liberdade, da qual só há farelos miseráveis e sujos na ganga do cotidiano de esvaziador de fossa. Almoço? Um prato de ponteiros de relógios velhos temperados com sal-de-olhos.

II
Ah, os meus olhos castanhos, verdes e azuis. Quantos são? Não importa. São humanos, mas multifacetados como o dos insetos que vêem em mil direções as luzes, mas nada distinguem. Meus olhos cheios de heranças de outros povos, de caravelas, de machados e legiões. Têm fome também, de luz e de mar e de sol. A nuvem de fumaça de diesel oculta alguns raios de sol.

III
De que adianta tão colossais esforços? Na vida moderna, trabalhamos qual hércules e vivemos qual vermes, escondidos na água turva das multidões. Querem o couro, querem o sangue, querem os ossos. E, se não bastassem, querem a consciência e querem a opinião, amoldada a seus propósitos. O convívio irritante; e dos ossos, fazem-se botões.

IV
Se dentro dentro de uma represa há bilhões de copos d’água e, em cada copo d’água há trilhões de singelas moleculas, cada uma composta por três átomos (tão-somente três, o três suficiente): um de hidrogênio e dois de oxigênio. E se nesse elemento primordial, esse tal hidrogênio que tudo forma e em tudo está, se dentro de seu núcleo ainda intangível à opticocuriosidade humana (esses aprendizes de São Tomé), houver um pequeno borrão que se vai definindo, definindo e, veja, que curioso! Se parece com uma galáxia presa num pingo d’água. Mas como algo tão minúsculo pode estar profundo em uma das partículas inomináveis nas quais se divide o núcleo de um átomo?

V
Se me permitem, o próprio nome átomo é uma incoerência, pois significa em grego, justamente “indivisível”. Veja como a enciclopédia diz-se dividida em ‘tomos’.

VI
E no fundo desta espiral afogada na água elétrica nuclear, manchas menores se vão distinguindo e, que coisa, parece outro átomo, com um núcleo brilhoso e com corpúsculos que lhe giram ao redor. Curioso que o microscópio eletrônico pontentíssimo (pontentíssimo como nunca haverá) manda a informação que cada corpúsculo tem uma cor diferente e o analisador de aceleração detectou que têm órbitas e velocidades ligeiramente diferentes. Aproximou-se o foco no terceiro corpúsculo e viu-se que ele tinha a cor azul-cerúlea e manchas de cor variegada. Ampliou-se mais e surgiram ilhas de matéria semelhantes a continentes e a mancha azul como um grande oceano. Aproximou-se mais e viu que, na face escura, estranhos fenômenos de luminiscência ocorriam, como se fossem um ataque de fungos que, espalhando seu micélio e sua hifa, brilhasse no escuro. Qual a sensação quando se viu, aproximando mais que, ao que parecia, existam colônia de infinitesalmente minúsculos organismos. Algum tipo de vida nunca imaginada habitava aquele rincão de átomo, menor do que qualquer coisa que jamais foi vista pelo olho humano. Que surpresa quando, o microscópio aumentou ainda mais sua ampliação e foram vistos filetes pretos como estradas e corpúsculos retangulares que ali iam, ordenadamente, como carros. E o susto e o colapso do espaço-tempo que se sucedeu e a implosão nunca possível e nunca relatada pela engenho humano, que se sucederam à vista de uma pequena placa verde que dizia: “Caminhões mantenham a direita”.

VII
E o ônibus, com sua roda de borracha vulcanizada, joga para a calçada o oceano formado pela água da chuva, tributário do Tietê e do Tamanduateí.

VIII
A chuva que cai sobre o prédio do Correio central, gelada, tudo empapa. Vão-se criando líquens microscópicos que não sobreviverão ao pó preto soltado pelas máquinas de locomoção. Quantos virabrequins, quantos carburadores, não é? A tantos reais cada um. Uma pequena e considerabilíssima fortuna. E a tudo isso, os vidros ficam indiferentes, salvo que algo seja lançado em sua direção.

IX
O vidro sempre foi algo que me chamou a atenção. Certa vez, li numa revista de ‘ciência’ que alguns cientistas britânicos haviam descoberto que o vidro era fluido como a água. Uma lâmina feita de água, como a lastra de vidro de uma janela, não agüentaria alguns milissegundos numa estrutura estática (em condições de pressão e temperatura normais, não gelo), arrebentaria redondamente, como somente a água pode fazer. O vidro é como a água, mas o seu arrebentar redondo pode levar milhares ou milhões de anos. Os britânicos citados dizem isso baseados na medição dos vitrais de uma catedral francesa (Chartres?), nos quais, as lâminas que os formam estão mais espessas na parte inferior do que na superior, nanometricamente falando.

X
Jean Verre tinha esse nome porque seu ofício era trabalhar o vidro: colori-lo para os vitrais, soprá-lo para fazer objetos. Acreditava, sob os auspícios de Cristo e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, que uma das maiores conquistas humanas era o transformar areia em vidro, esse gelo fantástico e belo, misterioso no seu jogo infindo de luzes. Jean enganou-se e morreu, não por causa do engano, certamente. Séculos mais tarde, descobriu-se que o mais antigo (por tanto, que tem a primazia) produtor de vidro não é o homem, mas sim uma família de seres minúsculos, de cuja existência nem se falava, e muito menos se imaginava, as diatomáceas que produzem uma caixa redonda, uma secção de cilindro, para proteger-se, e essa carapaça, similar a uma peça de dama, é de vidro. Um delicadíssimo e natural vidro.

XI
Segundo obscuras fontes, algumas algas unicelulares também sintetizam vidro a partir de silicatos da areia do mar; a produção deste vidro a partir da “chemie douce” seria, em volume, superior à produção humana do material. Vidro a partir de seres que vivem na água. Se um dia o homem conseguir usar essas algas e essas ditomáceas para produzir vidro, acabar-se-iam aqueles fornos e o vidro fundido a uma temperatura absurda. Foi a massa plástica de vidro que queimou os dedos de Jean até que eles se tornassem insensíveis e que também secou-lhe um dos olhos. Jean jamais viu o delicado estojo produzido pela Cyclotella meneghiniana, de poucos mícrons de diâmetro.

XII
Espantoso como as coisas mais fantásticas vêm da água, como esse vidro natural, feito por uma alga. Isso tudo até a nova implosão que será causada ciclicamente pela descoberta de um novo universo dentro das divisões atômicas do hidrogênio que compõe a água. Possivelmente, todas as maravilhas naturais são fruto de pequenas (no tamanho) civilizações subatômicas que se escondem nos átomos e são, por estarem num átomo universal, fonte infinita de idéias fantásticas. Civilizações que, por sua infinita fome de conhecimento, mandam sondas e coisas a explorar o espaço externo e muitas dessas coisas tomam vida própria e se tornam milhões de vezes maiores do que a civilização que o criou. Também as nossas idéias costumam ser (por mais medíocres que sejam), maiores do que nós mesmos. Quantos moles não ocuparia uma mísera idéia safada, ou uma intenção escusa?

XIII
Nos laboratórios secretos, incrustados num bunker sob algum deserto terrestre (ou até mesmo na lua), alguns cientistas apátridas (pois assim são obrigados a sê-lo) e ateus, conseguiram desenvolver um ampliador de matéria. Essa máquina amplia a matéria a ponto que coisas ridiculamente pequenas possam ser vistas a olho nu. A primeira experiência foi com uma cápsula vazia de Cyclotella meneghiniana. Após algumas horas de procedimento radioativo, apresentou-se diante dos olhos famintos dos cientistas, algo como dois grandes pirex, encaixados, redondos e chatos, como dois pratos de vaso, de vidro grosso e liso. O problema é que a estrutura atômica ampliada não resistia muito tempo ao inchamento de sua estrutura atômica (que consistia em inclusões de vazios entre a estrutura nuclear dos átomos) e implodia. Maravilhados, os cientinstas tentaram fazer o mesmo com um átomo de água, para, finalmente, poder examinar o que é um átomo, para assombro do mundo. Ligaram a máquina e puseram-se a esperar no ambiente: um foi fumar, o outro, ler um relatório, outro foi escrever (não conatava para ninguém, mas era poeta). Passadas as horas prescritas para o funcionamento eficaz da máquina, os cientistas abriam-na e o átomo de água não se havia ampliado. Ou melhor, havia sim, mas por uma falha do aparelho, ampliara todos eles e o laboratório em escala retorcida. Um deles percebeu porque seu braço afinou até sumir na extremidade, enquanto coxilou, ficando parecido com um lápis apontado. Não deu tempo para mais nada, suas estruturas atômicas (coisas e seres) implodiram por causa dos vazios instáveis.

→ 5 CommentsCategorias: Defecações · · Incompreensível · capitalismo selvagem · comportamento · escritos · filosofia barata · inutilidades

240. História particular

Sexta-feira, 08-Ago-2008 · Deixe um Comentário

Pequeno adendo antes da leitura: não pense, eventual leitor, após a leitura, que o relato abaixo vem de alguém que tenha orgulho de suas origens “européias” e limpinhas. A Europa da qual descendo é a Europa da guerra, da fome e da miséria. A sua também, descendente de italianos ou alemães; escória somos, escória seremos. Algo que me irritaria profundamente seria ser posto junto a essa escumalha de colônia que vê os países como são hoje e usam tal fato para jactanciar-se.

(Somos de la sexta, sexta división.)
A musiquinha ficou ecoando na minha cabeça a cada tecla batida. Espanha é um assunto que me intriga. Não gratuitamente. Muitos de nós, brasileiros – melhor, não tenho autoridade para falar por todos os brasileiros, digo então, paulistanos, melhor – então, muitos de nós, paulistanos, acabamos por interessar-nos por um país estrangeiro, geralmente pelos aspectos positivos. Vejos os descendentes de italianos, que se vangloriam do que a Itália é hoje. Mas e a Itália que os seus antepassados deixaram? Essa simplesmente não existiu. No meu caso, sou descendente de espanhóis, mas que me atrai na Espanha, não é a Espanha como ela é hoje, integrada na União Européia, é a Espanha de antes, a perdição da Europa, a Escandinávia do Magreb. Quero saber da Espanha histórica, real e sangrenta, que teve sua república dilacerada.
Minha ligação com a Espanha é mais do que sangue, é história, coisa que supera qualquer carga genética.
(Negras tormentas agitan los aires, nubes oscuras nos impiden ver.)
Minha história começa quando Francisco Franco, o oficial baixote e atarracado subleva as guarnições espanholas do Marrocos. Pois é, meu avô estava lá, às vésperas de acabar o serviço militar. Teve de ficar os três anos da guerra com o Franco. Os que não estavam de acordo? Bem, caso falassem, terminavam crivados de balas. Meu avô, galego como Francisco Franco, foi um dos “moros” que subiu do Marrocos a Espanha, aos quais gritaram e cantaram “¡No passarán!”; e passaram. Meu avô não gostava do Franco, mas era apolítico, tanto que não ia com a cara do Azaña também. Não sei se ele estava presente à tomada de Madri. Infelizmente, são detalhes que ele levou consigo para a cova antes que a minha curiosidade despontasse.
(Cara al sol con la camisa nueva, que tú bordaste rojo ayer.)
Sei que, quando foi depois do 1º de abril de 1939, quando a maioria das tropas foi desmobilizada, largaram meu avô mais outros na Extremadura; ele e mais um grupo de galegos (o número varia de acordo com quem conta a história, entre quatro e oito) subiram até lá a pé.

[continuará...]

→ Leave a CommentCategorias: Citações · Espanha · Fascismo · Galego-Galícia · Galiza · Línguas minoritárias · Política · causa-mortis · escritos

239. Comercial de repolho

Quarta-feira, 06-Ago-2008 · 2 Comentários

Comercial de repolho

Que novas que ventam desde a rede!
Vejo um antigo comercial de repolhos,
repolhos tchecos e socialistas,
com gente alegre e camarada.
Atrasados e estragados;
pois o socialismo
estragou-se antes dos repolhos.

de Postais da França, de Enrico Lupini
(Trad. Isaías Florentino, Editorial Moinho: Ferrol, 2007)

Muitos dos meus leitores sequer ouviram falar de Enrico Lupini. Eu também, confesso, que o conheci há poucas semanas: encontrei um livro seu num sebo de São Paulo. Trata-se de um obscuro autor italiano, siciliano. Nas orelhas do pequeno volume mal encadernado por uma editora galega de fundo-de-quintal localizada em Ferrol (cidade natal de Francisco Franco) e publicado em português por uma editora que se intitula “reintegracionista”; por isso a forma portuguesa da tradução.

As informações sobre o autor são poucas, nascido em Serradifalco (província de Caltanissetta, Sicília), Itália, em 1978. Ganhou duas edições do Concurso Literário da Comuna, tendo seu primeiro livro de poesias e crônicas curtas sobre a vida siciliana e italiana, Cartoline francesi (traduzido como Postais de França) publicado às expensas da administração comunal em 2002. A única publicação feita em língua estrangeira foi feita pela editora de Ferrol, em português. Seu segundo livro, Mille gennai, aguarda publicação também pela Administração comunal.

→ 2 CommentsCategorias: Enrico Lupini · Europa · Galiza · Lingua · Literatura · letras

238. Sobre árvores

Sexta-feira, 01-Ago-2008 · Deixe um Comentário

Além da obrigatória especialização em algo, fenômeno muito moderno, todos nós temos algum tipo de ocupação para o tempo livre. As minhas, além da numismática e filatelia amadoras, tendo uma queda pela botânica. Mas não a botânica de sentar e ver binômios (não que não me agradem) ou saber família, filo e espécie exata (o que também não agrada), mas sim uma botânica mais intuísta: ver árvores, porque se trata, enfim, de uma botânica de observação de árvores. À ramaria miúda não dou muita trela: gosto de árvores.
Mas o que quero contar, em si, não tem muito a ver com gostos sobre botânica. Começou exatamente com uma peça dos Les Luthiers, grupo músico-humorístico argentino o qual muito me apraz, intitulada “Suite de los noticieros cinematográficos”. A peça desenvolve-se como se fosse o áudio de um dos já não mais existentes noticiários cinematográficos (consultem os mais velhos: aqui nas plagas brasílicas, havia o “Primo Carbonari” e nas Espanhas, o famigerado “Noticieros y Documentales”, mas conhecido pelo seu acrônimo No-do); a certo ponto, narra-se a inauguração de uma fábrica de refrigerantes dita “Algarrobo Pampeano” que fabrica a “Algarrobo-cola”.
Como palavras diferentes nas línguas que conheço sempre me chamam a atenção, fiquei com ela guardada para futura consulta e sempre me esquecia de fazê-lo; isso até sábado passado.
Em um sábado passado, eu e minha namorada fomos ao Centro da cidade para visitar os sebos; ela estava atrás de alguns livros e eu não me abstenho nem de acompanhá-la e de passar a vista pelas longas estantes abarrotadas atrás de títulos curiosos e obras de referência pouco divulgadas. Resultou que eu, que somente acompanhava, comecei a juntar livros sob o braço e saí de lá com alguns volumes, bem mais do que os levado pela minha namorada. Nesses volumes, entre o “Dicionário Kazar” de Milorad Pavić e “A guerra da Gália” de Júlio César, comprei uma edição do Diccionario Manual e Ilustrado de la Lengua Española* da Real Academia da Língua Espanhola, de 1950.
Bem, algumas considerações sobre o dicionário: foi editado em 1950, em pleno franquismo, na etapa mais dura. Como será que definem comunismo? Não sei agora de cabeça, mas a definição era sumária e dizia basicamente que o comunismo consistia em trocar o sistema de propriedade privada pelo da propriedade coletiva. Nem o nosso Dicionário Escolar da Língua Portuguesa do MEC, de 1973 é tão sucinto! O DMILE* dedica três linhas ao verbete comunismo; três linhas numa coluna minúscula e letra igualmente diminuta.
Aproveitando a distração de Juliana nas estantes, procurei a palavra que estava alojada no cérebro, algarrobo; ora, lembrei-me da palavra e estava com o dicionário na mão. Quando se tem uma oportunidade tamanha? Pois bem, é uma árvore.
Fiquei temporariamente satisfeito. Era uma árvore. A dúvida começa a fazer-se novamente espinhosa e cutucar os recônditos cerebrais: e, em português? Sem dicionário bilíngüe, o jeito foi valer-se da Wikipédia, que não é lá muito confiável, mas dá uma base que pode ser confirmada. E nesse tipo de pesquisa sempre surgem surpresas: há dois tipos de algarrobo: o europeu (Ceratonia siliqua, família das fabáceas, sub-família das Cesalpinioídeas) e os americanos (pertencentes ao gênero Prosopis, igualmente da família das fabáceas, mas da sub-família das Mimosoídeas), mas que, por causa das similaridades, ganharam o mesmo nome comum.

Através do binônio latino da espécie européia, cheguei à denominação portuguesa alfarrobeira. O Houaiss somente registra acepção para a espécie européia:

Alfarrobeira, s.f.
árvore frondosa (Ceratonia siliqua) da fam. das leguminosas, subfam. cesalpinioídea, de caule tortuoso, folhas paripenadas, flores apétalas, avermelhadas ou esverdeadas, e grandes vagens cilíndricas, castanho-escuras; alfarroba, ervilhaca-parda, fava-rica, figueira-de-pitágoras, figueira-do-egito, pão-de-são-joão [Nativa do Mediterrâneo, é cultivada pela madeira e esp. pelo fruto, adstringente e tanífero, depois com polpa adocicada e comestível, tb. muito us. como forragem.]
ár. al-harruba ‘alfarrobeira’

Porém, o dicionário espanhol, a última edição do DRAE traz algumas confusões:

algarrobo.
(De algarroba).
1. m. Árbol siempre verde, de la familia de las Papilionáceas [1], de ocho a diez metros de altura, con copa de ramas irregulares y tortuosas, hojas lustrosas y coriáceas, flores purpúreas, y cuyo fruto es la algarroba. Originario de Oriente, se cría en las regiones marítimas templadas y florece en otoño y en invierno.
2. m. Am. Nombre de varios árboles o plantas, como el curbaril o el cenízaro.

[1] trata-se de um sinônimo de ‘fabáceas’.

Através dessas designações, comecei a juntar as designações populares da árvore pela Europa, visto que ela distribui-se pela bacia do Mediterrâneo. Aqui, a definição do Gran Diccionàri de la Llengua Catalana:

garrofer
[s. XIV; de garrofa]
m BOT/AGR 1 Arbre perennifoli de la família de les cesalpiniàcies (Ceratonia siliqua), de fulles paripinnades i fruits en llegum (garrofa).
2 garrofer del diable Arbust caducifoli de la família de les papilionàcies (Anagyris foetida), de fulles trifoliades, tòxic i pudent.

Em francês, a altura da árvore parece um pouco alterada. Enquanto as enciclopédias (Wikipédia: pt, es, it) dizem que a altura gira entre 7 e 10 metros, o Dictionaire de l’Académie Française indica a altura por volta dos 20 metros:

CAROUBIER n. m. XVIe siècle, carroubier. Dérivé de caroube.
BOT. Arbre de la famille des Césalpiniacées, à feuillage persistant, atteignant une hauteur de près de vingt mètres. Le bois rouge et dur du caroubier est propre aux ouvrages de menuiserie et de marqueterie.

A definição italiana do De Mauro-Paravia é mais sucinta ainda:

car|rù|bo
s.m.
TS bot.com., albero sempreverde (Ceratonia siliqua) che produce le carrube, dal quale si ricava un buon legno per ebanisteria
Varianti: carrubbio, carubo

Porém, nos dicionários, mesmo no de castelhano, falta a definição do algarrobo americano; em nenhum está indicado. Notadamente, em português aconteceu um processo diferente de nomeação das árvores do gênero Prosapis: adotou-se o nome castelhano, ou seja, em português chama-se as Prosapis de algarrobeira ou algarobeira, derivado do uso platino e ‘alfarrobeira’ continua destinada somente à Ceratonia siliqua, européia.
O mais interessante de se notar é que somente o dicionário de Português preocupou-se em explicar a etimologia da palavra, se bem que não se trata de um dicionário em-linha, como todos os outros citados, mas a versão em CD-Rom do Houaiss.

Depois de tudo isso, leitor, você se pergunta: e daí? E eu lhe respondo: é isso. Trata-se de um texto escrito por mera curiosidade, assim como os dados e informações aqui dispostas, unindo duas coisas a que tenho um amor profundo: as línguas e as árvores. Infelizmente tais árvores não há pelas nossas paragens, mas, um dia, hei-de observá-las.

* Atualização de 04 de agosto: o Diccionario Manual e Ilustrado de la Lengua Española (DMILE) fora erroneamente definido como sendo o Dicionário geral da Academia, o Diccionário de la Real Academia de la Lengua Española. Este dicionário-manual é uma versão resumida (não muito) e inclui acepções que não haviam ainda entrado no dicionário “oficial” (cfr. a própria introdução da publicação); salvo este engano, uma futura análise de alguns verbetes a ele pinçados, dará um interessante estudinho.

→ Leave a CommentCategorias: Catalão-Catalunha · Comunismo · Espanha · Europa · Hispanidad del Nuevo Mundo · Lingua · comes e bebes · filosofia barata · rio da Prata

European Hair Design Institute

Terça-feira, 29-Jul-2008 · 1 Comentário

(porque um nomezinho em english sempre vai bem)

Nossos revolucionários métodos da coiffure provêm de adaptações da arte capilar do Velho Mundo. Veja a cara de nossos clientes satisfeitos:

Radovan Karadžić, psiquiatra, homem público bósnio, ex-presidente da República Sérvia da Bósnia-Herzegóvina. “Sempre tive problema com as luzes em meus cachos; depois que descobri o European Hair Design Institute, eu e o Slobo (Slobodan Milosević) não vamos a outro salão; nós queríamos que os bósnios fossem também, mas eles eram muito radicais…”.

Q

Q

Win Duisenberg, economista, ex-presidente do Banco Central Europeu. “O cabelo que me ajudou a combater a baixa-maré do euro, eu o devo ao European Hair Design Institute, só assim consigo essa luminosidade e esse volume. E que volume!”.

Vá hoje mesmo a uma de nossas filiais e adote o european hair way of life. A União Européia o aguarda!

→ 1 CommentCategorias: Disparates · Europa · Politicamente-correto · Política · Situações ridículas

237. Tarde

Segunda-feira, 28-Jul-2008 · Deixe um Comentário

Uma tarde cansada; um quê de cortina de ferro havia no sol que banhava a rua. O ar, quente, subia em ondas do chão. Nada. Uma tarde que era a eternidade. Deus deve morar num lugar assim, na fronteira da Alemanha Democrática com a Polônia. Mas estamos sob a sombra das bananeiras e, no poder, um general mal-humorado. Mas não deixa de haver certas semelhanças; porra, mas que cansaço! E é a tarde de uma segunda-feira. Mas quando se está desempregado, todas as tardes, de todos os dias, parecem domingos, mas domingos assustadores, calorentos, domingos de dezembro e janeiro, quando o azul do céu baixa sobre as nossas cabeças. Imagino os alemães na África; Hitler os mandou para lá, em tanques; que calor! Panzerdivision. Atrás de um portaõzinho baixo, dorme o vira-lata de estimação, esparramado, sem ânimo. Ninguém na rua. O tempo parece arrastar-se na cadência de uma marcha militar. Parece que o mundo está imerso em água de conserva. Que tarde cansada!

→ Leave a CommentCategorias: Incompreensível · Vintage · comportamento

236. Frases e pessoas que formaram meu caráter

Sexta-feira, 25-Jul-2008 · 5 Comentários

Abaixo segue uma complicação extraída à memória, de frases engenhosas (ou nem tanto), mas que têm um peso cômico na minha existência.

“Se você compra um sutiã por duas parcelas de cem cruzeiros, eles põem lá ’sem juros’, mas os juros estão embutidos, você paga do mesmo jeito”

- professora substituta da segunda série, falando sobre a situação econômica, em alguma manha de 1990.

“Toma os seus cinqüenta centavos!”

- Anderson, um gordinho petulante, sobre diferenças a respeito da cobrança de um trabalho de geografia, na 6ª série, 1994; a moeda veio parar sobre a minha cabeça. Agradeço que foi àquela época, hoje, uma moeda de cinqüenta centavos pesa quase o mesmo que um tijolo, o “Ordem e progresso” piegas ficaria tatuado em minha testa.

“Coentro dá gosto de rato no feijão.”

- meu pai fazendo considerações gastronômicas, 1997.

“O Maluf vai dar emprego pra gente, caralho!”

- o imbecil mais estúpido do mundo (que fez colégio comigo), sobre em quem votaria nas eleições municipais, 1999.

“Ele também não sabe descascar laranja.”

- a mãe do Danilo (do colégio também), sobre seu filho, 1998.

“… e aquela merdaiada toda escorrendo pela parede…”

- Dona Conceição, vizinha mexeriqueira, indagando aos vizinhos de cima sobre possíveis canos de esgoto estourados, 1998.

“Não vou correndo, eu vou de carro!”

- resposta dada pelo marido da precedente quando incitado a “ir correndo fazer a reclamação na Prefeitura” sobre querela acerca do escoamento de água do terreno limítrofe, de nível superior ao seu; alegou não precisar cansar-se, pois poderia ir com seu automóvel, 1985.

“Não sei que tanto endeusam esse homem; se tivesse assumido a presidência, teria sido a mesma merda que foi o Sarney.”

- meu pai, sobre o inexistente governo Tancredo Neves, ca. 1999-2000.

“Morreu gente, mas foi bonito.”

- meu falecido tio Zé, sobre a pirotécnica explosão da Challenger, 1986.

“Espanhol bom nasce morto.”

- do falecido vô Quico, igualmente espanhol, algum ponto dos anos 1970.

“Quero todas as janelas dessa sala fechadas!”

- de uma diretora de uma repartição pública quando, a partir da resposta do técnico de informática que seu microcomputador estava lento “porque tem muita janela aberta”, mandou interromper a circulação de ar, ca. 1993-4.

→ 5 CommentsCategorias: Animais comestíveis · Cidade · Citações · Comunismo · Defecações · Disparates · Espanha · Europa · Fascismo · Incompreensível · Politicamente-correto · Situações ridículas · capitalismo selvagem · causa-mortis · comportamento · escritos · filosofia barata · inutilidades

235. Rotina

Segunda-feira, 21-Jul-2008 · 1 Comentário

Nasce o dia. Seria redundância afirmar que, na verdade, somos nós que nos fazemos visíveis ao sol e não o contrário? Mas o antropocentrismo ainda é lei, mesmo depois de Copérnico. Não importa muito, pois, nasceu o dia. Uma luz abóbora forte banha os telhados de amianto e as paredes de tijolo. Do seu apartamento, Constantino põe a cara ao sol, na janela, e decide por ir comprar os víveres para o café. Se não terminar a tradução hoje, não terá jantar. A padaria é na esquina, ele vai de roupão mesmo. Já o conhecem na padaria. Constantino pede o litro de leite C e os três pães franceses; ele ainda não se habitou a ver o preço do pão por quilo, ao invés da unidade. Tanto faz. Passa um ônibus cheio, algumas pessoas prendem a vista no vulto de cabelos desalinhados, de roupão de flanela e com o pão debaixo do braço. Volta para casa e toma seu café. Liga o computador e traz as tralhas cuja tradução está para terminar: um romance vagabundo. Acende um cigarro e a fumaça toma conta de todo quarto-sala da quitinete. Dicionário, gramática, teclas. O sol vai subindo e o rastro de luz desloca-se pelo ambiente, alterando a claridade do espaço de acordo com a cor do objeto sobre a qual incidia, até que saiu. Era meio-dia. Tradução quase pronta. Almoçou um cigarro, almoçou mais outro. Enquanto almoçava, olhava as nuvens pela janela. A quitinete, o caos, lá fora, alguma mãe ralhava com o filho pequeno, um caminhão rolava pelas avenidas abaixo. Da quite do lado vinha um barulho de rádio, era o boletim do tempo. Constantino voltou para a tradução. Acabou-a logo, imprimiu-a e colocou o calhamaço num envelope. Finalmente tirou o pijama, vestiu-se e saiu para deixar a tradução com aquele que a solicitara, um editor de livros safados, uns catecismos para gente adulta. Era o que conseguia, não podia largar, por mais que odiasse aquilo. Chegou ao prédio seboso no centro da cidade, com seus capitéis de pintura descascada e poeirentos, de remendos retilíneos alternando-se no original neoclássico. Entrou, deixou o RG com o porteiro e subiu pelo elevador velho, de grade ainda. À saída do elevador, uma placa igualmente sebosa, indicava os escritórios que funcionavam no andar; a editora era na última sala à esquerda. Bateu na porta descascada; abriu-a uma senhora de coque, era a mãe do dono. Bons-dias e entrou; ela pediu a Constantino que esperasse, que o Demerval – era o dono – fora até a padaria tomar um pingado. Esperou quase meia hora folheando revistas encontradas num revisteiro tão velho que poderia ter sido citado no Gênesis. Todas as revistas diziam a mesma coisa. Chegou Demerval, visivelmente bêbado e pediu para que Constantino se sentasse à sua mesa. Viu a tradução, elogiou o seu trabalho, como sempre faz e disse que iria depositar o dinheiro na terça-feira próxima. Constantino sabia que o dinheiro só viria na sexta, depois de uma chuva de telefonemas. Mas era a vida. Voltou para casa e ligou o televisor preto-e-branco; fumou mais uns cinco cigarros e não quis jantar, televisor lhe dava enjôo. Desligou-o e ligou o rádio. Ficou afundado na poltrona. Quando perdia os olhos nas luzes de mercúrio que pontuavam o horizonte, percebeu que algum pequeno animal estava junto à janela. Pensou que, certamente, tratava-se de um pombo ou pardal perdido, na meia luz da arandela não conseguia distinguir. Intrigou-o a insistência da ave e resolveu acender a luz para identificar melhor o que era. Levantou-se e bateu a mão no interruptor; virou a cabeça e, por instantes, pensou que fosse uma cobra, por causa do olhar parado, mas logo o animal começou a sair detrás da persiana e veio lentamente voando em direção à lâmpada acesa. Era uma sardinha. Constantino esfregou os olhos fortemente; ela continuava ali, voando ao redor da lâmpada como se nadasse. Baixou e foi fuçar junto do computador. Constantino cautelosamente tentou aproximar-se e a sardinha, percebendo a presença ameaçadora, fugiu em direção da estante de livros. Constantino pegou um pote de vidro na cozinha e tentou fazer com que a sardinha entrasse nele, sem sucesso, ela esvoaçou e foi para a lâmpada; da janela, outra sardinha tomava a direção da lâmpada, essa, um pouco maior que a primeira. Constantino achou melhor sentar-se novamente na poltrona e, com o coração na goela, olhava as sardinhas perseguirem-se e voltearem ao redor da lâmpada. De súbito, levantou-se e, num salto, conseguiu pegar uma. Era, de fato, na consistência e no aspecto, uma sardinha; só que viva no ar e que, ainda por cima, flutuava. Soltou-a e o peixinho correu a esconder-se. Antes de ir dormir, tentou pô-las para fora com o auxílio de uma vassoura, só que elas não quiseram saber de ir para a escuridão da rua. Constantino, tomado de pena, deixou que elas ficassem por lá.
No dia seguinte, ao levantar-se, preparou o café e nem se lembrava das sardinhas, achou que não tinha passado de um sonho; foi à geladeira e quando voltou, havia uma sardinha flutuando sobre a sua xícara e bebericando o seu café. O pote de requeijão espatifou-se no chão por causa do susto. A sardinha também se assustou com o barulho e foi-se para a sala. Constantino recolheu os cacos do copo e tomou seu café – pôs outro, pois ficou com nojo daquele em que a sardinha tinha encostado a boca. Sentou-se para trabalhar, em outra tradução e as sardinhas ficaram por ali. Às vezes paravam, quietas, junto ao chão, outras vezes esvoaçavam e corriam uma atrás da outra. Pelo andar da carruagem, elas ficariam por ali mesmo. Constantino pensou em dar-lhes nomes, mas nenhum nome veio-lhe à cabeça. Pensou em chamar o vizinho do rádio para ver, afinal, não era todo dia que sardinhas voadoras entravam pela janela.
Quando pôs a mão na maçaneta, veio-lhe um estalo: e se só ele estivesse vendo as sardinhas. Sardinhas são peixes, não voam. Olhou para tras e elas estavam ali, abrindo e fechando a boca, suas sombras projetavam-se no carpete, ou seja, a luz não lhes era indiferente. Mas poderia sim ser um sinal de loucura.
Resolveu vestir-se e sair e as sardinhas, com um impulso, resolveram segui-lo. Ele tentou mantê-las no apartamento, mas foi inútil, colaram-se às suas costas. E qual não foi a reação de Constantino quando saiu à rua e vi que cada pessoa tinha, pelo menos, duas sardinhas atrás de si. Num ônibus cheio que passava pela rua, as sardinhas faziam uma tremenda confusão, confundindo-se e esbarrando no rosto das pessoas.
Constantino olhou para as suas sardinhas e olhou para as sardinhas das pessoas que estavam em volta, todos as tinham. Foi ao escritório de Demerval e lá o encontrou com mais duas sardinhas; Dermerval o recebeu irônico: “ah, então também tem as suas, achei que tinha bebido demais”; a mãe contou a Constantino que o filho quase se jogara da janela por causa das sardinhas e fora ela que evitara o pior. Todos tinham as sardinhas.
Constantino voltou para casa e pôs-se a fumar. As cinzas que caíam do cigarro, as sardinhas as comiam.

→ 1 CommentCategorias: Disparates · Situações ridículas

234. Jardim

Quinta-feira, 17-Jul-2008 · 1 Comentário

O tédio, os olhos que ardem. O homem é o lobo de si mesmo, lembro-me disso das aulas de Latim, quando eu ainda tinha ânimo e energia para assistir aulas noturnas. Hoje, durmo cedo e mal consigo reger-me de pé. Quando penso que tenho de ficar dentro dum escritório durante oito horas, tratando das coisas mais desinteressantes com gente desinteressante, me vêm ganas de pular da janela. Só há um agravante: trabalho num piso térreo e minha sala sequer tem janelas. Nunca pensei que pudesse atribuir tanta importância às janelas, e hoje me fazem uma falta tremenda. Não que a sala não tenha janelas exatamente, mas, do meu lado, há uns postigos que dão para um corredor interno e, do outro, por dentro da sala envidraçada dos chefes, há uns basculantes um pouco maiores que dão para um jardim interno. Certo que é um jardim interno, a natureza enjaulada e posta num aquário, mas ainda assim é terra e é vida. Imagino, enquanto digito este texto insulso, a inconsciente felecidade dos tatus-bola, meus queridos e amados crustáceos terrestres. Cada jardim é uma praiazinha sem mar, ou melhor, com um mar de grama ou outra planta comportada e servil que se presta ao serviço de ser esquadrinhada e posta no formato que queiram os paisagistas. Prefiro pensar assim, porque, de vidas tediosas, os vagões enchem-se pela manhã; prefiro pensar na inconsciência alegre e quitinosa do tatuzinho-de-jardim, esse crustáceo desterrado e distraído que recria o seu mar de um dia na escuridão frouxa de sob as pedras – qual paisagista não gosta de pedras, argila espandida e pedrisco branco? E entre plantas e musgos, indirente aos que lhe cercam – esses insetos! – o crustáceo, inconsciente da sua evolução, pois jamais leu Darwin, e nem poderia, segue esperando, sem saber, a próxima etapa da lenta evolução sem fim.

→ 1 CommentCategorias: Burocracia · Cidade · Disparates · Incompreensível · Situações ridículas · capitalismo selvagem · comportamento · entomologia · filosofia barata · inutilidades

233. Manifesto pela língua incomum

Segunda-feira, 14-Jul-2008 · 6 Comentários

Nas Espanhas, não bastassem os consuetos problemas de intolerância lingüística (essa sim, perigosíssima) ocasionados pela Guarda Civil e pelos broncos de plantão, uma nova ameaça – de caráter ideológico – paira sobre a incipiente marcha das línguas nacionais espanholas: um certo “Manifiesto por la lengua común“. Tal documento, que ainda estamos a traduzi-lo para poder devidamente comentá-lo, é um opúsculo vagabundo que propugna ao castelhano o papel de “língua comum”, que nas regiões de língua própria, ele tem sido “menosprezado e deixado de lado”.

Precisa ser lembrado aos autores de tal manifesto (e também àqueles todos que o assinaram, como Mário Vargas Llosa) que a presença do castelhano na Galiza, nas Astúrias, na Cantábria, no País Basco, em Leão e nos Países Catalães é fruto de uma imposição política, da época em que os povos eram mantidos sob o jugo tirânico de uma monarquia absolutista e centralizadora. É absurdo como no texto do manifesto, fala-se em democracia; como se fala em democracia, quando se cerceia o direito a viver na sua língua materna? Aproveito e cito Vicent Partal que, falando sobre o mesmo assunto no VilaWeb, lembrou-se de um perigoso precendente:

Neste sentido, o manifesto nos faz lembrar muito o famoso Memorandum publicado em 1986 pela Academia Sérvia de Artes e Ciências, memorandum que serviu de base ideológica a Misolevic e terminou por levar à guerra e à independência de todas, absolutamente todas as áreas não majoritariamente sérvias da ex-Iugoslávia e ao isolamento internacional da Sérvia. O memorandum, por exemplo, afirmava, contra a realidade, que os únicos que não tinham direito a usar a sua língua eram os sérvios que viviam em territórios ‘bilíngües’ e reclamava a primazia imposta do servo-croata sobre todas as outras línguas, e tudo aquilo que não fosse a afirmação dessa idéia era ‘particularismo’ e ‘anti-democrático’.

Paralelo interessante. E é o que costumo dizer: você pode espoliar economicamente um povo, pode derrotá-lo em guerra, mas a maior humilhação possível, é obrigá-lo a usar uma língua que não é a sua. Bilingüísmo é uma opção, não uma obrigação. Penso em alguém da lista Migjorn (não me lembro exatamente quem, peço perdão) que disse: “Que diríam os suíços se alguém lhe visse com um manifesto desses”. Já foi o tempo em que tínhamos de aturar Ortega y Gasset e Miguel de Unamuno batendo-se nas Cortes contra as línguas regionais.

E para finalizar, ponho abaixo o texto que publiquei hoje no Sete línhas sobre o inquietante assunto e uma visão particular.

Manifesto pela língua incomum

Leio o que quero, quando se fala de notícias. Por isso, só sei o que quero saber. Nada de moças que somem em canais ou meninas volantes, e vê, que á imprensa muito lhe apraz esses assuntos. Fiquei matutando sobre um certo “Manifesto por la lengua común” que uns castelhanistas de meia-tigela querem impor a todas as Espanhas. Como se o castelhano já não fosse suficientemente imposto, querem acuar as línguas regionais; lembrei de alguém, vassoura em mãos batendo num cachorro. Por que temos de falar todos a mesma língua? Que há de mal? Gosto de falar português, gosto de escrever em catalão, gosto de pensar em italiano, gosto de fazer bilhetes em castelhano. Vargas Llosa que vá dormir e esqueça-me, faça-me o favor.

→ 6 CommentsCategorias: Catalanidade · Catalão-Catalunha · Citações · Direito lingüístico · Disparates · Espanha · Galego-Galícia · Incompreensível · Lingua · Línguas minoritárias · País Valenciano · Politicamente-correto · Política · Situações ridículas · comportamento

McLanche Feliz by Gorka Limotxo

Quinta-feira, 10-Jul-2008 · Deixe um Comentário

Do novo favorito (eis um enlace basco): Gorka Limotxo.

→ Leave a CommentCategorias: Citações · Disparates · Europa · Politicamente-correto

232. Lavalle 560: Buenos Airesko arbola

Quarta-feira, 09-Jul-2008 · 1 Comentário

Eis que nasce o nosso primeiro dia em Buenos Aires. A cidade nova espera lá fora, vamos tomar café no hotel e sair. De fato, um dia lindo, porém frio; não é possível ficar sem blusa. Descemos a Lavalle e saímos na dita Praça do Correio, que ostenta o grande edifício do Correio Central. Fomos fotografar a Casa Rosada, que está ali, junto à esquina com a Rivadavia. Para conseguirmos um melhor ângulo, nós quatro atravessamos a rua e ficamos numa pracinha pequenina. Na pracinha, uma estátua, uma estátua de bronze, representante um espanhol de mourão. Que surpresa ao ver que se tratava de Juan de Garay, o fundador de Buenos Aires e é lógico que pus a minha câmera para funcionar; atrás da estátua, um carvalho. Estou preocupando-me em tirar algumas fotografias da estátua e das várias plaquetas em seu pedestal de pedra. Percebo que uma delas está em basco e, logo abaixo, a tradução em castelhano. A placa dizia que o carvalho plantado atrás da estátua era uma muda retirada da famosa árvore de Guernica. Quase escutei “Gernikako arbola” nos ouvidos e fui ver a bendita árvore, também porque, por essas bandas cá, mais ao norte, não há carvalhos. E era um filho do carvalho de Gernica. Como a árvore estava já perdendo folhas por causa do inverno austral, não achei mal e trazer comigo duas folhas que ainda estavam bem verdes. Trouxe-as comigo para o Brasil.

→ 1 CommentCategorias: América Latina · Espanha · Hispanidad del Nuevo Mundo · Lingua · Línguas minoritárias · rio da Prata

231. Missa

Quinta-feira, 03-Jul-2008 · 1 Comentário

Igreja de Santa Ifigênia. A cantilena em latim era já cansativa, e ele (sim, sempre ele), estava ali. Terno branco, de linho e o chapéu de palhinha cristianamente no banco, ouvindo missa também. O padre e seu defumatório vinham e iam, na cadência do dominustecum. E aquele ir e vir o fez lembrar da Mariazinha, sim, a Mariazinha que ele ia visitar à noite, nas horas silentes. A igreja escura e sombria lembrou-lhe, por um segundo, a alcova da Mariazinha, aquele pardieiro imundo e tantas manchas no lençol. Mas ele percebeu a comparação e viu que era bom. A pouca luz externa, filtrada pelas nuvens e pelos vitrais e a luz amarelenta e quente das velas, dominante, davam à igreja um incomum aconchego. Quase em êxtase, passou o olhar pela igreja e via somente sedas envoltas pela luz quente, havia mesmo flores, e, no crucifixo, uma mulher de redondos e alvos seios. Era Mariazinha sangrante pregada à cruz e com uma dolorosa expressão no rosto. O susto o fez soltar um gemido curto e seco, que trouxe novamente a luz monótona da igreja e a voz pouco luminosa do padre e seu latim de breviário. O Cristo estava na cruz. Passado o susto, persignou-se e fez esforço para prestar atenção à missa e à salvação da alma. “Ite, missa est”, fez o padre rotundo com amplo gesto.

→ 1 CommentCategorias: Crônicas

230. Oulipianas

Terça-feira, 01-Jul-2008 · Deixe um Comentário

Seguindo o contrainte alfabético do Ouvroir de Littérature Potentielle.

Alfaiate, Bernardo cumpria diariamente elucidantes falhas graduais; helicoidais ímpetos justos limitavam muito novos ostracismos. Por querelas, resmungos, sarilhos, tentava unicamente viver; xícaras zuniam.

Acordado buliçosamente, Camilo dizia efemérides fazendo gargarejos. Hesitante, ia junto Leandro. Miguel negava. Orlando pendurava queijos (rentes à sala torquemadeana). urlavam xenofobias zodiacais.

Ai! Benevento caía dividida em facções gananciosas. Hedonistas irritavam-se juntos; lamentavam-se marcialmente na oval praça querida. Restavam somente turbas ululantes de Xenical zuretas.

Aurora bela cantava dedidalhos esfuziantes, femininamente graciosos. Havia imensas jutas lambendo montanhas nativas, olentes perfumados qüercos. Rugiam serras talhantes; xingos zoológicos.

Ao bater cadenciado dos elegantes e fastidiantes golpes, hélices imperiosas jaziam levianas. Mas não oligofrênicas; padeciam quenturas rubescentes secretas. Teciam Ulisses velozes e Xivas zangados.

Alugaram bela casa, detrás do Estuário. Fácil ganho (histórico imóvel). Juvenal limitou manobras navais, oceanograficamente perigosas, riscavam sarilhos tabuísticos. Urbes: vasos de xaxim zafimeiros.

Arrasto bolas candentes, descidas economicamente feridas. Gastando heliantos, indico juventudes limpas e maquinosas. No opróbrio pequeno, quis riscar silogismos tão únicos: verdades xumbregas e zarolhas.

Âmbar, berílio, carvão. Dúvidas efêmeras, fulgurantes, garbosas. Helenas imploram (jocosas), lâminas, manias, nácares. Ostras e pérolas quaisquer, rogavam seus timoneiros, urrando, veleidades; xilófagos zicavam.

→ Leave a CommentCategorias: Disparates · Europa · Lingua · Literatura · arte duvidosa · inutilidades · letras

229. Lamentáveis novas sobre o estulto, inapropriado e profundamente desagradável Acordo Ortográfico da Língua portuguesa, onde os pares do reino manifestam sua nefasta opinão favorável ao despropósito institucional

Sexta-feira, 27-Jun-2008 · 4 Comentários

Depois de algumas relutâncias, o parlamento português aprovou em 16 de maio, o texto do Acordo Ortográfico de 1990. Uma das grandes esperanças dos contrários à reforma era justamente a relutância portuguesa em pôr o acordo em prática.
Fora as questões políticas, há as questões práticas. Penso eu: quanto tempo vou demorar para acostumar-me às novas regras, muito embora rezem de pé junto por aí que somente cinco palavras em mil sofreriam modificações no português escrito do Brasil, e essa taxa subiria a 16 por mil em Portugal, nos países africanos de língua oficial portuguesa (horrivelmente apostrofados em PALOPs), além da Lusitânia dispersa (Timor e Macau).
Como já tratei desse assunto anteriormente no blogue, volto à carga: para que essas mudanças? São mínimas e não trarão benefício algum. Ao contrário: justamente por causa da hesitação política e nos recentes deslocamentos de ar trombetados na imprensa, se tem levantado alguma celeuma. O pior é tratar disso na escola. Na escola onde faço os estágios da Licenciatura, tantos alunos perguntaram que tive de dedicar quase quarenta minutos de uma aluna para explicar a reforma, e com um pequeno agravante, não fazia dez minutos que eu havia explicado o uso do trema.
“Mas, professor, se a trema (sic) vai cair, por que que a gente tem que (sic) aprender?”. Pronto, furdunço armado. E eu justamente vinha tratando com eles a importância da norma no auxílio à compreensão geral, ou seja, caí numa armadilha que eu mesmo pus a isca. Isso se passou em abril.
Em maio, os parlamentares do caro país-irmão fazem-me esse grande desserviço. Já é verdadeiro malabarismo fazer com que pessoas que vivem imersas num mundo materialista e que tratam o conhecimento como um mero instrumento entenderem um mínimo da “norma”, que dirá uma nova alteração.
Há horas em que temos de ser taxativos: “A mudança só passa a valer quando for aprovada; o que não aconteceu”. Porém, Portugal vem desferir o golpe fatal e o Acordo Ortográfico, como um rolo compressor em alta velocidade, vem se aproximando. Todos saímos perdendo: nós, Portugal e todos os outros.

→ 4 CommentsCategorias: Brasil · Burocracia · Defecações · Disparates · Europa · Incompreensível · Lingua · Política · Portugal · Reforma ortográfica · causa-mortis · entomologia · inutilidades

228. Quarenta aforismos de mau-tom, potencialmente ofensivos, defendidos com verborragia e grandiloqüência pelo autor deste blogue

Terça-feira, 24-Jun-2008 · 13 Comentários

1) Tibete é China.

2) As Malvinas são argentinas.

3) Tchetchênia é Rússia.

4) Catalunha não é Espanha.

5) O kemalismo parece um bom caminho.

6) O socialismo também.

7) A União Soviética faz falta.

8) Napoleão Bonaparte é o maior herói nacional brasileiro.

9) A democracia representativa está falida.

10) Há boa Literatura e porcarias.

11) Há boa música e lixo ruidoso.

12) Berimbau não é instrumento (se for, peço a inclusão da matraca e da sirene na mesma categoria)

13) A Anarquia não dará certo enquanto houver gente.

14) Galiza não é Espanha.

15) Muamar Kadafi não me parece tão ruim quanto parece.

16) Côssovo é Sérvia.

17) Terroristas de verdade são os EE. UU.

18) Religião é a negação de qualquer raciocínio e inteligência.

19) Há casos em que a democracia é desnecessária e incômoda.

20) Vegetarianismo militante é histeria politicamente correta.

21) Então, vejo vacas como comida.

22) Coelhos não são animais de estimação, mas sim galinhas de casaco.

23) Circo-escola não é cultura e muito menos “inclusão”.

24) Os brasileiros não temos identidade pátria.

25) País Basco não é Espanha.

26) O trema em português é necessário e imprescindível.

27) A televisão é nociva.

28) Mas basta desligá-la.

29) A Lingüística na USP é catequese e ditadura gerativista.

30) Academia de ginástica = rodinha para hamsters.

31) O Uruguai é um estado-tampão; só existe porque existem igualmente o Brasil e a Argentina e nenhum dos dois decidiu-se em cedê-lo para o outro.

32) A primeira utilidade do jornal é embrulhar peixe.

33) Logo perseguirão os fumantes como perseguiram os nazistas.

34) Antes ninguém se preocupava com colesterol e punham banha de porco no arroz; hoje, na ditadura dos índices médicos, a histeria tomou conta das velhas hipocondríacas e o arroz (ai, o arroz!) ficou sem gosto.

35) Só vou economizar papel quando pararem de publicar os tablóides britânicos, as revistas de fofoca e a “Caras”.

36) Absurdo é a classe média dizer “absurdo” a tudo que lhe contraria. Estou pegando asco da palavra.

37) Tanto desespero cá na terra; enquanto no espaço imediatamente superior à atmosfera tudo continua plácido.

38) A vida em outros planetas está tão longe (se estiver) que não vale a pena preocupar-se com ela.

39) Transes religiosos e descarregos são induzidos por mesmerização.

40) A literatura vai morrer porque o povo está sendo vítima de um processo de imbecilização em massa (viva a tevê!)

Faixa-bônus: não gostou, come menos.

→ 13 CommentsCategorias: Disparates · Politicamente-correto · Política