Estamos de casa nova: Hepáticas.
243. “Qui ens aclarirà amb què se’n van les taques de cafè?”
Domingo, 24-Ago-2008 · 7 Comentários
Meus amigos, meus poucos leitores
É comovido que vos agradeço a audiência, a paciência que dedicastes aos meus textos. Não são a melhor coisa do mundo, bem o sei, mas me esforcei para que fossem o mais interessante e bem construídos o possível. Deixo de escrever temporariamente; mas será uma pausa longa, no mínimo de um ano e alguma coisinha, tempo que creio necessário para pôr as coisas da vida em ordem.
Bons textos ou textos que sejam interessantes, às vezes nos vêm subitamente. Outras muitas vezes, uma idéia interessante tem de ser trabalhada, como o mineral bruto, até que seja o metal que dará vida a algum artefato útil, seja moeda, seja parafuso. Não quero escrever tão-somente por fazê-lo, por isso a necessidade imperiosa de parar.
Também não tenho o ímpeto ‘bloguicida’ e, por um certo sentido de auto-preservação e de apegar-se aos cacos, o blogue continuará aqui, como um memorial a não sei o que ou como uma cidade bombardeada. Os comentários ficaram destravados e, se quiserdes entrar em contacto, bastará escrever.
Um abraço a todos,
Sérgio
P. S.: como música de encerramento, poema sinfônico “Finlândia”, do Jean Sibelius.
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Mr. Otto in Olympics por Bruno Bozzetto
Quarta-feira, 20-Ago-2008 · Deixe um Comentário
Aproveitando todo chilique e frenesi por causa das Olimpíadas, um videozinho bonitinho para relaxar de tanta gente suada correndo, batendo-se, correndo atrás de bolas e fazendo contorcionismo.
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242. Ladeira General Carneiro, 06:45
Segunda-feira, 18-Ago-2008 · 5 Comentários
As primeiras pessoas desembarcadas dos ônibus que as trouxeram do subúrbio começam a subir a ladeira. E a descê-la também. O movimento começa. As primeiras lojas começam a erguer ruidosamente suas portas de aço. Os camelôs montam suas barracas de quinquilharias várias. De uma porta estreita, esmagada entre duas lojas, um homem obeso empurra seu obuseiro da batalha diária. Alta qual um homem e coberta de chapas de aço, a máquina desliza sobre suas rodinhas; é uma máquina, ou aparenta sê-lo. Com um toco feito de caibro – de algum telhado desmanchado nas redondezas – o gordo estanca a sede de correr ladeira a baixo da máquina. Volta à portinha e de lá vem com uma grande caixa de papelão cuja face aberta está tampada por uma folha de jornal. Da caixa, cheia e manchas profundas de gordura e poeira, emerge um espeto de carne, cilíndrico, de quase um metro, um cilindro feito de raspas de carne. O gordo encaixa-o à máquina, acende-a – antes, liga o gás – e, com um motor elétrico, o espeto começa a fazer o mundo girar ao seu redor. Será repasto de muita gente, aqueles nacos gordurosos de carne salgados e apimentados, dentro dum pão, acompanhados ainda de um suco amarelo.
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240. História particular
Sexta-feira, 08-Ago-2008 · Deixe um Comentário
Pequeno adendo antes da leitura: não pense, eventual leitor, após a leitura, que o relato abaixo vem de alguém que tenha orgulho de suas origens “européias” e limpinhas. A Europa da qual descendo é a Europa da guerra, da fome e da miséria. A sua também, descendente de italianos ou alemães; escória somos, escória seremos. Algo que me irritaria profundamente seria ser posto junto a essa escumalha de colônia que vê os países como são hoje e usam tal fato para jactanciar-se.
(Somos de la sexta, sexta división.)
A musiquinha ficou ecoando na minha cabeça a cada tecla batida. Espanha é um assunto que me intriga. Não gratuitamente. Muitos de nós, brasileiros – melhor, não tenho autoridade para falar por todos os brasileiros, digo então, paulistanos, melhor – então, muitos de nós, paulistanos, acabamos por interessar-nos por um país estrangeiro, geralmente pelos aspectos positivos. Vejos os descendentes de italianos, que se vangloriam do que a Itália é hoje. Mas e a Itália que os seus antepassados deixaram? Essa simplesmente não existiu. No meu caso, sou descendente de espanhóis, mas que me atrai na Espanha, não é a Espanha como ela é hoje, integrada na União Européia, é a Espanha de antes, a perdição da Europa, a Escandinávia do Magreb. Quero saber da Espanha histórica, real e sangrenta, que teve sua república dilacerada.
Minha ligação com a Espanha é mais do que sangue, é história, coisa que supera qualquer carga genética.
(Negras tormentas agitan los aires, nubes oscuras nos impiden ver.)
Minha história começa quando Francisco Franco, o oficial baixote e atarracado subleva as guarnições espanholas do Marrocos. Pois é, meu avô estava lá, às vésperas de acabar o serviço militar. Teve de ficar os três anos da guerra com o Franco. Os que não estavam de acordo? Bem, caso falassem, terminavam crivados de balas. Meu avô, galego como Francisco Franco, foi um dos “moros” que subiu do Marrocos a Espanha, aos quais gritaram e cantaram “¡No passarán!”; e passaram. Meu avô não gostava do Franco, mas era apolítico, tanto que não ia com a cara do Azaña também. Não sei se ele estava presente à tomada de Madri. Infelizmente, são detalhes que ele levou consigo para a cova antes que a minha curiosidade despontasse.
(Cara al sol con la camisa nueva, que tú bordaste rojo ayer.)
Sei que, quando foi depois do 1º de abril de 1939, quando a maioria das tropas foi desmobilizada, largaram meu avô mais outros na Extremadura; ele e mais um grupo de galegos (o número varia de acordo com quem conta a história, entre quatro e oito) subiram até lá a pé.
[continuará...]
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239. Comercial de repolho
Quarta-feira, 06-Ago-2008 · 2 Comentários
Comercial de repolho
Que novas que ventam desde a rede!
Vejo um antigo comercial de repolhos,
repolhos tchecos e socialistas,
com gente alegre e camarada.
Atrasados e estragados;
pois o socialismo
estragou-se antes dos repolhos.
de Postais da França, de Enrico Lupini
(Trad. Isaías Florentino, Editorial Moinho: Ferrol, 2007)
Muitos dos meus leitores sequer ouviram falar de Enrico Lupini. Eu também, confesso, que o conheci há poucas semanas: encontrei um livro seu num sebo de São Paulo. Trata-se de um obscuro autor italiano, siciliano. Nas orelhas do pequeno volume mal encadernado por uma editora galega de fundo-de-quintal localizada em Ferrol (cidade natal de Francisco Franco) e publicado em português por uma editora que se intitula “reintegracionista”; por isso a forma portuguesa da tradução.
As informações sobre o autor são poucas, nascido em Serradifalco (província de Caltanissetta, Sicília), Itália, em 1978. Ganhou duas edições do Concurso Literário da Comuna, tendo seu primeiro livro de poesias e crônicas curtas sobre a vida siciliana e italiana, Cartoline francesi (traduzido como Postais de França) publicado às expensas da administração comunal em 2002. A única publicação feita em língua estrangeira foi feita pela editora de Ferrol, em português. Seu segundo livro, Mille gennai, aguarda publicação também pela Administração comunal.
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European Hair Design Institute
Terça-feira, 29-Jul-2008 · 1 Comentário
(porque um nomezinho em english sempre vai bem)
Nossos revolucionários métodos da coiffure provêm de adaptações da arte capilar do Velho Mundo. Veja a cara de nossos clientes satisfeitos:
Radovan Karadžić, psiquiatra, homem público bósnio, ex-presidente da República Sérvia da Bósnia-Herzegóvina. “Sempre tive problema com as luzes em meus cachos; depois que descobri o European Hair Design Institute, eu e o Slobo (Slobodan Milosević) não vamos a outro salão; nós queríamos que os bósnios fossem também, mas eles eram muito radicais…”.
Q
Q
Win Duisenberg, economista, ex-presidente do Banco Central Europeu. “O cabelo que me ajudou a combater a baixa-maré do euro, eu o devo ao European Hair Design Institute, só assim consigo essa luminosidade e esse volume. E que volume!”.
Vá hoje mesmo a uma de nossas filiais e adote o european hair way of life. A União Européia o aguarda!
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237. Tarde
Segunda-feira, 28-Jul-2008 · Deixe um Comentário
Uma tarde cansada; um quê de cortina de ferro havia no sol que banhava a rua. O ar, quente, subia em ondas do chão. Nada. Uma tarde que era a eternidade. Deus deve morar num lugar assim, na fronteira da Alemanha Democrática com a Polônia. Mas estamos sob a sombra das bananeiras e, no poder, um general mal-humorado. Mas não deixa de haver certas semelhanças; porra, mas que cansaço! E é a tarde de uma segunda-feira. Mas quando se está desempregado, todas as tardes, de todos os dias, parecem domingos, mas domingos assustadores, calorentos, domingos de dezembro e janeiro, quando o azul do céu baixa sobre as nossas cabeças. Imagino os alemães na África; Hitler os mandou para lá, em tanques; que calor! Panzerdivision. Atrás de um portaõzinho baixo, dorme o vira-lata de estimação, esparramado, sem ânimo. Ninguém na rua. O tempo parece arrastar-se na cadência de uma marcha militar. Parece que o mundo está imerso em água de conserva. Que tarde cansada!
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235. Rotina
Segunda-feira, 21-Jul-2008 · 1 Comentário
Nasce o dia. Seria redundância afirmar que, na verdade, somos nós que nos fazemos visíveis ao sol e não o contrário? Mas o antropocentrismo ainda é lei, mesmo depois de Copérnico. Não importa muito, pois, nasceu o dia. Uma luz abóbora forte banha os telhados de amianto e as paredes de tijolo. Do seu apartamento, Constantino põe a cara ao sol, na janela, e decide por ir comprar os víveres para o café. Se não terminar a tradução hoje, não terá jantar. A padaria é na esquina, ele vai de roupão mesmo. Já o conhecem na padaria. Constantino pede o litro de leite C e os três pães franceses; ele ainda não se habitou a ver o preço do pão por quilo, ao invés da unidade. Tanto faz. Passa um ônibus cheio, algumas pessoas prendem a vista no vulto de cabelos desalinhados, de roupão de flanela e com o pão debaixo do braço. Volta para casa e toma seu café. Liga o computador e traz as tralhas cuja tradução está para terminar: um romance vagabundo. Acende um cigarro e a fumaça toma conta de todo quarto-sala da quitinete. Dicionário, gramática, teclas. O sol vai subindo e o rastro de luz desloca-se pelo ambiente, alterando a claridade do espaço de acordo com a cor do objeto sobre a qual incidia, até que saiu. Era meio-dia. Tradução quase pronta. Almoçou um cigarro, almoçou mais outro. Enquanto almoçava, olhava as nuvens pela janela. A quitinete, o caos, lá fora, alguma mãe ralhava com o filho pequeno, um caminhão rolava pelas avenidas abaixo. Da quite do lado vinha um barulho de rádio, era o boletim do tempo. Constantino voltou para a tradução. Acabou-a logo, imprimiu-a e colocou o calhamaço num envelope. Finalmente tirou o pijama, vestiu-se e saiu para deixar a tradução com aquele que a solicitara, um editor de livros safados, uns catecismos para gente adulta. Era o que conseguia, não podia largar, por mais que odiasse aquilo. Chegou ao prédio seboso no centro da cidade, com seus capitéis de pintura descascada e poeirentos, de remendos retilíneos alternando-se no original neoclássico. Entrou, deixou o RG com o porteiro e subiu pelo elevador velho, de grade ainda. À saída do elevador, uma placa igualmente sebosa, indicava os escritórios que funcionavam no andar; a editora era na última sala à esquerda. Bateu na porta descascada; abriu-a uma senhora de coque, era a mãe do dono. Bons-dias e entrou; ela pediu a Constantino que esperasse, que o Demerval – era o dono – fora até a padaria tomar um pingado. Esperou quase meia hora folheando revistas encontradas num revisteiro tão velho que poderia ter sido citado no Gênesis. Todas as revistas diziam a mesma coisa. Chegou Demerval, visivelmente bêbado e pediu para que Constantino se sentasse à sua mesa. Viu a tradução, elogiou o seu trabalho, como sempre faz e disse que iria depositar o dinheiro na terça-feira próxima. Constantino sabia que o dinheiro só viria na sexta, depois de uma chuva de telefonemas. Mas era a vida. Voltou para casa e ligou o televisor preto-e-branco; fumou mais uns cinco cigarros e não quis jantar, televisor lhe dava enjôo. Desligou-o e ligou o rádio. Ficou afundado na poltrona. Quando perdia os olhos nas luzes de mercúrio que pontuavam o horizonte, percebeu que algum pequeno animal estava junto à janela. Pensou que, certamente, tratava-se de um pombo ou pardal perdido, na meia luz da arandela não conseguia distinguir. Intrigou-o a insistência da ave e resolveu acender a luz para identificar melhor o que era. Levantou-se e bateu a mão no interruptor; virou a cabeça e, por instantes, pensou que fosse uma cobra, por causa do olhar parado, mas logo o animal começou a sair detrás da persiana e veio lentamente voando em direção à lâmpada acesa. Era uma sardinha. Constantino esfregou os olhos fortemente; ela continuava ali, voando ao redor da lâmpada como se nadasse. Baixou e foi fuçar junto do computador. Constantino cautelosamente tentou aproximar-se e a sardinha, percebendo a presença ameaçadora, fugiu em direção da estante de livros. Constantino pegou um pote de vidro na cozinha e tentou fazer com que a sardinha entrasse nele, sem sucesso, ela esvoaçou e foi para a lâmpada; da janela, outra sardinha tomava a direção da lâmpada, essa, um pouco maior que a primeira. Constantino achou melhor sentar-se novamente na poltrona e, com o coração na goela, olhava as sardinhas perseguirem-se e voltearem ao redor da lâmpada. De súbito, levantou-se e, num salto, conseguiu pegar uma. Era, de fato, na consistência e no aspecto, uma sardinha; só que viva no ar e que, ainda por cima, flutuava. Soltou-a e o peixinho correu a esconder-se. Antes de ir dormir, tentou pô-las para fora com o auxílio de uma vassoura, só que elas não quiseram saber de ir para a escuridão da rua. Constantino, tomado de pena, deixou que elas ficassem por lá.
No dia seguinte, ao levantar-se, preparou o café e nem se lembrava das sardinhas, achou que não tinha passado de um sonho; foi à geladeira e quando voltou, havia uma sardinha flutuando sobre a sua xícara e bebericando o seu café. O pote de requeijão espatifou-se no chão por causa do susto. A sardinha também se assustou com o barulho e foi-se para a sala. Constantino recolheu os cacos do copo e tomou seu café – pôs outro, pois ficou com nojo daquele em que a sardinha tinha encostado a boca. Sentou-se para trabalhar, em outra tradução e as sardinhas ficaram por ali. Às vezes paravam, quietas, junto ao chão, outras vezes esvoaçavam e corriam uma atrás da outra. Pelo andar da carruagem, elas ficariam por ali mesmo. Constantino pensou em dar-lhes nomes, mas nenhum nome veio-lhe à cabeça. Pensou em chamar o vizinho do rádio para ver, afinal, não era todo dia que sardinhas voadoras entravam pela janela.
Quando pôs a mão na maçaneta, veio-lhe um estalo: e se só ele estivesse vendo as sardinhas. Sardinhas são peixes, não voam. Olhou para tras e elas estavam ali, abrindo e fechando a boca, suas sombras projetavam-se no carpete, ou seja, a luz não lhes era indiferente. Mas poderia sim ser um sinal de loucura.
Resolveu vestir-se e sair e as sardinhas, com um impulso, resolveram segui-lo. Ele tentou mantê-las no apartamento, mas foi inútil, colaram-se às suas costas. E qual não foi a reação de Constantino quando saiu à rua e vi que cada pessoa tinha, pelo menos, duas sardinhas atrás de si. Num ônibus cheio que passava pela rua, as sardinhas faziam uma tremenda confusão, confundindo-se e esbarrando no rosto das pessoas.
Constantino olhou para as suas sardinhas e olhou para as sardinhas das pessoas que estavam em volta, todos as tinham. Foi ao escritório de Demerval e lá o encontrou com mais duas sardinhas; Dermerval o recebeu irônico: “ah, então também tem as suas, achei que tinha bebido demais”; a mãe contou a Constantino que o filho quase se jogara da janela por causa das sardinhas e fora ela que evitara o pior. Todos tinham as sardinhas.
Constantino voltou para casa e pôs-se a fumar. As cinzas que caíam do cigarro, as sardinhas as comiam.
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233. Manifesto pela língua incomum
Segunda-feira, 14-Jul-2008 · 6 Comentários
Nas Espanhas, não bastassem os consuetos problemas de intolerância lingüística (essa sim, perigosíssima) ocasionados pela Guarda Civil e pelos broncos de plantão, uma nova ameaça – de caráter ideológico – paira sobre a incipiente marcha das línguas nacionais espanholas: um certo “Manifiesto por la lengua común“. Tal documento, que ainda estamos a traduzi-lo para poder devidamente comentá-lo, é um opúsculo vagabundo que propugna ao castelhano o papel de “língua comum”, que nas regiões de língua própria, ele tem sido “menosprezado e deixado de lado”.
Precisa ser lembrado aos autores de tal manifesto (e também àqueles todos que o assinaram, como Mário Vargas Llosa) que a presença do castelhano na Galiza, nas Astúrias, na Cantábria, no País Basco, em Leão e nos Países Catalães é fruto de uma imposição política, da época em que os povos eram mantidos sob o jugo tirânico de uma monarquia absolutista e centralizadora. É absurdo como no texto do manifesto, fala-se em democracia; como se fala em democracia, quando se cerceia o direito a viver na sua língua materna? Aproveito e cito Vicent Partal que, falando sobre o mesmo assunto no VilaWeb, lembrou-se de um perigoso precendente:
Neste sentido, o manifesto nos faz lembrar muito o famoso Memorandum publicado em 1986 pela Academia Sérvia de Artes e Ciências, memorandum que serviu de base ideológica a Misolevic e terminou por levar à guerra e à independência de todas, absolutamente todas as áreas não majoritariamente sérvias da ex-Iugoslávia e ao isolamento internacional da Sérvia. O memorandum, por exemplo, afirmava, contra a realidade, que os únicos que não tinham direito a usar a sua língua eram os sérvios que viviam em territórios ‘bilíngües’ e reclamava a primazia imposta do servo-croata sobre todas as outras línguas, e tudo aquilo que não fosse a afirmação dessa idéia era ‘particularismo’ e ‘anti-democrático’.
Paralelo interessante. E é o que costumo dizer: você pode espoliar economicamente um povo, pode derrotá-lo em guerra, mas a maior humilhação possível, é obrigá-lo a usar uma língua que não é a sua. Bilingüísmo é uma opção, não uma obrigação. Penso em alguém da lista Migjorn (não me lembro exatamente quem, peço perdão) que disse: “Que diríam os suíços se alguém lhe visse com um manifesto desses”. Já foi o tempo em que tínhamos de aturar Ortega y Gasset e Miguel de Unamuno batendo-se nas Cortes contra as línguas regionais.
E para finalizar, ponho abaixo o texto que publiquei hoje no Sete línhas sobre o inquietante assunto e uma visão particular.
Manifesto pela língua incomum
Leio o que quero, quando se fala de notícias. Por isso, só sei o que quero saber. Nada de moças que somem em canais ou meninas volantes, e vê, que á imprensa muito lhe apraz esses assuntos. Fiquei matutando sobre um certo “Manifesto por la lengua común” que uns castelhanistas de meia-tigela querem impor a todas as Espanhas. Como se o castelhano já não fosse suficientemente imposto, querem acuar as línguas regionais; lembrei de alguém, vassoura em mãos batendo num cachorro. Por que temos de falar todos a mesma língua? Que há de mal? Gosto de falar português, gosto de escrever em catalão, gosto de pensar em italiano, gosto de fazer bilhetes em castelhano. Vargas Llosa que vá dormir e esqueça-me, faça-me o favor.
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McLanche Feliz by Gorka Limotxo
Quinta-feira, 10-Jul-2008 · Deixe um Comentário
Do novo favorito (eis um enlace basco): Gorka Limotxo.
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232. Lavalle 560: Buenos Airesko arbola
Quarta-feira, 09-Jul-2008 · 1 Comentário
Eis que nasce o nosso primeiro dia em Buenos Aires. A cidade nova espera lá fora, vamos tomar café no hotel e sair. De fato, um dia lindo, porém frio; não é possível ficar sem blusa. Descemos a Lavalle e saímos na dita Praça do Correio, que ostenta o grande edifício do Correio Central. Fomos fotografar a Casa Rosada, que está ali, junto à esquina com a Rivadavia. Para conseguirmos um melhor ângulo, nós quatro atravessamos a rua e ficamos numa pracinha pequenina. Na pracinha, uma estátua, uma estátua de bronze, representante um espanhol de mourão. Que surpresa ao ver que se tratava de Juan de Garay, o fundador de Buenos Aires e é lógico que pus a minha câmera para funcionar; atrás da estátua, um carvalho. Estou preocupando-me em tirar algumas fotografias da estátua e das várias plaquetas em seu pedestal de pedra. Percebo que uma delas está em basco e, logo abaixo, a tradução em castelhano. A placa dizia que o carvalho plantado atrás da estátua era uma muda retirada da famosa árvore de Guernica. Quase escutei “Gernikako arbola” nos ouvidos e fui ver a bendita árvore, também porque, por essas bandas cá, mais ao norte, não há carvalhos. E era um filho do carvalho de Gernica. Como a árvore estava já perdendo folhas por causa do inverno austral, não achei mal e trazer comigo duas folhas que ainda estavam bem verdes. Trouxe-as comigo para o Brasil.


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231. Missa
Quinta-feira, 03-Jul-2008 · 1 Comentário
Igreja de Santa Ifigênia. A cantilena em latim era já cansativa, e ele (sim, sempre ele), estava ali. Terno branco, de linho e o chapéu de palhinha cristianamente no banco, ouvindo missa também. O padre e seu defumatório vinham e iam, na cadência do dominustecum. E aquele ir e vir o fez lembrar da Mariazinha, sim, a Mariazinha que ele ia visitar à noite, nas horas silentes. A igreja escura e sombria lembrou-lhe, por um segundo, a alcova da Mariazinha, aquele pardieiro imundo e tantas manchas no lençol. Mas ele percebeu a comparação e viu que era bom. A pouca luz externa, filtrada pelas nuvens e pelos vitrais e a luz amarelenta e quente das velas, dominante, davam à igreja um incomum aconchego. Quase em êxtase, passou o olhar pela igreja e via somente sedas envoltas pela luz quente, havia mesmo flores, e, no crucifixo, uma mulher de redondos e alvos seios. Era Mariazinha sangrante pregada à cruz e com uma dolorosa expressão no rosto. O susto o fez soltar um gemido curto e seco, que trouxe novamente a luz monótona da igreja e a voz pouco luminosa do padre e seu latim de breviário. O Cristo estava na cruz. Passado o susto, persignou-se e fez esforço para prestar atenção à missa e à salvação da alma. “Ite, missa est”, fez o padre rotundo com amplo gesto.
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230. Oulipianas
Terça-feira, 01-Jul-2008 · Deixe um Comentário
Seguindo o contrainte alfabético do Ouvroir de Littérature Potentielle.
Alfaiate, Bernardo cumpria diariamente elucidantes falhas graduais; helicoidais ímpetos justos limitavam muito novos ostracismos. Por querelas, resmungos, sarilhos, tentava unicamente viver; xícaras zuniam.
Acordado buliçosamente, Camilo dizia efemérides fazendo gargarejos. Hesitante, ia junto Leandro. Miguel negava. Orlando pendurava queijos (rentes à sala torquemadeana). urlavam xenofobias zodiacais.
Ai! Benevento caía dividida em facções gananciosas. Hedonistas irritavam-se juntos; lamentavam-se marcialmente na oval praça querida. Restavam somente turbas ululantes de Xenical zuretas.
Aurora bela cantava dedidalhos esfuziantes, femininamente graciosos. Havia imensas jutas lambendo montanhas nativas, olentes perfumados qüercos. Rugiam serras talhantes; xingos zoológicos.
Ao bater cadenciado dos elegantes e fastidiantes golpes, hélices imperiosas jaziam levianas. Mas não oligofrênicas; padeciam quenturas rubescentes secretas. Teciam Ulisses velozes e Xivas zangados.
Alugaram bela casa, detrás do Estuário. Fácil ganho (histórico imóvel). Juvenal limitou manobras navais, oceanograficamente perigosas, riscavam sarilhos tabuísticos. Urbes: vasos de xaxim zafimeiros.
Arrasto bolas candentes, descidas economicamente feridas. Gastando heliantos, indico juventudes limpas e maquinosas. No opróbrio pequeno, quis riscar silogismos tão únicos: verdades xumbregas e zarolhas.
Âmbar, berílio, carvão. Dúvidas efêmeras, fulgurantes, garbosas. Helenas imploram (jocosas), lâminas, manias, nácares. Ostras e pérolas quaisquer, rogavam seus timoneiros, urrando, veleidades; xilófagos zicavam.
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229. Lamentáveis novas sobre o estulto, inapropriado e profundamente desagradável Acordo Ortográfico da Língua portuguesa, onde os pares do reino manifestam sua nefasta opinão favorável ao despropósito institucional
Sexta-feira, 27-Jun-2008 · 4 Comentários
Depois de algumas relutâncias, o parlamento português aprovou em 16 de maio, o texto do Acordo Ortográfico de 1990. Uma das grandes esperanças dos contrários à reforma era justamente a relutância portuguesa em pôr o acordo em prática.
Fora as questões políticas, há as questões práticas. Penso eu: quanto tempo vou demorar para acostumar-me às novas regras, muito embora rezem de pé junto por aí que somente cinco palavras em mil sofreriam modificações no português escrito do Brasil, e essa taxa subiria a 16 por mil em Portugal, nos países africanos de língua oficial portuguesa (horrivelmente apostrofados em PALOPs), além da Lusitânia dispersa (Timor e Macau).
Como já tratei desse assunto anteriormente no blogue, volto à carga: para que essas mudanças? São mínimas e não trarão benefício algum. Ao contrário: justamente por causa da hesitação política e nos recentes deslocamentos de ar trombetados na imprensa, se tem levantado alguma celeuma. O pior é tratar disso na escola. Na escola onde faço os estágios da Licenciatura, tantos alunos perguntaram que tive de dedicar quase quarenta minutos de uma aluna para explicar a reforma, e com um pequeno agravante, não fazia dez minutos que eu havia explicado o uso do trema.
“Mas, professor, se a trema (sic) vai cair, por que que a gente tem que (sic) aprender?”. Pronto, furdunço armado. E eu justamente vinha tratando com eles a importância da norma no auxílio à compreensão geral, ou seja, caí numa armadilha que eu mesmo pus a isca. Isso se passou em abril.
Em maio, os parlamentares do caro país-irmão fazem-me esse grande desserviço. Já é verdadeiro malabarismo fazer com que pessoas que vivem imersas num mundo materialista e que tratam o conhecimento como um mero instrumento entenderem um mínimo da “norma”, que dirá uma nova alteração.
Há horas em que temos de ser taxativos: “A mudança só passa a valer quando for aprovada; o que não aconteceu”. Porém, Portugal vem desferir o golpe fatal e o Acordo Ortográfico, como um rolo compressor em alta velocidade, vem se aproximando. Todos saímos perdendo: nós, Portugal e todos os outros.
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228. Quarenta aforismos de mau-tom, potencialmente ofensivos, defendidos com verborragia e grandiloqüência pelo autor deste blogue
Terça-feira, 24-Jun-2008 · 13 Comentários

1) Tibete é China.
2) As Malvinas são argentinas.
3) Tchetchênia é Rússia.
4) Catalunha não é Espanha.
5) O kemalismo parece um bom caminho.
6) O socialismo também.
7) A União Soviética faz falta.
8) Napoleão Bonaparte é o maior herói nacional brasileiro.
9) A democracia representativa está falida.
10) Há boa Literatura e porcarias.
11) Há boa música e lixo ruidoso.
12) Berimbau não é instrumento (se for, peço a inclusão da matraca e da sirene na mesma categoria)
13) A Anarquia não dará certo enquanto houver gente.
14) Galiza não é Espanha.
15) Muamar Kadafi não me parece tão ruim quanto parece.
16) Côssovo é Sérvia.
17) Terroristas de verdade são os EE. UU.
18) Religião é a negação de qualquer raciocínio e inteligência.
19) Há casos em que a democracia é desnecessária e incômoda.
20) Vegetarianismo militante é histeria politicamente correta.
21) Então, vejo vacas como comida.
22) Coelhos não são animais de estimação, mas sim galinhas de casaco.
23) Circo-escola não é cultura e muito menos “inclusão”.
24) Os brasileiros não temos identidade pátria.
25) País Basco não é Espanha.
26) O trema em português é necessário e imprescindível.
27) A televisão é nociva.
28) Mas basta desligá-la.
29) A Lingüística na USP é catequese e ditadura gerativista.
30) Academia de ginástica = rodinha para hamsters.
31) O Uruguai é um estado-tampão; só existe porque existem igualmente o Brasil e a Argentina e nenhum dos dois decidiu-se em cedê-lo para o outro.
32) A primeira utilidade do jornal é embrulhar peixe.
33) Logo perseguirão os fumantes como perseguiram os nazistas.
34) Antes ninguém se preocupava com colesterol e punham banha de porco no arroz; hoje, na ditadura dos índices médicos, a histeria tomou conta das velhas hipocondríacas e o arroz (ai, o arroz!) ficou sem gosto.
35) Só vou economizar papel quando pararem de publicar os tablóides britânicos, as revistas de fofoca e a “Caras”.
36) Absurdo é a classe média dizer “absurdo” a tudo que lhe contraria. Estou pegando asco da palavra.
37) Tanto desespero cá na terra; enquanto no espaço imediatamente superior à atmosfera tudo continua plácido.
38) A vida em outros planetas está tão longe (se estiver) que não vale a pena preocupar-se com ela.
39) Transes religiosos e descarregos são induzidos por mesmerização.
40) A literatura vai morrer porque o povo está sendo vítima de um processo de imbecilização em massa (viva a tevê!)
Faixa-bônus: não gostou, come menos.
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