O atroz sentido da vida ovvero Tragédia grega
Stéfanos Theodorákis, numa manhã poeirenta de 1948, teve um estalo. Soube, de súbito, qual era o sentido da vida. Porém, tal descoberta o fez atravessar a rua distraído e um caminhão do Exército colheu-o no meio-fio, numa ruela do Pireu. O bode deu seu balido longo e dorido. O corpo de Theodorákis ficou irreconhecível, o caminhão de frente alta, pegou-o justamente com a frente, que parecia uma muralha; e só se descobriu quem era o bagaço humano porque Giannis Papandreou, primo de segundo grau de Stéfanos, vira-o desde uns cem metros e pôde dizer à polícia e ao resto da família o que houve. O caminhão do Exército foi embora em direção às montanhas ao norte. Afinal, estava-se em guerra civil, o cabo Karoúzos nem parou o caminhão, muito embora tivesse visto, e sentido o baque do corpo, que voltou moído em direção à calçada. Vinha em alta velocidade, era um reforço para as tropas que estavam ali, logo ao norte de Atenas. Era ordem não parar para nada, afinal, era guerra e lei marcial. Se o fulano estava no meio da rua bêbado, com cara de quem acabara de sair dum cabaré – e não havia poucos ali – e dançado ou trepado a noite toda, não era culpa sua. Essa foi a impressão de Karoúzos antes de brecar, que o fulano sarabandeava totalmente bêbado pela rua. Percepção semelhante teve Papandreou que, como já informado, vira o primo uma centena de metros antes, tinha a mesma impressão, ou seja, de que Theodorákis parecia estar dançando no meio fio. A situação não estava ainda muito boa, embora os combates muito próximos a Atenas tivessem cessado. Faltava de tudo. Não havia sequer caixão. Andreopoúlos, da funerária, disse que os caixões eram todos requisitados pelo Exército. Stéfanos Theodorákis, o homem que, numa manhã poeirenta de 1948, andando pelo Pireu, chegou a uma conclusão plausível do que era a vida, teve a alegria intensa (ou o desprazer) de ter encontrado algo que identificou como um sentido para a existência do ser humano – se é que há uma. O que quer que seja, Stéfanos Theodorákis levou-a para a sepultura e sem caixão, pois não havia. Foi somente com a sua idéia e um lençol branco que lhe serviu de mortalha. Foi enterrado como bêbado e, mesmo o seu túmulo ficou sem a placa necessária para identificá-lo durante uns dez anos. A história ficou famosa pela cidade e, volta-e-meia apareciam umas garrafas sobre o túmulo que, inicialmente era uma montanhazinha de terra revolvida e virou, com o tempo, uma irregularidade não muito alta na terra do cemitério. Umas garrafas e uma placa de madeira que, até a colocação da definitiva, teve, em alguns intervalos de tempo, uma placa de madeira, pintada sempre pelo irmão de Stéfanos, Andréas, que logo desbotava e carunchava-se. Até hoje, tantos anos depois, aparece alguma garrafa sobre o túmulo – hoje de pedra – de Stéfanos Theodorákis, chamado de Ághios Stéfanos, São Estéfano, pelos bêbados de Atenas e por eles declarado seu protetor e patrono. Mas ninguém jamais soube que, Stéfanos Theodorákis, naquela longínqua manhã poeirenta de 1948, teve um estalo, um certo estalo.






2 respostas até agora ↓
donato // Segunda-feira, 16-Out-2006 às 13:57 |
Isso de achar sentido no que não há é mesmo coisa de bêbados.
Anouk // Terça-feira, 17-Out-2006 às 11:39 |
De onde vc tira estas coisas? hehehe.