A vida pregressa de Stéfanos Theodorákis: A perna de pau
Stéfanos morava no próprio Pireu. Eis o por que de ter sido aí mesmo atropelado. Morava ali, portanto, a conclusão do cabo Karoúzos - o motorista do caminhão do Exército que o pegou em cheio - está errada. Stéfanos e a família - o que sobrou dela - não eram dali, eram todos do norte, de perto da fronteira com a Albânia. Saíram dali empurrados por uma desgraça pessoal, foi a ocasião em que a família Theodorákis ficou sem o patriarca, Nikolaos que, pastoreando suas ovelhas, deixava que elas danificassem as plantações alheias, as couves dos vizinhos de um lado, os rabanetes de outro. Primeiro, Nikolaos foi advertido, porém, como ignorava as reprimendas dos vizinhos, esses saíram a sua busca num dia qualquer. Achado o pastor, quebraram-lhe os ossos a bastonadas e um dos agressores não se esqueceu de trazer um garrafão de óleo de rícino, o qual foi bebido na totalidade de seus seis litros pelo moribundo Nikolaos. Largaram-no sovado e borrado atrás dumas moitas, no sopé duma pequena montanha; morreu de tanto borrar-se.
Daí a família mudou-se para Atenas, pois a mãe de Stéfanos, tinha ali uma irmã solteirona que largara muito antes a aldeola. Instalados na casa da tia, Stéfanos, jovenzinho de tudo, tinha certa liberdade para andar pelos arredores, mesmo que não fossem lá muito bem freqüentados. Ia para a escola e voltava dela. A tia e a mãe viúva ficavam o dia todo em casa, saíam à noite para trabalhar.
Certa vez, quando voltava da escola, Stéfanos atravessou a rua distraïdamente e foi pego por um caminhão: o seu primeiro atropelamento, bons anos antes do fatal, na manhã poeirenta de 1948. Era um caminhão de galinhas. Galinhas que estavam a ser levadas para o abatedouro. Dessa primeira vez, o caminhão parou. A perna esquerda onde o titã metálico passou com a roda dianteira era somente uns tantos pedaços de carne e osso, tudo bem macerado. O médico do pronto-socorro disse que a perna teria de ser amputada. Andou apoiado nas muletas um semestre todo e, no Natal, quando as crianças ganhavam os rústicos brinquedos de madeira que as gentes pobres podiam confeccionar ou comprar, Stéfanos ganhou uma perna de pau. Graciosamente esculpida por Andreopoúlos, o artífice de caixões que tinha suas veleidades artísticas. Poderia dizer que a pena esculpida e tão belamente trabalhada, que poderia dizer que sua nova canela esquerda, de bom pinho, com pêlos talhados, e o detalhe dos pés, unha por unha que parecia o pé de uma das estátuas do museu, aquelas dos tempos áureos de Péricles e toda aquela velharia das cidades-estado; era sim, sua canela lígnea, bem torneada e toda detalhada, muito mais bela que a sua legítima canela direita macilenta de menino pobre do Pireu.
A perna de pau não foi citada antes, porque quando do choque com o caminhão do Exército, o fatal, na manhã poeirenta de 1948, foi a primeira coisa, entre tantas, a descolar-se do corpo. Os cachorros vadios das redondezas encontraram-na e ficaram disputando-a por dias até que largaram-na, e foi encontrada pelo velho Kóstas, que tinha uma quitandinha umas três quadras de distância de onde ocorreu a colisão. Muito embora o acidente tenha mobilizado muita gente dos arredores, Kóstas não soube de nada. Preferia dar mais ouvido ao rádio e aos boletins sobre o desenrolar da guerra. Tinha medo que com a vitória dos comunistas, tomassem-lhe a quitandinha e suas couves murchas.
Kóstas achou a perna uma verdadeira obra de arte e colocou-a pendurada na parede do fundo da quitanda, entre uma imagem de Nossa senhora e Santa Sofia. O pó dos anos acumulou-se sobre ela, a fuligem dos outros caminhões do exército, dos ônibus, dos caminhões e da fuligem da fumaça azul do utilitário que Kóstas comprou em 1953. Volta e meia, como se tivesse vida, a perna jogava-se da parede, caindo sobre os rabanetes e danificando as alcachofras, chutando os pés de alface. Kóstas falava com ela como se houve todo um corpo de madeira, uma entidade que nomeou Eleftherios, como Venizelos. Anos depois, Andropoúlos, passando por esmo por aquelas paragens, quase no fim do Pireu, viu belas batatas expostas à porta da quitanda; saudou Kóstas e pediu por um quilo e meio das belas e lustrosas batatas e quando entrou na quitanda a pagar as dracmas certas pelas batatas, deu de cara com a perna que ele esculpira, dependurada naquela parede suja. Sua mão abriu e as moedas espalharam-se pelo chão. Andreopoúlos esqueceu-se de Metaxás, esqueceu-se dos italianos, esqueceu-se dos dias de trabalho na Alemanha, esqueceu-se da guerra civil, ou seja, de tudo aquilo que se interpunha entre a sua obra-prima de madeira e o momento presente, dentro daquela quitanda infecta. Lembrou-se do dia que a mãe de Stefános, de quem era consueto cliente, encomendou-lhe a perna ao filho que fora pego pelo caminhão das galinhas. Andreopoúlos reivindicou a perna e fez Kóstas tirá-la da parede para mostrar-lhe a marca, dois pequenos alfas, de Andréas Andreopoúlos e contou-lhe os dois atropelamentos de Stéfanos. Kóstas disse que agora aquilo era patrimônio comum; Andreopoúlos chamou-o comunista. Kóstas expulsou Andreopoúlos da quitanda com golpes de perna de pau: Andreopoúlos catapultou-se para a calçada, tomou uma chuva de quilo-e-meio de batatas e tiros das dracmas e leptas metálicas chutadas por Kóstas em sua direção. Andreopoúlos voltou para casa e a perna ficou mais uns tantos anos na parede da quitanda. Andreopoúlos ainda rondou a quitanda durante uns meses, mas viu que seria impossível recuperar a perna de Stéfanos. Possívelmente ele restituiria a perna à mãe e á irmã de Stéfanos, que àquela altura, meio dos anos sessenta, ainda viviam; ou a entesouraria como se faz com as relíquias dos santos nas igrejas.



2 respostas so far ↓
Anouk // Segunda-feira, 23-Out-2006 às 11:19
A perna de Stéfanos, quase virou outra história sobre o Pinóquio, o pedaço de madeira que virou gente…hehehe
donato // Segunda-feira, 23-Out-2006 às 12:39
Et in Albania ego…
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