Dinheiro
(s. m., lat. denarius, i)
Além de ser algo de díficil obtenção e esvair-se sorrateiramente de bolsos com a mesma facilidade da água que evapora num dia quente, o dinheiro consiste em unidades abstratas de valor, usada nas relações comerciais cotidianas entre os seres humanos; é a atual base da Civilização Humana. Seu escopo principal é ser usado na troca de mercadorias, serviços, favores e tudo mais quanto pode ser vendido, parcelado ou corrompido. Com dinheiro compra-se de tudo: gêneros alimentícios, gêneros supérfluos, proteção policial, favores sexuais, votos de parlamentares, idéias, opiniões, formadores de opinião, órgãos para transplante, em suma, qualquer coisa, absolutamente.
Uma relação de escambo envolvendo dinheiro é abstrata no senso que se troca algo (material ou igualmente abstrato), por exemplo, um quilo de açúcar por dinheiro. Materialmente, trocar um quilo de açúcar de cana por um retângulo de papel reforçado ou por alguns discos de metal timbrados, pode parecer ilógico, mas é justamente daí que vem o poder intrínseco do dinheiro e seu papel de condutor incontestável da Humanidade.
Aspectos materiais – Analisando essa relação, a do quilo de açúcar com os míseros gramas do papel ou as míseras vintenas ou trintenas de gramas do metal, deduz-se a abstração do pertinente ao dinheiro. O papel (chamado comumente de notas ou, em linguagem mais técnica, de cédulas) em realidade representa, através de um número indo-arábico nele estampado, quantas unidades, independente das dimensões do retângulo de papel, como no caso de um certo país latinoamericano de língua portuguesa: as cédulas são do mesmo tamanho todas, mas o número impresso na face que se convencionou ser a frontal, diz ao portador ou detentor da cédula quantas unidades abstratas de poder de compra ele tem por aquele papel; para os analfabetos e anuméricos, a cor pode ser um indicativo do valor; ainda nesse país latinoamericano do exemplo, as cédulas têm cores diferentes de acordo com o valor, mas são escolhidas aleatoriamente e não têm algum critério técnico. Nem todos os países são da mesma opção: os Estados Unidos da América, por exemplo, mantém suas cédulas todos com o mesmo padrão de cor (verde) e os números não são tão grandes como das cédulas brasileiras. A esse número indicativo das unidades, convencionou-se chamá-lo valor. Também as unidades variam de nomenclatura de acordo com o país que emite o dinheiro, ou seja, imprime as cédulas: no Brasil, apesar de a unidade já ter tido quase uma dezena de denominações – algumas, por sinal, assaz ridículas, como cruzeiro-real ou cruzado -, há pouco mais de um decênio, chama-se real, que é a recuperação de um nome mais antigo. Nos Estados Unidos, país carro-chefe da Civilização, é chamado desde sempre de dólar, em quase todos os países da União Européia, circula o euro (a chamada Eurozona ou Eurolândia), que substituiu as unidades monetárias nacionais dos países que o adotaram.
Além da cor e dos números, as cédulas podem ter motivos alegóricos, que geralmente tratam da História oficial: personagens e reconstituição de acontecimentos históricos sob um ângulo politicamente correto ou omissor, ou de acordo com a ideologia de quem ocupa o governo à época da confecção das cédulas; os motivos pictóricos geralmente são ridículos ou mentirosos ou, no caso do Gigante Tropical, bichinhos em extinção ou nativos do país, o que não é mentiroso e nem tecnicamente ideológico, mas é igualmente ridículo.
Sobre o valor das cédulas, uma gradação muito comum é que a menor cédula em circulação seja o equivalente a um centésimo do valor da maior. Assim o é no caso brasileiro, no americano e no eurolandês. No primeiro, todos os bilhetes (outro nome menos comum para cédula) têm o mesmo tamanho e padrão de cor diferente; no segundo, têm o mesmo tamanho e o mesmo padrão de cor e no último, têm tamanhos diferentes de valor para valor (os bilhetes crescem em dimensões e quantidade de papel usado quanto maior o valor) e padrão de cor diverso.
Dependendo do tipo de transação que será feita envolvendo dinheiro em espécie, são recomendáveis cédulas de alto valor, tendo em conta que, por exemplo, uma edição de jornal pode ser paga com cédulas de baixo valor, algumas do menor valor, por exemplo, ou até mesmo com moedas (veja mais abaixo), enquanto o voto de um deputado é algo que pode sair nas dezenas de milhares de unidades. Para esses casos são recomendáveis cédulas de alto valor, muito possivelmente a mais alta disponível. Também são recomendáveis, nesses casos, cheques, que são uma espécie de cédula personalizada onde o detentor da cédula, que de ser também o detentor de uma conta corrente bancária à qual cheque é vinculado, põe seus próprios números indo-arábicos e escreve-os por extenso, pondo, numa lacuna abaixo, um garrancho conhecido como assinatura. O cheque passaria a ter o mesmo valor das cédulas. Nessas contas bancárias, o dinheiro fica ainda mais abstrato, pois passa a existir num banco de dados duma instituição financeira em dados binários, lidos por tênues correntes elétricas dos computadores. E ainda em relação às cédulas, há ainda a relação inversa das cédulas entre valor e quantidade/sazonalidade: quanto maior o valor da cédula, menos ela será vista.
Os discos de metal, chamados moedas, muito embora tenham sido a base de tudo quando algum infeliz teve a idéia de criar o dinheiro na remota Lídia em remotas eras, hoje são somente para valores baixos e de manuseio freqüente. É o que geralmente se atira aos pedintes quando eles pedem algo, é o valor de certos generos açucarados que dizem danificar a dentição das crianças e é também o que se dá às mesmas crianças quando pedem dinheiro. Há máquinas de vender livros vagabundos e bebidas gasosas adocicadas que funcionam com dinheiro nesse formato.
Conseqüências sociais – O dinheiro é algo complicado de arrumar. Demanda milhares de horas de trabalho para que se tenha uma quantidade minimamente aceitável, processo que cansa e frustra as pessoas. Na falta do dinheiro, recorre-se aos financiamentos e empréstimos para obtenção do dinheiro para os fins necessários. Processo que levará à falta de dinheiro no futuro, para pagar as parcelas do empréstimo.
Quem não consegue trabalho para sua obtenção, escolhe duas vias: ou pedi-lo na rua, onde somente obterá moedas de baixo valor, o que mal dará para uma autosustentação precária, ou, como outras pessoas, usar de meios violentos para coagir a doação, o que normalmente é chamado assalto ou roubo. Ato considerado abominável e passível de punição pelas autoridades constituídas. Pelo dinheiro se mata também, direta ou indiretamente; pelo dinheiro, morre-se; atos igualmente condenáveis, principalmente se o acusado não tiver dinheiro para remunerar um bom advogado ou comprar as opinões dos magistrados e jurados.
Por essas caracterísitcas principais que o dinheiro tem tanto poder sobre as pessoas e faz com que tudo gire em torno dele: as grandes empresas e conglomerados financeiros que exercem atividades de eminência parda em atribuições nominalmente populares ou estatais. O dinheiro expande os seus tentáculos ideológicos a tudo aquilo que é humano, e manda efetivamente quem tem mais dinheiro.







2 respostas até agora ↓
donato // Quarta-feira, 29-Nov-2006 às 18:56 |
Ótimo! Só faltou dizer que as sociedades em que a posse do dinheiro é mais glorificada também costumam confundir a riqueza com o mérito pessoal, uma noção muito antiga (tão antiga quanto o dinheiro) e que só pode ter saído da cabeça de alguns chineses e gregos desocupados. Essa crença que, de tão absurda não teria vez nem com o doutor Pangloss, parece ser muito difundida nos dias atuais, tendo chegado a gerar um tipo de literatura de poucos brilhos que pretende ensinar aos leitores como alcançar o sucesso, sem que, no entanto, os autores se responsabilizem pelos eventuais fracassos. A ela dá-se nome de auto-ajuda corporativa.
Sissi // Quinta-Feira, 30-Nov-2006 às 20:12 |
Outro dia vi que o ‘mercado’ de esmolas movimenta mais de milhão no país…