Depois do memorável incidente envolvendo o Deputado federal Antônio Carlos Magalhães Neto, o enviado especial do Granada de Bolso ao Reino da Bahia (reino sim, porque, como diria painho ACM, quem foi rei, nunca perde a majestade), procurou a senhora Rita de Cássia Sampaio de Souza para ouvir um testemunho mais apurado do que a entrevista-relâmpago publicada pela Folha On-line. Nosso enviado encontrou-a já no começo desta madrugada numa bela casa de repouso – lugar coerente, segundo a classificação dada a Rita pela nota da assessoria de imprensa do Gabinete de ACM neto, que atribuiu o incidente a possíveis problemas mentais. Apesar do dia tenso e um pouco acuada com relação à nova morada, Rita de Cássia concordou em conceder uma rápida entrevista ao Granada, revelando alguns detalhes, digamos, insólitos.
Granada de bolso – Bem, dona Rita, primeiramente, bom-dia. Antes ainda, lhe transmito uma congratulação do Granada de Bolso e dos seus leitores à sua acção e…
Rita de Cássia – Granada de bolso? Que raios é isso, meu rei? [pausa] É bem possível que seja melhor que uma faca para lidar com esses tipinhos deputados, não é? Vocês vão me ceder umas? Dá pra pôr no bolso?
GB – Não, dona Rita… o Granada é um blogue. [silêncio] E queremos da senhora um depoimento, uma entrevista para que os nossos leitores… porque blogues têm leitores, como um jornal ou até ouvintes como uma emissora radiofônica… queremos um depoimento seu, isento da perfídia que recobre a imprensa deste nosso país, que teima em proteger o capital e o poder, do que levou a senhora a apunhalar o deputado…
RC – Ah, sim… claro. Expor-lhe-ei meus motivos…
GB – Muito bem. Então, tendo em conta o esteriótipo que pesa sobre os nativos do Estado da Bahia, de sua calma e tranqüilidade intrínsecas e notórias, pergunto: o que levou a senhora a tão desbaratado acto contra a integridade do deputado?
RC – Pra início de conversa, o deputado não tem integridade alguma, pois se a tivesse, mandava liberar o FGTS que há tanto espero… só se for a integridade da safadeza desse cabra! Agora, realmente, você tem razão, porque, a calma, a tranqüilidade é, de fato, uma característica da baianidade. [pausa] Mas você tem que entender que tudo tem um limite, inclusive a manutenção da tranqüilidade e, por conseguinte, a manutenção da baianidade, máxima expressão de nosso caráter nacional, porque os baianos somos uma nacionalidade dentro do país…
GB – Certo, compreendo.
RC – Então, para a manutenção de tais prerrogativas nacionais baianas, é necessário, infelizmente, pela economia de mercado tirânica sob a qual vivemos, [pausa] para a manutenção da baianidade intrínseca e nacional, fundos de ordem pecuniária, para podermos viver em paz.
GB – De acordo; inclusive o Granada muito reconhece o esforço de manutenção da baianidade com expressão nacional do povo baiano, mas, onde entra a questão da facada no deputado?
RC – Veja bem, eu sou pensionista. Sou aposentada como funcionária pública de Ipiaú, onde fui funcionária da Secretaria da Saúde. Veja bem que não se vive satisfatoriamente com esse salário de fome que nos manda a Previdência; sou obrigada a fazer bico, trabalhinhos extras para complementar minha renda; o que me impossibilita o exercício dos meus direitos nacionais, vinculados a questão da baianidade. [pausa] Minha rede estava mofando no armário… [pausa] Era o dia inteiro correndo atrás de coisinhas e tornei-me escrava dos afazeres. Foi aí que tive de tomar uma atitude drástica. Numa agência da Caixa, descobri que tinha direito a umas verbas do FGTS… e você, meu caro, que é do Sul, sabe que a baianidade está no lugar que não precisamos dela, por exemplo, no serviço público ou quando se trata em liberar dinheiro para alguém. Fiz o pedido à Caixa, mas me disseram que demoraria uns meses. Infelizmente, uma coisa choca com a outra, porque, ao mesmo tempo que a pressa choca com a baianidade, era necessária em favor da baianidade; pois precisávamos comprar um lote de cocos verdes para a Liga das Senhoras Católicas Pró-Baianidade, o qual presido atualmente. Resolvi pedir um auxílio ao Príncipe… aliás, mesmo com a dinastia Magalhães destronada, quem foi rei, nunca perde a majestade, e o menino, o neto de Painho, é deputado nas Cortes de Brasília. Resolvi pedir sua intersessão. O que aliás foi discutido em reunião da Liga… e aprovado por unanimidade das presentes…
GB – Há uma ata dessa reunião? A senhoria autorizaria uma publicação?
RC - Ata? [pausa] Ata? [pausa longa] Pra quê? Ata é coisa pra vocês, do Sul, que são muito desconfiados uns dos outros. Nós aqui na Bahia não precisamos disso não. [pausa] Mas Painho Neto, que já se está afeiçoando às vossas nefastas práticas e costumes – fator que é, inclusive nocivo à baianidade, culpa do financismo de vocês, no sul, influenciados pelos norte-americanos… péssimo para o Brasil e muito mais péssimo para a Bahia… não temos ata. Então, tendo sido isso deliberado, peguei minhas trouxas e fui para Salvador de ônibus. Meu rei, você não sabe, não faz idéia do que são 400 quilômetros pela BR-116! É buraco de Ipiaú até quase Salvador. E sabe por que? Porque esse aprendiz de pederasta não atende telefone e muito menos para no gabinete… gastei uma fortuna com telefonemas para Brasília… até me informare que era mais fácil pegá-lo aqui em nossa capital mesmo. Peguei as trouxas e tomei o ônibus.
GB – E ACM Neto recebeu a senhora?
RC – Da primeira vez, o segurança do prédio me pôs pra falar um um assessorzinho, desses que ainda cheiram a leite e fraldas sujas. Tinha óculos finos e, apesar de baiano, efeminados como são vocês no sul. Ele tinha ojeriza a povo; e eu sou uma mulher do povo, do meu povo. O assessorzinho que mandou voltar na semana que vem, mas que passaria a demanda a sua alteza… sabe, sempre votei em ACM, beijei a sua mão em diversas ocasiões e, numa, cheguei a ganhar um afago paternal de sua mão, na cabeça. Pois bem, dali uma semana, voltei ao escritório. O mesmo espirro de gente de assessor atendeu-me como se nunca me tivesse visto na vida. Aí me aperreei! Contra minhas prerrogativas de baianidade, levantei-o pela lapela do terno e lhe disse: «Escute aqui, restolho, chame aqui o neto de Painho, o lhe parto a cara aqui mesmo, seu mal-engendrado!». O mocinho saiu correndo porta a fora e voltou com um assessor mais velho, cheio de grudentas lisonjas e modos pegajosos; uma simpatia muito artificial… outras pederastias do sul. Serviu-me café e disse que perdoasse o rapazola, que era novo e que eles recebiam ali muita gente implorante… aí me irritei! Não estava implorando não, só queria o que me era de direito, mas que saísse um pouco mais ligeiro, mesmo contra os preceitos sagrados da baianidade, se era para o bem dela. O velho baboso me prometeu uma resposta para dali quinze dias…
GB – Então deu-se sua terceira visita?
RC – Sim. Falei com o mesmo babão caduco e com o moçoilo sem arremates. Dessa vez não se fizeram de desentendidos, visto que posso abandonar minha baianidade e adotar uma postura mais raçuda, como minhas primas de Pernambuco, inclusive, gostaria de agradecer Maria Elvira, minha prima de Garanhuns por ter me enviado, pelo correio, a maravilhosa peixeira que usei… a cutilaria vai muito avançado por aquelas bandas. Inclusive, Maria Elvira é presidenta da Associação pela Confederação do Equador, chamam-na até de Frei Caneca [risos]. Mas voltando, aqueles dois abortos foram mais pegajosos ainda e me entupiram de café… até que me anunciaram que o deputado me receberia…
GB – E como ele lhe pareceu?
RC – Não tem a altivez do avô. Parece um mamolengo dentro dum terno frouxo… carinha de criança. Fez-me sentar-me à mesa com um gesto de braço que quis ser grandioso, mas foi patético, parecia um professor da aérobica de academia de subúrbio… sentei e expliquei o motivo da minha vinda e o motivo pelo qual eu queria o dinheiro. Ele elogiou o ímpeto de conservação da baianidade e prometeu que faria com que o dinheiro fosse liberado… chamou-me patriota, lutadora dos interesses da Bahia, promotora da cultura baiana…
GB – Então, a primeira impressão causada pelo deputado foi boa?
RC – Sim, no saldo final sim… é muito cavalheiro, como todo bom canalha amoral.
GB – E depois?
RC – Prometeu-me uma resposta em coisa de um mês. Deu-me um cartão seu – como se fosse necessário! [pausa] Ficou com meus números de telefone, despediu-se, acompanhou-me até a porta, aquele safardana, e eu voltei para Ipiaú. Passou um mês e nada do telefonema, nem carta, nem telegrama, nem sinal de fumaça, nada. Resolvi eu telefonar. Mas quem atendia era somente aqueles dois cupinchas mal-acabados.
GB – Então a senhora não conseguiu mais falar com o deputado depois disso?
RC – Não, depois do nosso primeira e única conversa, o próximo foi a do coro encardido daquele filho-da-puta com o gume da minha faca! [pausa; pede um abanador para o enfermeio que acompanha a entrevista, junto da porta, e se possível uma agüinha de coco] As almas-sebosas dos assessores só me diziam: «está em reunião com a base política», «está em reunião com o diretório estadual do partido». Sempre me disseram da dança das cadeiras… imaginei que o partido não tivesse muita importância para eles ou fosse como uma torcida organizada de futebol ou um clube de regatas… daqueles que temos o título mas não usamos nunca. Aí que desconfiei que o peste estava me evitando…
GB – Posto isso, o que pensou a senhora em fazer?
RC – Primeiro, como é reação básica, blasfemei e ofendi até a oitava geração anterior e vindoura do infeliz, incluindo Painho – por isso blasfemei. E fui no terreiro preparar-lhe um presentinho… [risinho; pausa]. Passei a acompanhar seus passos pela imprensa, no que podia, contando inclusive com o auxílio de dona Candoca, minha vizinha, com quarenta anos de experiência em vida alheia… continuava ligando e os pulhas dos assessores me diziam que estava em Brasília, que havias matérias de profundo interesse nacional que os senhores deputados estavam votando em nome da democracia representativa. Nada é superior à manutenção da cultura baiana, nem reforma política… que acredito que seja com referência à reforma do prédio do Congresso… ou a reforma da Previdência… que também deve ser algo pra foder com pobre e gente que precisa de dinheiro, porque político só pensa no próprio cu, e ao cu dos outros, nabo! [pausa] Mas voltando, perdão pela minha descompostura, às vezes perco a cabeça… gostaria muito de perder a cabeça de Painho neto, inclusive, mas não logrei a fazê-lo… sei que estava rolando tudo isso e, a baianidade e eu perdendo. Escrevi a Maria Elvira, como já disse, minha prima, para que ela me mandasse uma de suas belas peixeiras… Maria Elvira é prima-inter-pares… perdoe-me o trocadilho, mas é inevitável… é prima-inter-pares de seu ofício, a cutilaria… mandou-me bela peixeira… luminosa e certeira…
GB – A faca chegou pelo correio?
RC – Sim, senhor, pelo correio. Chegou a faca, embrulhei-a bem e peguei o ônibus para Salvador… fiquei dias de tocaia próximo ao escritório do encardido, observando quando e onde seria melhor atacá-lo. Mas segundo Candoca, que continuou comandando a central de informações, Painho neto estava em Brasília, mas viria logo… [pausa] e foi hoje, digo ontem, não é? Que enquanto saía do seu escritório… [pausa longa] deixei-o entrar, certamente, e quando saiu, furei a esparrela da segurança e fui de faca em punho em sua direção… a mira era a jugular, mas um dos seguranças, percebendo que o cerco fora furado, lançou-se contra mim, o filho-da-puta lazarento, fazendo com que eu errasse o alvo principal, atingindo os ossos safados do safado deputado de bosta… costelas de bosta… e foi num lance de movimento, tudo muito rápido… [pausa] coisa de uns quatro minutos [pausa muito longa] e daí o que todo mundo já sabe… polícia, delegacia, presídio e agora o sanatório. Mas quem perde não sou eu… é a baianidade, é a Bahia… era uma verba que eu iria dedicar, de meu suor, à causa da baianidade e da cultura nacional baiana…
GB – Nota-se no seu discurso certos rasgos nacionalistas de cunho regional. A senhora é favorável a uma secessão da Bahia? A Bahia deveria ser um país efectivamente a parte?
RC – Acredito que possamos continuar juntos… um Brasil pluralmente baiano… porém, ACM, seu neto e sua corja são contrários ao programa da Grande Bahia…
GB – Grande Bahia?
RC – Sim, meu rei. A Bahia precisa do espaço vital para se extender, espraiar-se… estamos sufocados e há os territórios da Bahia irridenta… luto pela Grande Bahia, a facada em ACM neto foi pela Grande Bahia e um novo projeto nacional. E há um complô contra a extensão pacífica da baianidade… o baiano não quer mais ficar de pé sobre a Bahia… quer ficar deitado… e para tal, uma expansão territorial é inevitável… somos prisioneiros em nossa terra…
GB – Um complô? Existe um complô contra a baianidade? Quem o encabeçaria?
RC – Veja bem: apesar de toda admiração que tenho por ACM, o velho, e que o Senhor do Bonfim o proteja por todos os séculos, amém; ACM tem sido usado pelos pederastas do sul como instrumento de manipulação contra a baianidade, embora ele não se dê conta…
GB – Como? A senhora pode provar?
RC – Lá vem você com essa coisa de provar de novo… [pausa] Ata, prova… isso são informações confidenciais, nós também temos nossos serviços de inteligência, além de Candoca…
GB – A senhora poderia citar alguma fonte…? Nem que fosse mínima?
RC – Posso não, você me desculpe… sei que é o seu trabalho para o blogue… você é um jornalista, não, meu rei? Ou seria um blogalista? Bem, qualquer porcaria que seja… não posso citar as fontes, mas lhe digo que elas baixam com freqüência…
GB – Baixam?
RC – Homessa! Baixam, oras! Baixam no terreiro! [pausa] Mas quanto ao complô, a coisa é muito cabeluda… porque tem dedo do Lula… o dedo que falta… o dedo oculto… o dedo eminência-parda… o dedo que falta porque fornica e está nos cus de todos nós…
GB – Rodam boatos de que a senhora seria um bode-expiatório, que por desavenças internas no clã dos Magalhães, ACM estaria dando cabo das oposições intestinas… um exemplo notório foi a morte repentina de Luís Eduardo, filho e herdeiro político de ACM, fulminado por um ataque cardíaco supostamente causado por algum agente químico, como estrequinina… agora, o sucessor de ACM, o próprio neto, talvez fosse contra o carlismo… e a senhora tem uma suspeita simpatia pelo Toninho Malvadeza…
RC – Isso é coisa de vocês, pederastas sulinos, porque não têm um político e estrategista tão brilhante como Antônio Carlos Magalhães e armam intrigas e ardis para tentar destruí-los… vocês não se conformam em ser o centro econômico, mas querem o poder político também… esfaqueei ACM Neto por ele ser um traidor consciente, e não inconsciente como o velho ACM, que é manipulado por estar esclerosado… você e sua corja do sul…
Nesse momento vieram impropérios e palavrões. O enfermeiro aplicou um calmante intravenoso em Dona Rita e disse que ela não daria mais entrevistas porque estava cansada e iria repousar. Fui gentilmente conduzido até a porta pela polícia.






3 respostas até agora ↓
Jeferson // Quarta-feira, 20-Dez-2006 às 19:57 |
Hummm… Você tá bonitão, hein? Visual modernoso…
Juliana // Quarta-feira, 20-Dez-2006 às 23:45 |
Lindo seu blog. A entrevista ficou muito boa (rs). Beijos.
Biroslav // Quinta-Feira, 21-Dez-2006 às 7:50 |
Boa entrevista.
Ela deveria se acalmar mais, olhando as paisagens de Ipiaú. Uma cidade tão linda, bem no polígono do cacau… Dá pra sentir a baianidade dentro de todos nós, num sabe?
Talvez com a cabeça fria ela fosse mais “assertiva” em seu ato.