Nem fui à mídia. Quem me contou o fato, foi a minha avó, com quem divido o quintal. Resolvi não procurar fontes porque, quase sempre minha avó, por causa da sua audição oscilante, distorce as notícias, o que lhes dá um salzinho cômico.
Pois bem, parece que o senhor Ronaldo Ésper, aquele estilista que vinha à televisão acachapar com as vestes dos famosos, conhecido pela lingua ferina e, como todo estilista, pelos chiliques frívolos, parece-me que este senhor, distinto e egrégio, foi pego pelas forças da ordem por estar saindo do Cemitério do Araçá com dois vasos.
A informação foi essa, e repassada pela minha avó com certo espanto: «Onde já se viu? Um homem tão chique fazer um negócio desses… vaso de cemitério? O que raios será que ele ia fazer com isso?». Era óbvio que a avó já queria levar a coisa pelo lado místico, que Ésper estava levando os vasos com algum intuito sacrílego. Não sei, talvez fazer algum tipo de ritual com os vasos – ah, maldito valor simbólico que essas coisas relacionadas à morte têm!
Apesar dos pesares, não consigo ver Ésper abaixado numa encruzilhada dos Jardins, com velas pretas e vermelhas acesas, um frango, farora, charuto, garrafa de pinga e os vasos – com que função os vasos, afinal? – pronunciando algum mantra africano ininteligível repetidas vezes e estalando os dedos em volta de toda aquela barafunda mística. Não acho que Ésper seja adepto da macumbinha, coisa tão comum pelos subúrbios.
Expliquei à minha avó que provavelmente tratava-se de vasos decorados, pois havia naqueles cemitérios do Centro – o Consolação e o Araça, e ainda a necrópole São Paulo – obras de arte de grande valor artístico e, quiçá, financeiro também.
Independente dos motivos que a Ésper moveram-no a fazer o que fez, nada desculpa. Nem o lado místico, nem o artístico. É roubo da mesma maneira; e além de chato emérito, Ésper mostrou-se ladrão amador: não conseguiu evadir-se do cemitério com dois vasos – cujo tamanho desconheço, mas estavam acondicionados numa sacola, ainda segundo vovó; sacola cujo tamanho é igualmente desconhecido.
O mais engraçado: parece-me que Ésper está amargando – ou amargou – algumas horas de xadrez. É belo e instrutivo tudo isso: pobres e ricos roubam, mas movidos por diferentes razões. Pobres todo dia vão para as penitenciárias aos milhares, coisa que já perdeu há muito a graça; agora, quando vai um rico, ainda mais em situação tão ridícula e constrangedora, confesso, faz-me muito rir.
Imagino Ésper – agora sim, um pouco mais real a cena – tentando explicar-se ao delegado, este último com as mãos alocadas nos bolsos das calças, ouvindo Ésper alegar que é um estilista famoso – mas o delegado jamais ouviu falar, embora achará intimamente que o jeito nervoso e efeminado combine com o que ele chama «costureiro» – que estava ali e viu os belos vasos e não resistiu em levá-los. «É roubo do mesmo jeito, seu Ronaldo.». Certamente o delegado ainda conservou um certo vestígio de respeito; aquela deferência que os mais humildes têm com quem manda, mas ele ainda era o delegado e o tratamento por «seu» era o cume da deferência. «Vou ter de deter o senhor». Ésper olha aflito para o delegado, o qual vê como algoz impiedoso. Ficará na delegacia pelo menos aquela noite, até que se resolvam as coisas.
O escrivão, silencioso, bateu nas teclas todo esse tempo: «E quanto aos vasos, delegado?». Vão ficar aqui na mesa… para interrogatório».






18 respostas até agora ↓
Donato // Segunda-feira, 22-Jan-2007 às 9:47 |
Está entre uma das situações mais ridículas de que já ouvi falar. Eu sabia que o dito-cujo era bagaceira, mas nunca imaginei que pudesse chegar a esse ponto. Será que ele vai ter coragem de “alfinetar” a si mesmo na televisão? Não creio. Seria, porém, a única maneira de sair mais ou menos por cima nesse episódio todo. Ah, e agravante: os vasos foram encontrados no fusca do estilista, de acordo com as fontes de Internet. Fusca? Será que é um fuscão preto?
Conde Sérgio De Venardis // Segunda-feira, 22-Jan-2007 às 9:48 |
Fusca?!
Juliana // Segunda-feira, 22-Jan-2007 às 10:33 |
hehehehe…
Donato // Segunda-feira, 22-Jan-2007 às 11:00 |
Então, sobre o blogue comum, é preciso escolher entre o Blogspot e o WordPress. Já adianto que nada sei das configurações do segundo. Mas você pode simplesmente copiar as formatações que fez neste blogue para o novo, mudando uma ou outra coisa, como a cor de fundo, por exemplo. Não sei se isso será difícil de fazer. O WordPress é fácil de usar? Você concorda com o título, né? Estive pensando em fazer uma faixa com uma foto de uma bandeja de sushis manchados por uma cor fluorescente, mas preciso baixar um programa de edição de imagens decente. Se você já quiser ir montando algumas coisas por aí, tudo bem. Eu vou pensando no que publicar, pelo menos.
Sissi // Segunda-feira, 22-Jan-2007 às 16:40 |
éééééééé minha gente… ele vai dar alfinetadas nos detentos pelo mau gosto das roupas…
Jeferson Ferreira // Segunda-feira, 22-Jan-2007 às 21:11 |
“Não acho que Ésper seja adepto da macumbinha, coisa tão comum pelos subúrbios.”
Macumbinha… Subúrbios… Em primeiro lugar, saliento o nojo, ou aversão, à honesta manifestação religiosa brasileira… Uma vez católico, sempre católico, não é mesmo Sérgio? Mesmo fingindo-se de ateu. E “comum pelos subúrbios” indica que você não sabe nada de Brasil pelo menos nos últimos 200 anos. Se quiser, indico umas leituras.
Conde Sérgio De Venardis // Segunda-feira, 22-Jan-2007 às 22:13 |
Jeferson, meu caro.
Não me venha com bom-mocismo que isso enoja-me profundamente. «Macumbinha» foi dito da mesma maneira que eu diria «igrejinha tosca» ou «templinho requenguela» ou mesmo «ladainha» ou «litaniazinha enfadonha». Nada pessoal contra as crenças afro-brasileiras. Você me conhece e sabe que não puxo sardinha para nenhuma religião. Quanto às leituras, eu tenho as minhas, isso eu lhe garanto.
Quanto aos subúrbios (digo «subúrbios» porque acredito que há um desgaste no termo «periferia», devido a um uso popularesco, e «arrabaldes me parece um tanto quanto pedante»), nada contra, visto que habito um.
Se você não soube interpretar a ironia do texto, a culpa não é minha. Reveja seus conceitos.
Jeferson Ferreira // Terça-feira, 23-Jan-2007 às 7:14 |
A questão não é bom-mocismo. A letra fica, a voz conturbada da turba passa.
Como homens que se pretendem ao menos um tanto doutos, temos de tomar cuidado com a primeira, deixando-a distante do descompromisso da conversa de boteco. Quando num mesmo período leio “macumbinha” e “subúrbio”, associados a um estúpido ato de roubo, é difícil pensar em efeito de ironia.
Isso que acabei de dizer serve a dois propósitos:
de certa forma como desculpa, por comprar briga por algo tão pequeno, e, creio, para você, como aviso, alerta de cuidado, quanto ao trato da palavra; ela nos atinge em veios que pouco imaginamos, atrai nossa atenção fragmentada de forma variada.
Politicamente incorreto é o nome de um calo que todos nós temos.
Conde Sérgio De Venardis // Terça-feira, 23-Jan-2007 às 8:27 |
Não é questão de ser douto, Jeferson. Não me leve a mal, mas não me propus a escrever um ensaio sociológico sobre a tentativa de furto levada a termo pelo Ésper; é somente uma crônica com um leve tom humorístico.
Disse politicamente correto, porque, por exemplo: a você, incomodou-lhe esse trecho, mas lhe passou batido esse outro: «[...] conhecido pela lingua ferina e, como todo estilista, pelos chiliques frívolos [...]». Da mesma maneira que você veio apontar uma possível religiunculite, o que de certa forma, é falso, alguém poderia vir aqui e tachar-me, pela leitura da frase de homófobo, esse rótulo que anda tanto em moda.
Se formos tolher dos nossos textos todos os trechos que podem desagradar a certos grupos e pensar isoladamente em cada um, nossos contos e crônicas ficarão tão insípidos como um ofício de repartição pública ou aqueles comunicados impessoais que a Prefeitura manda informando sobre o pagamento do Iptu.
Os policiais civis poderiam reclamar da finalização do texto, dizendo que estou a menoscabar a categoria, concorda?
Por isso, perdoe-me a minha virulência, mas você acabou por representar uma faceta da sociedade.
E convenhamos, é mais fácil encontrar um «despacho» nas encruzilhadas perto das nossas casas do que na esquina da Oscar Freire com a Augusta. Não é questão de menoscabo com o subúrbio ou com a religião alheia: é fato consumado.
E quanto à associação da «macumbinha» e «subúrbio» com o fato de roubo, é um associação indireta e incidental: é a associação com um possível uso dos objetos furtados. Você sabe muito bem que há gente que rouba hóstias e vinho e óleo consagrados das igrejas. E se o Ésper tivesse entrado na Igreja da Consolação e roubado um ostensório ou uma taça litúrgica? Teria eu feito a mesma associação, isso, lho digo.
É isso.
Jeferson Ferreira // Terça-feira, 23-Jan-2007 às 12:42 |
Bom, já havia chamado atenção quanto à fragmentação de nossa visão. É claro que não quero que qualquer escrito no mundo seja inteiramente limpo, desprovido de rugosidades. Porém, mais sábio é quem foge do caricato. Não me passou batida a expresão “chiliques frívolos”. Ela apenas não me dói, como já apontei, no fim da minha primeira resposta.
Também não te acusei de religiunculite, ou o que lá seja isso. Acusei-te, sim, a a partir da expressão, de não tomar cuidado com esse nosso (veja, nosso!) mofo católico e fascista, típico de religiões monoteístas.
Em O Primo Basílio, o saudoso Eça, em não sei qual passagem, compara as grávidas pobres a animais, dizendo-as estarem “prenhas”. Foi nosso Machado quem chamou-lhe a atenção, alertando-o. Longe de comparar-me ao nosso Mestre em Letras – e de comparar-lhe ao portuga bigodudo; tu tens maior potencial, a meu ver – mas senti que ali poderia dizer-te: falta sutileza. Assim como outras vezes senti vontade de fazê-lo, em outras oportunidades, com outros trechos. Não há efeito irônico ou cômico que valha a letra exata, mas ao mesmo tempo carregada de sentido. Se tomei a liberdade de apontar, é graças ao fato de que sei que já vi teu melhor.
Quanto aos roubos, eles não existem, simplesmente. Todo pai de santo tem um “amigo” padre, que inclusive freqüenta os cultos, e que arranja para ele o que for necessário. O “roubo” é para explicar ao bispo. No Brasil, o buraco sempre é mais para cima.
Conde Sérgio De Venardis // Terça-feira, 23-Jan-2007 às 13:39 |
Certo, aceito o seu porém quanto à expressão, mas me reservo o direito de não alterar o texto. Não diria eu tratar-se de «mofo católico e fascista», pois não o é, trata-se somente de visões – preconceituosas, talvez, mas profundamente populares – de uma óptica popular.
E o trecho estar no texto, convenhamos, é um texto semi-ficcional – visto que opera com um facto consumado (o roubo dos vasos) – não necessariamente que eu corrobore com as palavras. Não acredito, mas respeito as manifestações religiosas, cheguei, certa vez, a ir num centro – tenho parentes (e veja, descendentes de europeus em primeira geração!) que são praticantes de religiões afro-brasileiras, nem por isso têm menos do meu carinho ou consideração.
Agora, essa questão do «mofo fascista», sim, essa já me pega mais pessoalmente. Cresci ouvindo meus pais falarem horrores da ditadura militar, que quase apanharam da Cavalaria, certa vez, por nada; cresci ouvindo meu avô falando mal do Francisco Franco – e foi justamente em Franco que pensei quando vi a associação «fascista e católico», coisa que o regime falangista espanhol era de facto. Fascista é coisa que não posso admitir. Além do mais, posso afirmar de consciência limpa que, de católico carrego muito pouco, pois fui criado num catolicismo totalmente permissivo: tornei-me ateu por opção como poderia ter me tornado católico por opção, sem algum problema de consciência. Por tanto, são opiniões populares aquilo a respeito das religiões e se são opiniões populares, não dá para fechar a boca a milhões, não a adianta reclamar que o povo venha com licença, registro e alvará.
O trecho apenas reproduz certas opiniões populares, não somente pelo sabor irônico – que continuo a dizer que há – mas por uma espécie de espelhamento. Foi o que eu disse, poderia ter sido com relação às afro-brasileiras (como) foi ou com os ritos católicos (como já fiz outras vezes) ou com o judaísmo.
O que não pode ficar a ecoar é o estigma de que toda minoria é perseguida. Não se pode dizer uma vírgula que já se sentem uns perseguidos, que nos alcunham fascistas, sendo que fascismo, no sentido estrito, jamais houve neste país.
Fico revoltado em ser tão subtilmente alcunhado fascista. Ofende meus princípios.
Quanto à subtileza, é uma questão de maior ou menor tolerância. Será que alguém censurou o Allen quando ele fez aquela piada do rabino cujo senso de humor provocava pogroms? Eu acho que talvez sim, mas são sectores que estão acostumados a pôr-se como minoria e vitimizar-se. Eu, sendo de origem católica, não tenho problema algum em escrever blasfêmias ou fazer alguma piada de cunho religioso. O que acontece é isso, coisa que já defendi outras vezes, em outras ocasiões: é fácil ser (ou comportar-se como) minoria. Você me dirá: «mas eu não disse isso!», mas está agindo como se houvesse dito.
Aceito a sua ressalva quanto à subtileza, mas, pergunto-lhe eu, se fosse uma piada envolvendo a fé católica? Só porque os católicos ainda são maioria, eu estaria pondo-me oportunamente do lado deles, e usando de artifício uma simples alusão levemente ofensiva para mostrar uma posição e caçoar dos umbandistas enquanto minoria religiosa? E se eu tivesse feito uma piada com a fé católica?
Agora, com essas minhas declarações. se me vêm atacar os católicos, alegando que eu reneguei minha fé, como fazem na Albânia os muçulmanos como o Ismail Kadaré? (longe de querer comparar-me).
O que eu acho é que estamos imbuídos do politicamente correto e isso está a fazer mal para a sociedade, que não tolera mais bricadeiras de cunho algum, o mundo está chorão.
Fora que, as minorias não podem ser alvo de brincadeiras ou terem postas em jogo suas convicções, que põem à sociedade como dogma, usando-as de escudo. Quem discute opiniões das minorias, porque tem uma contrária ou simplesmente não concorda, é fascista.
Ainda mais com o assunto religião. Se uma religião é intocável, é sinal que sua própria estrutura é totalitária; e se seus seguidores defendem igualmente suas posições e defendem-na de nadas ou chacotas pífias, é porque já se imbuiram de algum comportamento miliciano – e fascista – propagado pela fé, que deve ser amparo ao ser humano, e não motivo de vida.
São tristes e fascistóides as teocracias, como o Irã, por exemplo. E eles não aceitam brincadeira de cunho algum com a religião deles. O que terminou inclusive com protestos devido a umas charges bobas publicadas por um jornal dinamarquês. Não podemos incorrer nisso!
Sei que extrapolei nos meus argumentos e até, talvez, tenha aumentando absurdamente o tamanho da discussão, jogando-a para outros campos, mas, quero mostrar que, se queremos uma sociedade pluralista e, de facto, democrática, temos que não só emitir as opiniões que agradam a todos, mas reproduzir todas, e da mesma maneira que dizemos coisas, temos de saber aceitá-las quando vêm de outrem, das maiorias ou das minorias.
Quanto aos termos, é outro capítulo: dizer «negrinho» num jornal impresso há cem anos atrás era uma coisa normalíssima. Hoje não o é? Por que? Porque decidiram que o termo era ofensivo. E o que de semanticamente ofensivo pode carregar um diminutivo de um adjetivo? Eu ainda não consegui chegar a uma conclusão. São distinções que uma sociedade faz, como você citou entre «grávida» e «prenhe», usado pelo Eça.
Aceito o alerta, mas gostaria que você visse os meus motivos e pensasse nos seus. Não há razão, a razão não está com nenhum de nós. A razão está no silêncio profundo do momento da leitura. Está no juízo do leitor. Ele tem de optar como ele vai encarar aquilo posto no texto, o que a ele evocará.
Conde Sérgio De Venardis // Terça-feira, 23-Jan-2007 às 13:40 |
E aliás, não se trata de briga. Acho que a discussão é pertinente e saudável.
Um abraço.
Donato // Terça-feira, 23-Jan-2007 às 14:50 |
Sérgio, a Umbanda não está relegada aos subúrbios, como você insinuou. E se existem mais despachos nas regiões afastadas do que nas áreas centrais, é porque nas primeiras a vigilância é maior, o movimento de carros e gentes não pára, as noites são menos tranqüilas. Há muita gente tida como chique que põe oferendas nos jardins e esquinas das cidades. As religiões africanas ainda têm sobre si o enorme estigma oriundo de outras épocas, e os ritos evangélicos, nossa novidade em termos de crenças, parecem ter-se aproveitado de nossa herança de preconceitos para renová-los. Interessante notar que muitas das igrejas evangélicas que vêm surgindo incluíram em sua liturgia o transe, a mesma experiência sensorial que os atabaques e as danças dos orixás e pretos velhos procuram induzir nos que presenciam os rituais.
Quanto ao catolicismo, nosso velho conhecido, acho que você tem subestimado o seu poder. Mesmo quando frouxo, muitas de suas representações primordias se impregnam em nosso imaginário, a ponto de ser impossível prescindir delas. Esta é uma tese pessoal nova que venho “mentando”, não tenho muita propriedade ainda para falar dela, mas o ressentimento, isto que nós dois sentimos tão fortemente e tão quotidianamente, não nasce por uma liberação da fé, como parece, mas pelo seu contrário: pela impossibilidade de se liberar, pelo reconhecimento de que somos cativos, talvez para sempre. É um mal-estar causado por esta contatação, não por um exceso de liberdade. Enfim, eu gostaria de que você pensasse nisto: quanto mais pesado é o nosso ressentimento, mais funda é nossa dependência a algo que críamos haver deixado para trás.
Quanto à virulência, também há espaço para um comentário. E quem são os escritores mais virulentos da História? Ora, os católicos. Você não leu “Kaputt”, mas nele há um personagem criado a partir de uma pessoa real, o Augustín de Foxá, que diz algo mais ou menos assim: “vocês estão assustados com minha crueldade, mas não sabem que tudo isso é muito católico, porque nós, católicos, somos canibais, nos sentimos autorizados a comer o corpo de Cristo”.
Ah, e veja se o Jeff não quer participar do Sushi. Ele é bom. Seria uma contribuição relevante.
Abraços.
Conde Sérgio De Venardis // Terça-feira, 23-Jan-2007 às 15:15 |
Não disse que está relegada a umbanda aos subúrbios, Donato. Mas afirmo sim que, no subúrbio, as coisas são feitas mais às claras. Igualmente na classe média e alta há os adeptos, mas nas ruas dos seus bairros não se vê a profusão de trabalhos como se vêem nos subúrbios. Isso é realidade efectiva. A turma dos Jardins, há lá quem é do ramo, mas não sai pela rua a fazer as coisas com sai no subúrbio. Foi isso que eu quis dizer: não foi exatamente desqualificar a religião (não sei porque o diminutivo tem esse tamanho poder!) e nem relegá-la aos subúrbios, mas foi uma mera constatação. Como você bem o disse, há as forças da ordem que poderiam, eventualmente intervir. E com estigmas convive tudo quanto é minoritário; o que não é excusável é esconder-se sob os estigmas, fazendo-se de vítima.
Pois é, quanto às evangélicas, tinha já feito essa comparação. Muito embora eles releguem as religiões afro-brasileiras à categoria de «coisas do capeta», muito disso se adotou no culto.
Quanto ao catolicismo, ele é intrinseco a todos, porque faz parte da colonização. O povo que nos colonizou e do qual somos filho é de um catolicismo superficialmente fervoroso; isso está nas nossas raízes e na nossa concepção de mundo e não há como apagar. Idem das etnias que nos formaram com a imigração: italianos, espanhóis, portadores do mesmo tipo particular de catolicismo. Não vamos nos livrar nunca da sua esfera de influência, nem mesmo os evangélicos conseguirão tal façanha.
E acho sim que é uma herança pesada, e é também o que nos mantém ligados ao pensamento ibérico, que muito tendem a negar pelo nada aqui formado.
Quanto ao Malaparte, sei mais ou menos, li o «Don Camaleo» e deu para ter uma noção da sua virulência.
Conde Sérgio De Venardis // Terça-feira, 23-Jan-2007 às 15:18 |
Mais uma coisa, que me havia ficado na garganta: de facto, não conheço praticamente nada das religiões afro-brasileiras, mal sei distingui-las. Mas a minha ignorância não é preconceituosa: não me interesso por elas assim como não me interesso por aprender azeri ou turcomeno.
Jeferson Ferreira // Terça-feira, 23-Jan-2007 às 20:49 |
Tentando, enfim, encerrar tamanha discussão, a primeira coisa que vem a minha mente é a seguinte: se tenho de me explicar mais de uma vez, das duas uma: ou o assunto é por demais polêmico, sendo impossível cerceá-lo, ou ando escrevendo mal pacas, não tornando bastante claro meu pensamento. Assim, tomando como tese uma possível mescla dessas duas possibilidades, ao retomar meu primeiro comentário, percebo que fui, realmente, incisivo. É isso o que a solidão, um trabalho estúpido e um humor virado no vinagre fazem a um homem. Porém, ainda assim, creio que em substância muito do que queria dizer lá já estava; e aí sim, Sérgio, tu levaste a discussão a outro nível, aparentemente escapando do sujeito. Afinal de contas, o que vale: a absoluta “liberdade poética” do mundo dos chistes, ou a por vezes chatíssima restrição racional e calculada dos “politicamente corretos”?
Sinceramente, a resposta de tal charada me escapa. Falta-me ciência e arte para perscrutá-la. No entanto, de uma coisa sei: não posso me furtar à descoberta. Em meu blog, e em meus escritos mais pessoais, já discuti essa dificuldade. Caminhamos para um mundo que, de tão civilizado, corre o risco de recalcar todos os seus conflitos; estes, de tão insidiosamente emaranhados por anos e décadas, eclodem, sem mais nem menos, fortuitamente, quase ao acaso, alarmando carolas de todos os gêreros e idades; vide as brigas de torcidas.
Assim, uma regra que para mim é muito válida seria a seguinte: escrita e sociedade se encavalam quando a arte de quem escreve é grande, quando quem escreve é capaz de epifanias, mesmo na crítica mais banal. No mundo, assim, teríamos Machado, Nabokov, Rosa… Mas talvez, aqui, como tu mesmo colocaste, eu tenha superestimado teu texto, deixando de lê-lo como simples crônica.
O politicamente correto realmente é ditatorial, mas, diga-me algo: teu telhado não é de vidro, nem um pouco? Digo isso, pois, depois de muito esbravejar contra os politicamente chatos, percebi que por vezes me ofendia por coisas pelas quais minha alma naturalmente pacata não me deixava revoltar. Uma história: outro dia, na casa de um amigo, que possui uma namorada negra, disse, em tom de quem quer puxar papo, que uma amiga minha estava contrariada com o sol dos trópicos, pois estava parecendo “mulata de comercial de cerveja”. A reprovação dela foi imediata: “Ops! Senti um preconceituzinho aí…”.
Nem eu, nem tu nunca saberemos o que é ser dessas minorias superfudidas, Sérgio, mas com certeza, sem saber, fazemos parte de alguma…
Podes perguntar: qual a saída da escrita? A minha é falar de mim; única coisa de que posso tratar sem medo, e, a partir de mim, tentar talhar o outro; rir de mim, chorar comigo mesmo, jamais rir do outro (sadismo), chorar pelo outro (pena, complacência).
Outro ponto de interesse é que jamais ousei marcar-te com a alcunha de fascista, ou preconceituoso, Sérgio! Por Deus, Oxalá ou Jeová!! Não importa! Leia de novo o que escrevi: nosso ranço católico e fascista. Somos a lama em que nascemos, e isso vale, inclusive, para a umbanda e para o candomblé, massivamente marcadas pelo pensamento cristão-católico. E isso vale para os ateus também.
Também não pedi alterações no texto.
PS: muito bom o trecho: A razão está no silêncio profundo do momento da leitura.
PS2: podemos ver a coisa do blog.
Conde Sérgio De Venardis // Quarta-feira, 24-Jan-2007 às 8:54 |
Quanto à discussão em si, Jeferson, peço encarecidamente que não se preocupe. Se eu só quisesse afagos e elogios, não colocaria os meus textos expostos num blogue. Você tem direito (se não dever) em expor suas idéias, se um só fala, caímos -aí sim – na ditadura de opinião. E quando expomos uma idéia ou deixamos transparecer um conceito, qualquer que seja ela, temos de nos preparar para receber as críticas e também comentá-las, foi o que fiz, foi o que você fez.
Você me expos um ponto de vista que eu achei um pouco viciado – justamente pela filosofia predominante do politicamente correto – e acredito que um texto deva livrar-se disso, foram esses os motivos da discussão, os motores que me moveram a defender um ponto de vista, de certo modo «ingênuo», tendendo sim, para o popularesco, mas não que reflita exatamente uma opinião minha. É isso que aprendemos em Teoria Literária, não é, que nem sempre autor e narrador coincidem.
Quanto à sua incisividade acrimoniosa, não guardo recentimento algum e, ao contrário, torno público o meu agradecimento por ter tornado-se – se você me permite a liberdade – uma espécie de treino; de realmente ter de bater-me contra uma opinião, de arengar, de expor argumentos de maneira mais ou menos criteriosa, enfim, duma real discussão. Foi o que eu disse, a oposição é necessária para um bom funcionamento do raciocínio.
Porém, a oposição entre «liberdade poética» e «politicamente correto» é inexistente. São conceitos tão diversos que sequer podem ser justapostos. O politicamente correto é algo assaz recente para a Humanidade, uma ética exarcebada que ninguém a segue; enquanto a poesia e a arte literária existe, pelo menos em estado ágrafo e abstrato praticamente desde que o homem fala, é quase o respeito a uma instituição milenar do engenho humano. Acredito que o politicamente correto seja um surto de histeria colectiva causado por minorias irriquietas.
Escrita e sociedade encavalam-se sim, sou plenamente de acordo. É a descrição da «macumbinha» não se enquadra nisso? Você já deve ter ouvido alguém comentar na rua, junto de um despacho, comenta sobre a sujeira, ofende a religião. Isso é o povo; isso é a opinião de uma parcela da sociedade, com a qual, pessoalmente não concordo, mas é fato: as pessoas menosprezam a religião alheia, porque acreditam que a sua é a única verdadeira e que dá caminho à divindade. E sabemos nós dois que as religiões afro-brasileiras sofrem de preconceitos ainda mais, justamente por oposições culturais ao catolicismo que, como eu disse ao Donato, molda o caráter de todos nós, independente do nosso credo ou do nosso ateísmo. O credo é uma coisa que mexe com o lado mais primitivo do Homem, porque se origina da incompreensão dos fenômenos naturais; ao que não se pode explicar, dá-se uma explicação. As religiões hoje mexem justamente com o lado místico, com o além-túmulo, coisas que ainda fogem à nossa compreensão. Por isso a sua força. Por isso também, que as nossas representações do divino não são mais o vento, a germinação das plantas, o sol. Inclusive, essa é uma teoria não totalmente minha, mas que a esculpo já tem uns anos.
É, você tem razão quando cita o caso do comercial de cerveja. É a autodefesa, é o sentimento de minoria que se enraizou nas pessoas. Aliás, você citou um exemplo que a mim me agrada muito pensar: os negros, ou os afro-brasileiros. É uma comunidade que tem uma grande auto-afirmação, defende seus direitos, tem consciência enquanto colectividade. Justo, justíssimo. Tem, claro, todo direito e dever de fazê-lo, pois somos seres humanos e todos iguais. Agora vamos ao outro lado: se um branco afirma a sua «europeidade», exalta a virtude dos seus antepassados brancos, chamam-no nazista em questão de segundos. Então, que igualdade é essa, onde uns podem e outros não? Se o negro tem direito, porque foi escravizado e forçado a emigrar, os brancos também o têm. Fora a questão dos termos, foi isso que eu a isso que me referi quanto citei o vocábulo «negrinho»; «mulata» está na mesma categoria, é um termo que ofende os brios da grande minoria (aí, realmente, a palavra é etimologicamente ofensiva, visto que a associação de sentido, em castelhano, segundo o Houaiss, é com mula).
Quanto a marcar-me com ranços católicos e fascistas, o católico, como já frisei é inerente a todos nós. Agora, o fascista, aí é já um exagero. Fascismo seria se eu houvesse escrito: «Morte a todos os macumbeiros indignos» e não foi isso, absolutamente. Fascista é aquele que prega a sua fé como única redentora e ignora e despreza aqueles que não a seguem; ou tem comportamento milicianos em função disso. E nesse estado, há gente de qualquer fé: crtistãos católicos, cristãos evangélicos, cristãos ortodoxos, muçulmanos, judeus ortodoxos. E há muita gente que usa do escudo que lhe confere a religião para atacar. A religião foi e é uma faca de dois gumes.
N. B.: quanto ao blogue novo, então, vou lhe mandar o convite.
Jeferson Ferreira // Quinta-feira, 25-Jan-2007 às 17:09 |
Primeiramente, quanto à publicação, gostaria de dizer para que se sinta à vontade, pedindo, apenas, para que revise uma ou outra coisa. No que toca o geral do discutido até o momento, e não querendo mexer em defunto, tenho três pontos que gostaria de esclarecer/reafirmar:
– A idéia do “fascismo católico” é minha, enquanto expressão, porém derivada de outra, de Michel Butor. Em Utilité Poétique, ele aponta as religiões monoteístas como naturalmente imperialistas, por não aceitarem os deuses de outras religiões. No politeísmo, mesmo quando havia diferenças muito grandes, as disparidades entre cultos e crenças se acomodavam mais facilmente. No imaginário do povo, creio eu, esse caráter ultrapassa o dogma, enrijece, transformando-se em ponto de distinção e aceite.
– Quanto ao termo fascismo, em si, é claro que não falo do grande fascismo. Manifestação ideológica, política, ecônomica e cultural que teve data de nascimento e de óbito, que sanou a sede de alguns povos ávidos por ordem, e de políticos oportunistas ávidos por poder, massacrando minorias, buscando um Estado “forte”, desfavorecendo a democracia e cousas e lousas e maripousas. Quando falo de fascismo, quero dizer aquele fascismo tão bem conceituado por Foucault no prefácio, se não me engano, de um dos livros do Deleuze (de que não me lembro o nome, mas, dane-se). Ele fala em microsfascismos, minúsculas e poderosíssimas “ideúnculas” castradoras, às quais todos estamos sujeitos, todos. É a aversão e o preconceito de tal forma enraízados que nem mesmo chegam a passar por algum nível de raciocínio; enfim, é o supremo panóptico enraizado .
– Não soube me fazer entender, em todos esses posts, quanto à expressão literária. Primeiro, escrita sempre é sociedade. Arte pela arte não existe. Se desejamos arte pela arte é por negarmos algo. O que tive a intenção de dizer foi que esse espelhamento social mais puro é melhor feito por quem é tocado pela grande arte, por quem consegue, como um Rosa ou um Graciliano, nos mostrar um sertanejo a filosofar. A esse respeito, seria por demais interessante a leitura de Direito à Literatura, do Candido, que está, também, em não sei qual livro.
À bientôt!