Granada de bolso

71. Zeros e zeros

Sexta-feira, 26-Jan-2007 · 3 Comentários

Em 2005, o governo turco do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan cortou seis zeros da lira turca. Ou seja, um milhão de liras passaram a ser, a partir de 1º de janeiro de 2005, uma lira turca nova (ou em bom turco, bir yeni türk lirası). A lira turca tem suas origens na lira de prata otomana e foi a moeda da República da Turquia da sua proclamação até 31 de dezembro de 2004.
Porém, os anos 1990 não foram bons para a lira. Se em 1933 um dólar estadunidense era trocado por duas liras turcas, o câmbio chegou a 1.650.000 liras por dólar. Segundo palavras do próprio Erdoğan, essa desvalorização era uma vergonha para a Turquia.
Estabilizados os preços e contida a inflação, chegou o bisturi do TCMB (Türkiye Cumhuriyet Merkez Bankası, ou o Banco Central da República da Turquia) e deu cabo de seis zeros. Várias pessoas às quais relatei o fato, a título de curiosidade inútil, assombraram-se: «Seis zeros? Que absurdo!»; «Seis?! Aqui cortamos no máximo três». Sim, cortamos apenas três zeros de cada vez. Mas quantas vezes cortamos três zeros?
Ainda a título de curiosidade, façamos uma paralelo com o período de vigência da lira turca republicana e das moedas brasileiras, ou seja de 1923 a 2007, ignorando as respectivas inflações.
Então, de 1923 a 2004, temos a lira turca, que ganhou aquela enormidade de zeros e desvalorizou-se absurdamente; a comparação com o dólar demonstra a perda de valor.
No caso brasileiro: em 1923, era o tempo do real (que fazia o plural em “réis”) – nem havia moeda divisionária, a menor moeda era a de 20 réis e, pelas suas dimensões, vê-se logo que não valia lá muita coisa. Deram uma cartada não sei bem quando fizeram com que o padrão monetário passasse a ser o mil-réis, moeda de base milesemal, dividida em mil réis. Acredito que foi uma medida pífia, tecnicamente; continuou tudo na mesma até 1943, quando um mil-réis ou mil reis passou a ser um cruzeiro, moeda de base centesimal. Cortam-se três zeros e eis a nova unidade. Apareceram pela primeira vez os centavos que sumirão e reaparecerão no meio século seguinte. Já se acumularam três zeros.
As primeiras moedas do cruzeiro eram de cobre-alumínio, um metal razoável, ainda com a última moeda de prata que circulou como moeda corrente, a de cinco cruzeiros. Os primeiros sinais físicos da desvalorização deram-se em 1956, quando a série de cobre-alumínio foi substituída por uma de alumínio. A década de 1960 viu a desvalorização do cruzeiro; até que uma reforma monetária em 1967 cortou mais três zeros ao cruzeiro, criando o cruzeiro novo, para diferenciá-lo do antigo, denominação que voltou a cruzeiro em 1971. Então, 1.000 cruzeiros de 1943, que eram Rs. 1:000$000, passaram a ser NCr$ 1,00 e, depois de 1971, Cr$ 1,00.
Os anos 1970 foram de inflação baixa, mas a panela começou a ferver entre 1978 e 1979, como sempre, o trocado é quem primeiro sente o efeito. Até 1974, as moedas de dez, vinte e cinqüenta centavos, que eram de cupro-níquel, passaram a ser de aço inoxidável, metal menos nobre e mais leve. Em 1981, os centavos foram abolidos.
A situação de desvalorização seguiu-se e, no Governo Sarney, veio um plano de estabilização econômica, o Plano Cruzado e tolheu mais três zeros ao cruzeiro, estaca criado o cruzado, que equivalia a Cr$ 1.000 de 1967, a Cr$ 1.000.000 de 1943 e a um bilhão de reís (ou a um milhão de mil-réis). Já temos nove zeros cortados.
Os anos seguintes foram marcados pelo vórtice hiperinflacionário. Preços que subiam três vezes ao dia e outras loucuras. Em 1989, o cruzado teve três zeros cancerosos cortados, passando a ser o cruzado novo, que em 1990, sem corte de zeros, voltou a chamar cruzeiro. Então, NCz$ 1,00 era equivalente a mil cruzados, um milhão de cruzeiros de 1967, um bilhão de cruzeiros de 1943 ou um trilhão de réis. Doze zeros até aqui.
Em 1993, o cruzeiro-cruzado novo não agüentou de novo e mais três zeros foram extirpados, criando-se o pífio e efêmero cruzeiro real. Um cruzeiro real (CR$ 1,00) era equivalente a mil cruzeiros/cruzados novos, ou a um milhão de cruzados, um bilhão de cruzeiros de 1967, um trilhão de cruzeiros de 1943 ou ainda um quatrilião de réis. Quinze zeros.
Isso até o plano de dolarização informal (conhecido como Plano Real) que indexou a economia por um tempo e dividiu os cruzeiros por 2.750 (mais ou menos a cotação do dólar paralelo então), criando o real, R$ 1,00 = CR$ 2.750,00. É como se mais três zeros fossem cortados, o que faria dezoito zeros.
E tem gente que tem coragem de falar da lira turca, que só cortou seis zeros.

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