Trem
O trem escorregava em direção a Itaquaquecetuba. Era manhã, e no contrafluxo pelo vagão vazio tronavam os solavancos dialógicos das rodas de aço com os trilhos. Como em toda a viagem de trem, a pouco aprazível paisagem suburbana ia sobrepondo-se no retângulo da janela e seus vidros acrílicos riscados. Poucas pessoas há no vagão: ao meu lado, um senhor com seus setenta anos. No fundo, um jovem vestindo uma camisa do Corinthians dorme desbragadamente com as pernas muito afastadas. Uma mãe com seu filho, ambos olham pelo trecho translúcido do pseudovidro.
A velocidade do comboio começa a diminuir: é uma estação que está já a vista. Sabe-se lá qual, mas não é a minha. As portas abrem ruidosamente para embarque e desembarque; o sistema de alto-falantes da estação resfolega a presença do trem na plataforma. Parado o trem, parece morto. É o meio da manhã e quem já tinha de ir foi, por isso o marasmo. Vejo a plataforma pela translucidez do vidro-plástico. Levanto a cabeça à parte da janela desimpedida, sem fibra de vidro e vejo, a descer correndo pelas escadas da estação, um homem balofo de terno e gravata. Parece que vai pegar o trem. E vai: entrou no vagão onde eu estou. Depois de entrar, ainda pôs a cabeça pela porta e olhou para os dois lados antes que essa, com um apito de advertência estridente, se fechasse com uma pancada metálica. Apesar dos inúmeros assentos que se ofertavam lascivamente sob o sol fosco que transpassava as janelas e suas folhas de plástico, o homem de terno manteve-se de pé, apoiado no balaústre metálico. O trem repôs-se em marcha em direção a Itaquaquecetuba. Solavancos e balidos metálicos, é quase uma carroça eletrificada o trem.
Olhando para o homem de terno, observo bem o quando ele é roliço e mal cabe no terno mal-ajambrado; terno gasto e puído. Sua barriga balança conforme oscila o piso do vagão cujas rodas vão entrando nos trilhos tortuosos. Na mão direita, um livro sebento encapado em percalina preta, olho melhor e vejo que na capa há letras que um dia foram douradas: trata-se da Bíblia. E nosso homem, que se não fosse pelo terno, pouco diferiria pelo sujeito com a camisa do Corinthians, é na verdade um desses pregadores ferroviários.
No balouçar do vagão, o pastor dos trilhos pendura-se na alça do balaústre com uma só mão e solta um batracóide «irmãos!», que chama a atenção dos poucos presentes. Começa a andar tropegamente pelo vagão, falando de pecados, punições e salvação. Na ponta dos pés mantinha-se, às vezes num único pé, enquanto berrava os prodígios e primícias de Deus-Pai e seu filho unigênito. Falava da gente que se drogava e condenava-a: «a cocaína! É coisa do demo! Satanás que mandou ela pra você cafungar! Quando cafunga, lembra-te do Satanás, infiel!». Eu achava já aquilo tudo nauseante e não via a hora de chegar à minha estação. O pastor, ora passava por nós, por mim e pelo velhinho, ou como um orangotango, macaqueando pelo balaústre ou quase rastejando pelo piso, como uma cobra que houvesse pouco antes deglutido um boi. Passou por nós de novo. «a maconha, erva do capeta! Pecaminosa! Ela deixa o diabo dentro de você, por isso que vicia e é isso que o diabo quer!».
Nesse instante, o senhorzinho, que antes do intróito religioso dormitava no banco, virou-se para mim e disse: «é por isso que eu ainda prefiro a maconha; se sem eles ficam assim, igual a esse homem, eu prefiro a maconha».






3 respostas até agora ↓
Sissi // Quinta-Feira, 15-Mar-2007 às 17:30 |
a propósito do comentário do senhorzinho, queria dizer que sempre sinto vontade de saber o que cada um pensa no momento em que acontece algo do tipo…
G // Sexta-feira, 16-Mar-2007 às 7:46 |
Olá!
Palavras sábias as do senhorzinho!
Abraço!
dani // Sexta-feira, 16-Mar-2007 às 8:11 |
p****, sérgio, você me fez soltar café pelo nariz e todos os palavrões que eu conheço com aquele teu comentário no post sobre a transnístria XD. por que é que eu tinha CERTEZA que você tinha alguma ligação com o lugar?
a gente devia montar a comunidade “pridnestrovians in exile”. ou coisa assim.