
Wesley ou uma estória de Páscoa
Wesley enfrentava mais um dia de trabalho. Oito horas sentado com um fone de ouvido ligado a um telefone e oferecer planos de funerária para quem recebia a ligação aleatória, cujo número era escolhido por uma máquina eletrônica. Era um trabalho muito agradável. «Boa noite, senhor. O senhor não teria interesse em estar adquirindo um maravilhoso jazigo no Cemitério Memorial “Paraíso Feliz”?». O nome do cemitério era de fato horrível. «O que? Parece nome de parque de diversão! Não quero ser enterrado num lugar com esse nome». Apesar das negativas contínuas, Wesley era muito insistente. Era isso que os supervisores pregavam: insistência igual a jazigo vendido igual a garantia de emprego. «O senhor pode estar pagando em inúmeras vezes, é facilitado e depois, o senhor só vai estar pagando a manutenção do jazigo». Sempre havia as perguntas que fugiam do roteiro: «Mas eu tenho que continuar a pagar a manutenção mensal mesmo depois de morto?». Wesley coçava seu queixo de cavanhaque desenhado a prestobarba. «Um momento que eu vou consultar a minha chefia…». Punha o interlocutor na espera que não era nada mais que um modo onde entrava uma música chata para desgosto de quem espera. Wesley levanta da sua baia, ajeita a calça de cintura baixa que, por pouco, no empuxo de levantar-se, vai parar-lhe sobre os joelhos e segue à mesa do supervisor. Repete a pergunta para o supervisor. Esse lhe dirige um olhar de igual indagação, consulta um manual mal escrito e informa: «a taxa é perene, responda somente isso». Wesley volta à mesa, senta-se, desaperta o botão e tira a linha telefônica do modo de espera: tom de ocupado. A pessoa desistiu. Uma venda a menos, um arrepio de desgosto percorre os músculos de academia de Wesley. Uma venda a menos. Tem de pensar como vai cumprir a meta. Tem de manter o emprego. A dinheiro, a carteira assinada, os vales-transporte.
No fim do dia, o supervisor junta todos os operadores: «Estamos tendo muito equipamento quebrado: fones, mouses, teclados. Vou estar pedindo que vocês venham a ter mais cuidado com o equipamento da empresa e digo pra vocês que cada um de vocês vai ser responsável pelo equipamento. O que aparecer quebrado, vai sair do bolso de vocês. Certo? Estão avisados. Boa-noite pra vocês, estão dispensados».
Wesley voltou à mesa para desligar as coisas. Desligar o computador, guardar os apetrechos na gaveta. Num movimento mais brusco com a mão, por ter enganchado sua camisa pólo na divisória, acabou por partir, com um ruído seco, o arco de plástico do fone de ouvido. Escritório vazio, luz de mercúrio a entrar pela janela, outro calafrio de pavor transpassa-lhe a alma. Era o fim da sexta-feira santa; segunda-feira teria de enfrentar o supervisor no seu cubículo de vidro, escutá-lo falar de cuidado, de custos com material e claro, do respectivo desconto do salário. A administradora não admitia prejuízos e falhas eram sistematicamente punidas. Por exemplo, o futuro simples, como tempo verbal, estava banido: «Vocês têm de dar a impressão de estar agindo, um contínuo no futuro, no tempo e no espaço». Era uma metafísica vomitória. Mas Wesley não sabia o que era metafísica, talvez confundisse o termo com alguma modalidade de pornografia. A única coisa que lia era o jornal de esporte.
O arco do fone estava partido. Wesley, com lágrimas nos olhos, enfiou os dois pedaços na gaveta e fechou-a a chave. Até segunda, tinha chão. Saiu, pegou o ônibus lotado: uma hora de pé no ônibus. No caminho ainda choveu e o caminho alongou-se ainda mais. Não resmungou dos cotovelos alheios junto aos seus rins, nem das sacoladas na cabeça, nem do balaústre seboso e nem do gordo que insiste em passar num espaço que não passaria um hamster. Pensava só no fone de ouvido avariado e o alvoroço que seria na segunda. Chegou em casa, disse oi à mãe e ao pai, não quis comer, não quis sair com a namorada – e nem poderia, porque ela estava fazendo plantão: vendia planos de telefonia celular por telefone, sentada numa mesa, usando de um fone de ouvido, um computador e, claro, um telefone. Fone de ouvido. Precisava esquecer daquilo, distrair-se. Sentado na cama, pegou o jornal de esportes, e começou a ler: Jorginho do Cabuaçu Futebol Clube toma bolada no ouvido e tem tímpano estourado. Ouvido, fone de ouvido. Apelou Wesley para a televisão. Ligou e era um programa de perguntas e respostas que passava. O apresentador falava com os telespectadores através do telefone e, para tal, tinha um fone de ouvido. Desligou, resolveu ir dormir. Apagou a luz. No escuro, sua vista dilatava-se no infinito e começou o corpo a amolecer, relaxar, o sono começava suas brincadeiras meio sonho, meio realidade. Wesley via-se andando à beira de um campo de futebol, jogadores treinavam e mulheres nuas lambiam-se nas arquibancadas. A barafunda da imaginação continuou até que fones de ouvido começaram a chover no estádio e cortar narizes, orelhas e dedos dos jogadores e das mulheres que inutilmente tentavam defender-se com as mãos e iam sendo dilacerados. Wesleu ergueu-se súbito na cama, empapado em suor. Foram horas rolando na cama e só conseguiu de fato adormecer quando já o céu tingia-se com as cores da aurora. Dormiu pouco e acordou com olheiras. O dia foi uma tortura, tudo no sábado de Aleluia lembrava ao fone que jazia partido na gaveta, há dezenas de quilômetros da casa de Wesley. Kelly Kimberly, sua prima, entrou em casa usando um walkman e batendo suas sandálias havaianas no piso. Ele correu da sala, enfiou-se no quarto e de lá não arredou o pé apesar dos apelos da mãe para que viesse jantar, haviam pedido esfihas. Todos os três irmãos de Wesley: Wellington, Willian e Wuahlla, mas os pais, deliciavam-se com as esfihas e ele prosseguia encafuado no quarto. Há horas tinha o pensamento fixo num objeto: no fone. Delineava-se na sua vista e tornava-se quase palpável a silhueta do objeto no ar, ia desenhando-se e aumentando no escuro do quarto.
Agachado no canto do quarto, Wesley olhou no seu relógio caro que era já mais de meia noite: era já domingo de Páscoa. O pastor da igreja disse que foi quando Jesus Cristo ressuscitou, por isso a comemoração. Ele só ouviu falar de ovos de chocolate nos últimos tempos. Meia-noite e quinze: sentiu um murmúrio das vísceras, logo uma visita ao banheiro seria necessária, mais uns minutos, novos murmúrios e efervescências intestinais, acompanhados de umas pontadas. Era hora de ir-se ao trono, acordou Wesley. Levantou-se e, ao abrir a porta do quarto, percebeu que a casa dormia. Os irmãos certamente foram para as danceterias, coisa que ele também teria feito. Os velhos foram entregar-se a certas diversões que a hora permite.
Pegou o jornal de esporte, colocou-o sob a axila e caminhou até o banheiro, acomodou-se de acordo para o procedimento padrão e esperou. As pontadas aumentavam, certamente era uma cólica intestinal pelo nervoso causado pela merda do fone de ouvido do inferno. As pontadas foram aumentando, de intermitentes, passaram a ser uma única pontada infinita, que começava no fígado e terminava no esfíncter, dor fina e aguda como um grito. Wesley mordia os lábios. Talvez fosse necessário o uso de um laxativo. A pontada ia cada vez mais aguda, Wesley já se dobrava contra os joelhos; nem que ele tivesse comido cacos de vidro doeria tanto. Sentiu que o que tinha de sair começava a deslocar-se, mas com muito esforço. Suava frio. Cada gomo do intestino grosso dilatava-se à passagem do paquidérmico dejeto. «É dos grandes!» Pensava Wesley, enquanto sentia-se rasgar em dois. A coisa finalmente aborcou a beira e foi um parto: quinze minutos de desespero e da mais horrível dor, dilacerante e, de súbito, um barulho surdo na água do vaso. Exausto, assustado e doloridíssimo, ainda com as vísceras ofendidas por aquele trambolho, Wesley resolveu-se por ver quais as proporções absurdas do dejeto e dizer-lhe umas poucas e boas, falar uns palavrões para aliviar e ir dormir. Quando se virou, encarou o vaso, percebeu que, em meio às imundícies de sempre, havia um grande ovo branco. Wesley havia botado um ovo. Era fato. O ovo boiava, sujo, na água do vaso. Sua primeira reação foi um novo arrepio de pavor; depois teve um espasmo muscular para enfiar a mão e resgatar o ovo, mas o asco o deteve. Largou o banheiro e foi à cozinha, revirou a gaveta dos talheres e retirou de lá um pegador de salada. Correu de volta ao banheiro.
Com o pegador, retirou o ovo do vaso e livrou-se das imundícies consuetas, acionando a válvula de descarga. Depositou o ovo na cuba do lavatório e abriu a torneira para lavá-lo com o auxílio da bucha da privada. Limpo, o ovo semelhava-se a um ovo de galinha, só que com o dobro do tamanho. Wesley não acreditava naquele portento. Lembrou-se que o feijão da marmita de ontem tinha uns fragmentos de toucinho defumado, mas era só para dar gosto. Apavorou-se. Talvez, além do ovo, viesse a nascer-lhe um rabo, que seria dificílimo escondê-lo dentro das calças, como faz como seus freqüentes furúnculos. Secou o ovo e levou-o para o seu quarto. Sentou-se com os quartos ainda doloridos da postura e aninhou o ovo no cobertor. Olhava para o ovo, fixamente, uma lua inteira que havia saído de si. Pensava no que poderia sair dali, talvez um demoniozinho, numa placenta de toucinho. A culpa era do toucinho. Cristãos não botam ovos. Pensou se deveria chocá-lo, mas a idéia pareceu-lhe despropositada; ainda mais que, se fosse de fato um demônio, esse poderia morder-lhe as partes. Aproximou o rosto do ovo hediondo e percebeu que a casca calcária e porosa tinha uma trinca; pegou-o com ambas as mãos e levemente chacoalhou-o. Um ruidinho como que algo solto e seco ali estivesse. Apertou a superfície do ovo com os polegares, bem junto da rachadura, que foi aumentando até que o dedo entrou por um buraco. Assustado, Wesley lançou o ovo, que caiu num canto escuro do quarto, entre a cômoda e o guarda-roupa; pelo barulho produzido, a casca havia quebrado. Wesley sentiu u’a amargura, uma ameaça a um sentimento materno aparecido naquele momento: era das suas entranhas, o que quer que fosse, um diabinho, uma cobra ou um pintinho, era seu, seu filho, tinha por obrigação protegê-lo. Jogou-se até o canto onde caiu o ovo, viu os fragmentos da casca. Enfiou a cabeça pelo vão entre os móveis: primeiro o susto e depois o alívio: dentro do ovo, devidamente acomodado numa embalagem plástica, um fone de ouvido de arco dobrável.






6 respostas até agora ↓
jeff // Terça-feira, 10-Abr-2007 às 9:18 |
Fabuloso. O rídiculo do real encontra o simbólico do absurdo.
G // Terça-feira, 10-Abr-2007 às 13:13 |
oi!
Td bem?
História interessante! E educativa tambem! :)
Abraço!
G
Rafael Pink // Sábado, 14-Abr-2007 às 21:09 |
Sem palavras…
Quando isso vai ser impresso e distribuído pelo mundo afora?
Aviso « Granada de bolso // Segunda-feira, 21-Jan-2008 às 13:00 |
[...] as postagens velhas, entre as quais, vivamente recomendamos: 14, 18, 29, 33, 46, 55, 68, 89, 93, 95, 112, 124, 142, 145, 164, 175, 181, [...]
VAISEFUDER // Sábado, 31-Mai-2008 às 16:20 |
VAO SE FUDER SEUS MERDAS!
Sérgio Mendes, não o músico // Sábado, 31-Mai-2008 às 19:21 |
É, fácil esconder-se, né, seu merda. Deve ser atendente de telemarketing e chamar Wesley.