Granada de bolso

99. Fábulas modernas (II)

Quinta-feira, 19-Abr-2007 · 5 Comentários

Inverossimilhanças 

— Vou escrever um conto.
— Ah, é? Sobre o quê?
— Não sei… vou buscar a máquina de escrever e já volto…
— Máquina de escrever? Mas ninguém mais escreve a máquina… use o computador…
— Não… quero fazer à antiga, como faziam os grandes escritores…
Sai do quarto e vai buscar a máquina. Minutos depois, volta com uma mala marrom, cuja lateral descreve um trapézio.
— Você deveria doar essa tralha a um museu.
— Não; essa máquina foi de um grande sonetista.
— E as minhas meias pertenceram a Herr Adolf! E daí, um sonetista com três livros publicados… grande coisa…
— Você tem algum livro publicado?
— Não, não tenho…
— Então essa máquina vale mais que o seu computador…
Tira a máquina cinza de dentro da maleta e a apóia na mesa. Senta-se e pousa as mãos sobre o teclado.
— Faz tempo que eu não a tirava do armário. Meus dedos estão amolecidos por causa da maciez das teclas.
— E o que você vai escrever?
— Ainda não sei… me passa uma folha.
Recebe a folha e põe-na na máquina. Olha para a folha, uns instantes, aparentando reticência. De súbito, os dedos tremelicam sobre o teclado e atacam-no com sofreguidão. As batidas dos tipos alavancados sobre o carro da máquina ressoam pelo quarto, não obstante o rumor de mundo que entra pela janela.
— Vou começar… «Trafegavam os bondes… pela Rio—Niteroi…»…
— Ei, não pode!
— Como assim, não pode?
— Não tem verossimilhança. Nunca trafegaram bondes pela Rio—Niterói! É um disparate.
Nesse exato instante, um baque ensurdecedor. Algo havia despencado. Correram ambos à janela. Um transatlântico havia acabado de ancorar-se no asfalto da rua e alguém gritava já para que baixassem a rampa.
— O que era inverossímil mesmo?

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