Granada de bolso

104. Amazonas: túmulo do Gerativismo

Segunda-feira, 30-Abr-2007 · 9 Comentários

Recentemente, veio à luz na imprensa a existência de uma língua que quebra com um dos preceitos fundamentais da teoria lingüística do Gerativismo. Transcrevo o artigo de Claudio Angelo, publicado na Folha de São Paulo. A minha única dúvida e se, confirmada a inexistência de recursividade no pirahã, acabará a ditadura gerativista do Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo.

«Uma tribo de caçadores-coletores do sul do Amazonas está colocando lingüistas e antropólogos em pé de guerra. Segundo um pesquisador, a língua dos pirahãs, um grupo de 350 pessoas que habitam o rio Maici, perto da divisa com Rondônia, é tão excepcional que põe em xeque a principal teoria vigente sobre a linguagem humana. A tese, no entanto, é contestada por outros lingüistas.
Os pirahãs ficaram famosos entre os acadêmicos devido ao trabalho do americano Daniel Everett, 55, um ex-missionário cristão que hoje é professor da Universidade Estadual de Illinois. Ele começou a estudar a língua da tribo nos anos 1970, com o objetivo (que nunca foi cumprido) de catequizá-los.
Enquanto aprendia a língua, vivendo numa aldeia pirahã com a mulher e os filhos, Everett descobriu uma série de peculiaridades no idioma. Os pirahãs não têm palavras para cores. Usam apenas oito consoantes e três vogais. Não possuem mitos de criação, não têm tempos verbais, não fazem arte e só sabem contar até três.

Em 2005, Everett publicou no periódico Current Anthropology um artigo no qual afirmava também que a língua pirahã não tem recursividade, ou seja, a capacidade de formar sentenças encaixando uma frase na outra. Assim, um pirahã seria capaz de dizer «a canoa de João», «o irmão de João», mas nunca «a canoa do irmão de João». Como vivem numa sociedade extremamente simples, onde o que conta é a experiência imediata (o aqui e agora), os pirahãs, argumenta Everett, têm sua língua (e, portanto, seu pensamento) limitados pela cultura – um caso único.
O trabalho caiu como uma bomba no meio lingüístico. Se Everett estivesse certo, o idioma pirahã seria um sério desafio à teoria da Gramática Universal. Desenvolvida pelo influente lingüista americano Noam Chomsky, a teoria afirma que todos os seres humanos possuem uma faculdade inata da linguagem, uma espécie de órgão da linguagem no cérebro. Essa capacidade independeria do meio cultural, tendo sido impressa nos circuitos cerebrais do Homo sapiens pela evolução. E a principal marca dessa faculdade é justamente a recursividade.
Uma exceção a essa regra significaria ou que os pirahãs não são humanos ou que o arcabouço intelectual chomskiano – sob o qual se formaram gerações de lingüistas – está falido. Everett, é claro, aposta na segunda hipótese.

Bombando
A tese de Everett sobre como a chamada experiência imediata limita a competência lingüística dos pirahãs saiu do domínio da academia na semana passada e se espalhou como rastilho de pólvora na imprensa popular. Uma reportagem de 20 páginas intitulada «O Intérprete – Será que uma tribo remota da Amazônia virou do avesso nossa compreensão da linguagem?» foi publicada na prestigiosa revista americana The New Yorker e citada por jornais on-line, revistas e blogs nos EUA e no Brasil.
No entanto, no final do mês passado, antes de a New Yorker ir para a banca, um trio de lingüistas dos EUA e do Brasil postou no site especializado LingBuzz um artigo contestando ponto a ponto o trabalho de Everett. Andrew Nevins, da Universidade Harvard, David Pesetsky, colega de Chomsky no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e Cilene Rodrigues, da Unicamp, afirmam – com base em trabalhos anteriores do próprio Everett – que o pirahã não apresenta desafio à Gramática Universal.»

N. B.: 1) quanto à catequização dos índios, fico feliz que não tenha sido levada a cabo; cada povo tem sua crença e acredito reprovável que instituições tanto católicas quanto protestantes venham interferir na vida dos índios (que têm sua forma de vida, cultura e língua protegidas pela Constituição brasileira); certamente o «pesquisador» era vinculado ao SIL (Summer Institute of Linguistics), que ainda reflete uma faceta ocidental de «levar a Civilização onde ela não está», quase da mesma maneira que pensavam as potências que retalharam a África no último quartel do século XIX, a velha prepotência de querer levar algo que, não se sabe exatamente se faz falta ou não, ou esses povos não têm sua religião ou crenças, e por que elas não seriam válidas ou tão críveis quanto o Cristianismo? Tão tacanho e cansativo quanto as Testemunhas de Jeová que vêm à nossa porta na manhã dos domingos;

2) quanto à Lingüística, fico alegre que algo venha a quebrar a catequese e a doutrinação feita em algumas instituições de ensino como na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde não se admite mais nada que não seja gerativista, o que é fato engraçado numa instituição que se quer pluralista. Certamente dirão que o pirahã nem mesmo língua é. Vejamos o suceder dos fatos.

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9 respostas até agora ↓

  • Juliana // Terça-feira, 01-Mai-2007 às 9:51 | Responder

    Primeiro, Sé você é fogo!!!! rsrs.
    Segundo os pirahãs são humanos sim, o que mais me estranha não é o comportamento lingüístico deles (toda teoria é feita para ser quebrada), mas o comportamento antropológico que eles possuem. Desde o homem primitivo, todo o povo, independente de ter a cultura escrita ou não, desenvolveu um sistema de tradição oral e crenças. Este sistema fez inclusive o homem conseguir superar a era do gelo…

  • jeff // Terça-feira, 01-Mai-2007 às 10:25 | Responder

    É interessante, mas, no mesmo caderno, Chomsky (é assim que escreve?) defende que os desafios impostos pelas línguas devem ampliar o escopo da teoria, não atravancá-lo.

  • Conde Sérgio De Venardis // Terça-feira, 01-Mai-2007 às 12:33 | Responder

    Também acho, Ju, que as teorias servem para ser quebradas, mas você sabe que sempre haverá resistência.

    Mas, Jeff, o Chomsky tem consciência do para que serve uma teoria, mas não é o entendimento que há no DL; alguns professores (isento-me de citar nomes) já adiantaram que o pirahã não seria uma língua (!) – uma sub-língua, talvez? O DL vive do dogma do Gerativismo e qualquer coisa que vá contra será visto como ameaça.

  • Orlando // Terça-feira, 01-Mai-2007 às 23:50 | Responder

    Talvez os rãs piradas não sejam exatamente humanos. Talvez sejam neandertais imberbes, ou uma nova espécie de primatas. Ou então, putz, que cazzo de visão paupérrima de mundo, hein?

  • Donato // Quarta-feira, 02-Mai-2007 às 10:30 | Responder

    O mais curioso é o local onde foi encontrada tal língua. Sim, justamente aqui, no Brasil, terra de nosso Senhor e da esculhambação total.

  • Conde Sérgio De Venardis // Quarta-feira, 02-Mai-2007 às 14:12 | Responder

    Ué, Orlando. Você me vindo com visão de mundo? Mas, muito bem. A visão de mundo reflete a necessidade deles. Se eles não têm recursidade é porque no seu meio não se faz necessária.

    É, Donato. O Brasil é o fundo do poço da Civilização… rs.

  • júlia // Sexta-feira, 04-Mai-2007 às 13:38 | Responder

    eu acho que o chomsky é um cara
    os pirahã s são outros caras
    e o DL não-existe pra nenhum deles!

  • Conde Sérgio De Venardis // Sexta-feira, 04-Mai-2007 às 18:29 | Responder

    Ah, Júlia. Infelizmente não é – ao menos, não me parece – tão irrelevante assim que ambos os extremos auto-ignorem-se. As instituições são inúteis, mas existem e influem, para bem ou para mal.

  • adriano // Sábado, 29-Dez-2007 às 17:29 | Responder

    A teoria é que deve ser analisada à luz dos fatos, nao o contrario. “os intelectuais”querem encerrar a realidade, o mundo vivo, dentro de um esquema acadêmico. Considero isto um absurdo. Nao há problema em eles questionarem, o debate é sempre válido, mas negar é muita prepotencia.

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