Um raciocínio sem pretensões
Recebi no começo do mês, um correio electrônico da lista dos Fillos de Galicia, grupo virtual que reúne alguns galegos no exterior e seus descendentes, onde o Gestor-Presidente do grupo Manuel Casal Lodeiro reclama da acepção do vocábulo gallego em dicionários de língua espanhola. Transcrevo parte da mensagem:
En Fillos.org nos sumamos ás protestas e reaccións perante a identificación de gallego con tonto que algúns defenden no dicionario do idioma español. [...] Lonxe de sermos tontos, os galegos temos motivos de sobra para estarmos fachendosos do noso pobo: tes unha historia por descubrir no noso portal: os galegos conquistamos Irlanda, a onde levamos a cultura celta tal día coma onte, un 1º de Maio. Ademais foron os nosos antergos quen lle deron o seu nome a aquel país. [...]
O fato da acepção pejorativa da galego em espanhol, eu já tinha alguma noção e decidi consultar no Dicionário da Real Academia Espanhola e lá está, como quinta e sexta acepções:
5. adj. C. Rica. tonto (falto de entendimiento o razón).
6. adj. El Salv. tartamudo.
No Fillos, criou-se um tópico para debater a questão. Alguns se puseram terminantemente contra a presença da acepção no Dicionário; outros – como eu mesmo lá escrevi – defenderam a função de fidelidade que deve desenvolver um dicionário: se está na língua, há-de constar no seu dicionário. Até que um dos participantes alegou que o uso peculiar costarriquenho não se estamparia na realidade. Fosse o caso, talvez, da revisão do dicionário, mas nada de mandar petições ao Parlamento para que esse intervenha na RAE.
O fato me fez lembrar do que existe em português com relação ao mesmo assunto (ou a variante portuguesa do galaico-português, como queremos muitos). Peguei o verbete galego em português. Além do óbvio (relativo à Galiza ou o que é seu natural ou habitante) há sim usos pejorativos, que citamos na seqüência em que ocorrem no dicionário:
3 Regionalismo: Brasil. Uso: pejorativo. indivíduo nascido em Portugal, esp. os de mais baixo nível de cultura
4 Regionalismo: Nordeste do Brasil e Santa Catarina. Uso: pejorativo. qualquer estrangeiro; gringo
6 Regionalismo: Portugal. Uso: informal. carregador de bagagens ou transportador de fretes, freq. natural da Galiza
8 Regionalismo: Portugal. Uso: pejorativo. indíviduo rude, grosseiro; labrego
9 Regionalismo: Alentejo. Uso: pejorativo. o que é natural ou oriundo do Norte de Portugal, esp. da região das Beiras
O que inclui ainda o substantivo galegada:
1 ato, dito ou comportamento próprio de galego (‘indivíduo nascido em Portugal’); galeguice
3 ato impensado; ignorância, estupidez
É certo que algo que se estampa na língua tem raízes fundas. Tem origens em preconceitos; a Galiza, dentro da Espanha, ainda hoje é uma das regiões mais pobres. Coisa similar, como sabemos, acontece com o nosso Nordeste. Daí as acepções pejorativas de baiano:
4 Uso: pejorativo. m.q. caipira (‘roceiro’)
6.1 Uso: informal, pejorativo. us. tb. como palavra-ônibus disfêmica e preconceituosa, fora do Estado da Bahia, com significados como ‘tolo’, ‘negro’, ‘mulato’, ‘ignorante’, ‘fanfarrão’ etc.
Vejamos com paraíba, substantivo derivado do mesmo topônimo:
2 (1950) Regionalismo: Brasil. Uso: informal, pejorativo. mulher de aspecto e comportamento masculinos
2.1 Regionalismo: Brasil. Uso: informal, pejorativo. m.q. lésbica
4 operário não qualificado da construção civil
Embora o dicionário não registre (falhas comuns), ceará é usado com a mesma acepção 4 de paraíba; e além do uso na construção civil, usa-se também como vocativo pejorativo para alguém que, visivelmente tenha traços característicos da região tanto fisiognomônicos, quanto de sotaque.
Acredito que o uso pejorativo de galego (tanto em português quanto em castelhano) e baiano (no português americano) aproximam-se por um fator principal: são regiões pobres de onde muitos naturais emigraram para regiões mais favorecidas: nordestinos, há muitíssimos em São Paulo e galegos há pelo mundo afora (em São Paulo, inclusive). O que termina por transpor-se à língua é o preconceito de classe: nordestinos pobres, mais pobres que os paulistas pobres, são renegados a funções secundárias por não ter tido oportunidades de estudar, por falar «errado» segundo a norma local da nova terra.
No caso dos galegos, acredito que se trate de um arcaísmo em português, vindo com o próprio colonizador, mas que voltou-se contra ele após a Independência do Brasil. Das cinco acepções pejorativas para galego, três são do português europeu, enquanto as outras duas, particularmente a número 3, vejo diretamente derivada do uso europeu. Os exemplos mais clássicos e recentes que chamam a minha atenção são ambos dos textos do Chico Buarque e Ruy Guerra, primeiro na peça Calabar ou o Elogio da Traição, de 1974, onde o Governador português conversa com um cativo holandês:
MATHIAS [de Albiquerque, Governador] (queimando-se) – Que é na verdade quem manda na Holanda, confessa. Vocês não têm um rei mas uma corja de quitandeiros de terceira categoria à testa do Estado…
HOLANDÊS – E vocês, seus galegos…
MATHIAS – Não, a Galícia é com a Espanha…
HOLANDÊS – Portugal também é com a Espanha…
MATHIAS – Isso é provisório. (pomposo) E que esta seja a primeira e a última vez que um português é chamado galego.
O trecho é extremamente irônico, pois no Rio de Janeiro dos anos 1970 era comum um português ser alcunhado de galego. Em uma música da peça Ópera do Malandro (1979), também de Chico Buarque, o termo galego aparece em substituição a português:
[...]
O garçom/No prejuízo
Sem sorriso/Sem freguês
De passagem/Pela caixa
Dá uma baixa/No português
O galego/Acha estranho
Que o seu ganho/Tá um horror
Pega o lápis/Soma os canos
Passa os danos/Pro distribuidor
[...]
Este chega/Pro galego
Nega arreglo/Cobra mais
A cachaça/Tá de graça
Mas o frete/Como é que faz?
O galego/Tá apertado
Pro seu lado/Não tá bom
Então deixa/Congelada
A mesada/Do garçom
[...]
No caso aqui, é um esteriótipo, presente no Rio de Janeiro, de que todo dono de botequim era português; como em São Paulo são os donos das padarias (panificadoras); só que, em São Paulo é incomum – só não digo realmente não por falta de dados estatísticos – um português ser alcunhado de galego. Como o dono de botequim aparece novamente Galego na peça Gota d’água (1975) de Chico Buarque e Paulo Pontes, como personagem coadjuvante, mas ligeiramente acastelhanado:
[...]
GALEGO Más um copo?
[...]
GALEGO Quien quere uma empanada?
Mas o uso de gentílicos como desqualificativos não é novidade. O mundo latino é herdeiro de alguns termos vindos do grego que são mais conhecidos por ofensa do que por ser um gentílico é o caso de capadócio (da Capadócia, antiga região da Ásia Menor) e da Beócia (região da Grécia central onde estava localizada a renomada cidade de Tebas).
Acepções de capadócio:
1 relativo à Capadócia, província central da Ásia Menor, ou o que é seu natural ou habitante; capádoce, capadócico, capádoco
2 Uso: pejorativo. que ou aquele que é pouco inteligente; ignorante; burro
3 (1889) Regionalismo: Brasil. que ou quem é impostor; trapaceiro, charlatão
4 Regionalismo: Brasil. Uso: pejorativo. que ou quem tenta enganar os outros dando-se ares importantes; cabotino, espertalhão
5 Regionalismo: Brasil. Uso: pejorativo. que ou o que tem modos de canalha
6 Regionalismo: Brasil. Diacronismo: obsoleto. que ou quem canta à noite sob as janelas da namorada
E de beócio:
1 relativo à Beócia, região da antiga Grécia ao Norte e Noroeste da Ática, ou o seu natural ou habitante
2 Derivação: por extensão de sentido. Uso: pejorativo. que ou o que apresenta as características atribuídas (pelos atenienses) aos beócios, ou seja, espírito pouco cultivado, indiferença à cultura; grosseiro, boçal
3 Derivação: por extensão de sentido. Uso: informal, pejorativo. que ou o que não possui conhecimentos suficientes em determinado domínio; ignorante Ex.: <é um b. nesse assunto> <um manual b. sobre computação>
4 Derivação: por extensão de sentido (da acp. 2). que ou o que é simplório, ingênuo
A tradução de beócio e capadócio, quando vistos em um texto que não seja de História da Grécia Antiga é certamente: estúpido, ignorante, burro. Definições que herdamos dos próprios gregos.
Há ainda a problemática acepção de mongol, no moderno português da capital paulista. Mongol é uma ofensa, forma reduzida de mongolóide, termo que caracterizava o portador de mongolismo. Todo o problema gerou-se do fato de a doença trazer como uma das suas marcas mais visíveis o retardo do crescimento e o achatamento da face, deixando os olhos do portador da síndrome ligeiramente puxados, à semelhança dos indivíduos de raça mongólica. Hoje em dia, usa-se o termo mais correto para a doença: síndrome de Down, em referência a John Down e o indivíduo acometido pela disfunção cromossômica de portador da síndrome de Down.
Mas assim como retardado, termo usado primeiramente para caracterizar alguém com algum tipo de subdesenvolvimento mental (retardado no sentido de retardo, atraso):
n adjetivo
1 que se retardou
2 que demora; demorado
3 que foi adiado; delongado, procrastinado
n adjetivo e substantivo masculino
4 diz-se de ou indivíduo cujo desenvolvimento mental está aquém do índice normal para sua idade
Ou mesmo idiota, palavra cujo sentido moderno é somente pejorativo:
n adjetivo e substantivo de dois gêneros
1 diz-se de ou pessoa que carece de inteligência, de discernimento; tolo, ignorante, estúpido
2 diz-se de ou pessoa pretensiosa, vaidosa, tola
3 (1873) Rubrica: psiquiatria.
diz-se de ou pessoa afetada por idiotia
n adjetivo
4 que denota falta de inteligência, de discernimento; parado, estúpido, imbecilizado
Ex.: no seu rosto, havia uma expressão i.
5 que não tem valor, sem interesse, sem sentido
Ex.: <um livro i.> <uma vida i.> <um trabalho i.>
Porém a etimologia do vocábulo aponta uma origem não ofensiva: gr. idiôtés,ou (subst.) ‘indivíduo particular, homem privado (em oposição a homem do Estado), cidadão plebeu’; p.ext., ‘ignorante em determinado ofício, homem sem educação, do próprio país, indígena’.
Assim como essas palavras, mongolóide tornou-se pejorativo, mas não necessariamente registrado no dicionário:
n adjetivo de dois gêneros
1 próprio da raça mongol
2 que apresenta caracteres físicos dos indivíduos dessa raça
n adjetivo e substantivo de dois gêneros
Rubrica: genética, patologia.
3 que ou aquele que sofre de mongolismo
A terceira acepção, por extensão, tornou-se sinônimo de idiota, parvo, estúpido, em decalque a retardado e, conseqüentemente a sua redução coincidiu com outro vocábulo existente: mongol, gentílico aplicado ao nativo da República Popular da Mongólia ou da Região Autônoma da Mongólia Interior, na República Popular da China.
A acepção pejorativa não está no dicionário. Deveria, mas não está.
até onde eu sei, mais do que se referir genericamente a estrangeiro, “galego” era usado especificamente para quem tinha pele/olhos/ cabelos claros, mais ou menos como hoje a gente diz “alemão”. eu tenho uma amiga de infância, loira natural, cujo apelido é galega até hoje. com esse sentido, o termo ainda é de uso no nordeste, que eu saiba, mas não é mais tão comum aqui. é um pouquinho pejorativo, mas não muito; seria um pouco que nem “branquela”.
Sempre me disseram que os Europeus eram péssimos em geografia (muito estranho, já que praticamente descobriram o mundo), talvez venha daí parte da confusão de Galegos com Portuguêses…
Mas o desrespeito também vem da idéia de que os dois povos são “dominados” por Espanha, então a ofensa de que são “tudo a mesma coisa”.
Por mim, por causa da minha querida bisavó, sempre que ouvia galego pensava em pessoa estrangeira, ou com carona de estrangeiro (em geral cabelos e olhos claros eram suficientes para classificar qualquer um como galego).
E já que se referiu à música e literatura… só em Jangada de pedra de José Saramago vi o povo da Galiza tratado com alguma deferência (acho que vale a pena dar uma olhada).
Fora isso… mas que senhora tese de mestrado, hein, sr. Sérgio!
Sempre me falaram muito bem do Dicionário da Real Academia Espanhola em rede. Consultei-o por estes dias e não achei nada demais. É demasiado sucinto para que me sirva nos esclarecimentos de textos do século XVII, por exemplo. É bastante inferior à versão digitalizada do nosso Houaiss no UOL. A versão impressa deve ser melhor, suponho, mas os acadêmicos deveriam pôr todo o conteúdo na Internet. Assim como está, só serve aos nativos.
Falta, sem dúvida, à excelente resumo, a palavra _gringo_, de que dizem que vem de _grego_, contando aproximadamente a mesma estória que para galegos e capadocio, pessoas sem conhecimento do idoma e dos costumes.
Entretanto, no caso do capadócio, uma trocadilha pode ter influenciado o uso brasileiro mais do que o étimo. Pois no Brasil, o capadócio é falador. Não seria o idioma que o distingue, mas o fato que é muito capaz d’ócio [-sidade]. Que se faz de burro para escapar aos que querem endireita-lo o caminho, é possivel — mas não é a sua caraterística principal.
V. Manoel de Almeida _Memórias de Um Sargento de Milícias_, esp. cap. 37 que põe na boca do Major os seguintes termos, para se referir ao seus alvos: “vagabundo”; “aqueles que a ninguém temem e respeitam, os vadios e peraltas”; “malandro”; “um homem sem ofício nem benefício, vivendo à custa alheia” e enfim “capadócios”; e enfim “um escárnio que o gênio da vadiação e do garotismo lhe fazia”.
Isso sem tentar furar o segredo de outras possíveis trocadilhas e aproximações populares de uma palavra de doutor — quem sabe onde é a Capadocia? — bem próprias da categoria descrito por Manoel de Almeida.
A isso quero acrescentar que a palavra ‘escravo’ vem também de um denominativo de orígem. Os servos, isso era o termo próprio, vinham com freqüência do outro lado do mar Adriático, onde moravam os ‘eslavos’, daí o deslize.
Um ‘bugre’, no século XVIII, era um homosexual masculino, só por que os Turcos, que então reinavam na Bulgaria, não tinham os mesmos preconceitos que os Européios.
Para não deixar ninguèm em paz, também há o ‘negocio afrancesado’, que por causa de uns aventureiros do início do século XIX, implicava que seja dishonesto ou pelo menos duvidoso.
Os Galegos certifico da minha apreciação e do meu respeito.