119. Apatia política e outras questões

Ponham quem quiser: dá na mesma

Criticam o Governo Lula, falam mal, muito mal. Desiludiu-se quem nele votou esperando um governo realmente que tendesse em algo para a esquerda, que não fosse a dilapidação frenética ao patrimônio público dos anos FHC. Pacote de desilusões completo: escândalos e corrupção vieram ainda com mais força. Não digo que não existiam no governo FHC, mas as coisas durante a gestão petista realmente descambaram.
Critica-o a oposição que quando esteve no poder não fez nada, ou melhor, quase nada: dilapidou o patrimônio do povo, empresas estatais que foram vendidas a grupos de especuladores a preço de banana. Alguns resultados da gestão tucana? O apagão elétrico, por exemplo. A má gestão das companhias de energia elétrica que foram morosas nos investimentos levou-nos à situação de termos de economizar energia elétrica na marra (lembram-se do sistema de limites?) e depois, quando o perigo imediato passou, pagamos um bom tempo uma taxa para ressarcir o lucro que as concessionárias de distribuição não tiveram.
Não bastasse o lamentável ocorrido com o sector eléctrico, há ainda o escândalo dos leilões de privatizações das empresas estaduais de telecomunicações e o tráfico de influência do banco Opportunity cujo dono-presidente-sultão Daniel Dantas foi inclusive entrevistado pela revista Piauí (edição deste mês).
Não sei quanto aos meus leitores, mas, não consigo mais vislumbrar diferença alguma entre os dois governos FHC e governo-e-meio Lula: foi praticamente um contínuo, uma sinfonia com uma breve pausa entre duas partes de um mesmo movimento. A decepção com a social-democracia tucana (como eles usurpam esse rótulo!) é a mesma com o socialismo faz-de-conta do PT.
Tanto faz um ou outro no poder, as agendas não são muito divergentes. A única grande (e talvez fundamental diferença, a meu ver) é o freio que o desmonte do Estado teve nos anos Lula. Se bem que quase todo o fundamental foi vendido.

Estado social

As políticas sociais do governo são muito criticadas pela oposição e pela classe média como paternalista e assistencialista. Os bolsa-mil-e-uma-coisas (Bolsa-família, Renda Mínima e os outros derivados) têm um papel fundamental na política social: prover renda a quem não tem condições de gerá-la. Dizem por aí que isso faz com que o beneficiado fique “mal-acostumado” e que viverá daquilo. O grande problema no qual não pensam é o fato de que se não fosse aquele dinheiro (que convenhamos é uma quantia miserabilíssima, girando em torno de R$ 80,00/mês atingindo um máximo de R$ 320,00) seriam populações ao deus-dará e que, tendo essa quantia nas maõs, essa população ficará dependente do Governo, improdutiva e um monte de outras coisas? E que fazemos então com esses famintos? Os matamos? O problema existe e o meu estômago, o seu estômago não é diferente do estômago dessa gente: eles têm de comer como nós. Prover condições mínimas de sobrevivência é sim função de um Estado que, como o brasileiro, é uma verdadeira esponja quando se trata de questões tributárias. Não é questão de reduzir a carga tributária – coisa à qual me oponho veementemente – mas é fazer com o que o dinheiro dos impostos chegue a todos e seja usado para manutenção dos bens sociais mínimos.
Pagamos um fortuna em impostos, não temos um hospital decente, não temos uma escola decente, não temos segurança. Premissas básicas do Estado que não as cumpre.
A solução – como muitos têm a desfaçatez de defender – não é a redução do Estado ao mínimo ou sua supressão, mas é a aplicação correta dos recursos arrecadados nas áreas básicas, mas hoje há tantos ralos do caminho: a corupção endêmica, o dinheiro que se vai em rolagem de juros da dívida externa. É triste que alimentemos deputados psitacídeos gordos e bem-vestidos e paguemos os charutos dos grandes banqueiros, esses piratas do século XXI, enquanto temos gente a passar fome, muito abaixo da linha de miséria.
O mundo só vai começar a mudar depois que certos mecanismos perversos do capitalismo forem sanados. O bem necessário seria uma espécie de capitalismo social, onde os benefícios de enriquecimento e desenvolvimento atingissem a todos. Escuto que o PIB vai crescer não sei quanto, que o crescimento industrial foi não sei quantos porcento acima do crescimento nacional, que os bancos tiveram (novamente, pelo enésimo ano consecutivo) um lucro fabuloso de bilhões e bilhões de reais. O que adianta tudo isso se os salários não acompanham? Se a folha de pagamento é achatada em nome da contenção de verbas. Demitem gente e ganham ainda mais as corporações. Há algo errado, muito errado: esse crescimento gera ainda mais desigualdade social, aumentando o abismo entre os mais ricos e os mais pobres.

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4 responses to “119. Apatia política e outras questões

  1. Primeiramente, meus parabéns por tão fértil memória. Lembrar do Opportunity não é fácil. Dando seqüência, é notório que o Brasil precisa da aplicação de um verdadeiro Estado de Bem Estar Social… Já estamos a cansar do “faltou pirão, minha cuia primeiro”.
    Enquanto isso, o tédio e o ceticismo corroem-me os ossos…

  2. Prometo votar em V. M. nas próximas eleições. E não estou de sacanagem.

  3. Pingback: Refrescando memórias, I « In Barocco

  4. Acabe, por favor, com o “Sushi”. Não deu certo.

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