Granada de bolso

122. De verminoses e infecções

Segunda-feira, 11-Jun-2007 · 9 Comentários

 

O natimorto dispositivo da cláusula de barreira previa uma cota mínima de 5% de silhas conquistadas no Congresso Nacional para que os partidos políticos pudessem ter acesso a todo o Legislativo nacional, nos três níveis (União, Estados e Municípios). Sem esse número mínimo, a legenda estava excluída tanto do Congresso quanto das Legislativas de nível inferior, além, claro, de estar fora da fatia dum certo Fundo Partidário (a propaganda política é paga, em boa parte, por nós, contribuintes) e do tempo do horário político pelos meios de tele e radiodifusão. Em miúdos: haveria grande perdas para aqueles agrupamentos políticos que a imprensa costumeiramente chama partidos-anões, termo híbrido que vagueia entre o cômico, o piedoso e o pejorativo. Estava feito o óstraco da mediocridade política: a cláusula fecharia a política aos pequeninos. A norma terminou por ser revogada pelos magistrados tristes do Supremo Tribunal Federal com base em petições das partes atingidas: a cláusula foi tachade inconstitucional e sumiu-se assim como apareceu.
Não obstante a efêmera existência, a cláusula conseguiu provocar celeuma entre os anões. Uma porção de mal-ajambradas fusões e incorporações deu-se. Estavam em jogo todas as delícias do paraíso político: os dinheiros, os minutos de empulhação no rádio e na tevê e a vegetação nas Câmaras municipais de rincões perdidos, poeirentos e esquecidos da pátria.

Esta postagem mesmo nasceu dum ponto de interrogação. Vejo muito pouca televisão: uma, porque considero a programação digna de descerebrados; duas, porque não tenho tempo mesmo, prefiro ir ler algo mais consistente. Das poucas vezes que me sento a ver desenhos animados ou o telejornal, algo sempre me solapa: o mais recente pasmo foi com uma vinheta de propaganda política, incomum frente às que já vi: quadros representantes as grandes “revoluções” do país, a famosa tela de Pedro Américo sobre a Proclamação da Independência (em versão animada, o cavalo de Dom Pedro I eleva-se do resto do quadro em tosca animação), a rápida sobreposição de próceres repúblicanos como Deodoro da Fonseca e José Bonifácio (José Bonifácio?) e até uma alegoria da República que creio de tê-la já visto alhures e que seja do primeiro quartel do século XX. Acompanhando a vertiginosa seqüência de imagens, a voz do locutor ressaltava “valores republicanos”, de “fazê-los valer”, democracia e outras pataquadas modernas de participação do povo no processo democrático. Terminada a série visual, um logotipo estranho e uma sigla nova: PR, Partido da República. Não pude segurar a frase: “Mas que carajo de partido é esse?!”.
Ah, o Google, a Internet! A salvação frente à ignorância nessas situações de obnubilação mental e eis a ficha do partido, extraída da Wikipédia:

O Partido da República (PR) é um partido brasileiro fundado em 24 de outubro de 2006, homologado no Tribunal Superior Eleitoral no dia 21 de dezembro de 2006.
A nova sigla uniu dois partidos: o Partido Liberal (PL) e o Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona), que se fundiriam para, juntos, atingirem a cláusula de barreira (posteriormente extinta pelo STF, no final de 2006) e poderem gozar de todos os direitos que estariam reservados aos partidos que atingirem (sic) porcentagem de votos superior a 5% dos votos, até então exigida.

O número a ser adotado pelo Partido da Republica é o mesmo que era utilizado pelo PL: 22, sendo desativado o número 56 utilizado pelo Prona. Nele estão filados (sic) políticos importantes como o deputado Inocêncio de Oliveira.

(negrito nosso)

Agora, uma série de considerações inúteis, mas profundamente pertimentes.
Não bastasse a morte do Doutor Enéas, fundador e presidente ad aeternum do Prona, criador do bordão “Meu nome é Enéas!” – tão apreciado pelos humoristas e sátiros de plantão – e incubador e mentor da Doutora Havanir – que apesar de ter saído do “fascismo de hospício” do Prona e ido para a centro-esquerda hepatorréica do PSDB, teve ter chorado a morte do mestre – a fusão significou a perda do número da legenda, o 56. O Doutor Enéas hirsuto e olhudo dos seus bons tempos gritava o numeral a fim de cativar o eleitor pelos raios catódicos do televisor: o numeral e o nome, “Meu nome é Enéas, cinqüenta-e-seis!”. O Doutor Enéas dos últimos tempos, atacado pela leucemia, glabro e tristonho, parecia mais algum tipo de guru indiano decadente ou, como alguém me disse, o Lula Molusco do desenho animado do Bob Esponja.
E no concernente ao PL, não choro sua fusão por que ele representasse algo. Como todo o partido brasileiro, o PL não representava nada além dos interesses particulares de quem lá se amocamba. A grande perda também não será Waldemar Costa Neto que, aliás, timoneia o novíssimo PR. A grande perda será, vista a remodelação dos formatos das propagandas eleitorais do partido, o abandono da música que abria as vinhetas do PL, o Va, pensiero, notório coro da ópera Nabucco de Giuseppe Verdi. O que nos reservou a arpa de ouro dos fatídicos vates? Sempre foram uns escroques, mesmo antes da fusão, mas, admitamos, têm bom gosto.

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