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Nas profundezas dum velho oceano cálido, vivia Épster, um paleolagostim de quatro metros e cinqüenta e três centímetros de comprimento. Se Épster efetivamente chamava-se Épster, é uma mera especulação científica, com dizem os homens de Ciência. Pode ser que seu nome proviesse de algum estalo ou rangido feito por ele; há várias espécies de crustáceos que com a parte inferior do seu abdômen, produzem um feioso som de lima de ferro raspando; executam-no fazendo com que se atritem duas partes dos seus exoesqueletos. E, tendo sido Épster um lagostaço, paleolagostaço, digamos que o som emitido seria quase aterrorizante; tubarões amedrontavam-se e iam-se. Ele, megalodecápode, magnodecêmpede, emitia um rangido alto, como se fosse realmente uma lima, cujo som fora amplificado umas dez vezes; e isso, pasmem, senhores, sob bilhões de metros cúbicos de água, a uma profundidade de mais de dez mil metros lineares; mas não haveria alguém devidamente capacitado para medir, armado de fio de prumo ou uma régua escola de trinta centímetros que fosse, então, é outra especulação.
Pode-se especular que a vida de Épster fosse fácil, pelo seu descomunal tamanho; mas é engano. Seus predadores foram de igual tamanho: tubarões gigantescos e outros grandes crustáceos. Porém, pobres os peixes que ele deglutia num só movimento de mandíbulas; os peixes mal se apercebiam dos braços quentes da morte na escuridão abissal.
Épster, ele – dizemos “ele” por convenção, em se tratando de um grande animal, digno representante de toda uma família de crustáceos decápodes, de pinças potentes e aspecto amedrontador, digamos que havia mais características masculinas que femininas; mas nada impede que seja uma fêmea e chame-se Vinna – mas, ele, Épster era um terrível predador, perseguia os deliciosos lafiformes – assim se considera, mas qual o critério gastronômico de uma lagosta, além de ser agradável ao paladar quando cozida com manteiga? – e outros feiosos seres abissais menores. Além, claro, da camada de restos e cadáveres de peixes que se depositava no fundo dos mares, vindos da superfície e das zonas medianas.
Um belo dia, mesmo sol não havendo, Épster teve um golpe em alguma das suas terminações nervosas que terminou em um icto no seu cordão nervoso que fazia as vezes de cérebro e seu corpo lentamente pousou num vale mais fundo, para onde as correntes oceânicas levavam os detritos todos. Pouco tempo depois da defunção, um abalo sísmico precipitou lascas da encosta abissal e os restos todos foram sepultados como se deve: sob mil e mil toneladas de pedra.
Ali, durante incontáveis dêcenios, o caldo da decomposição, sob a pressão de mais pedras que se deslocaram das encostas e da pressão da água toda do mar, formaram o que hoje conhecemos por petróleo.
Os restos mortais de Épster, anônimos e hidrocaburetizados foram extraídos do seio da terra por uma sonda e refinados. Junto com os milhares de cefalópodes de meio metro, gastrópodes de concha bimétrica, bactérias e plânctons, Épster formou-se num óleo acastanhado viscoso e promíscuo com os restos de todos esses outros seres marinhos. Bombado à superfície e levado às refinarias, o tal óleo de pedra teve seus polímeros fracionados, e fez-se gasolina, aguarrás, betume, asfalto.
O corpo de Épster deu preferência a ser mais denso e caiu na faixa de hidrocarbonetos que viram polímeros e eis que, desses polímeros produzidos da lagosta, temos plástico. E assim, a alma de Épster continua presente entre nós, seus medos, suas angustias abissais, sua presença pessoal: tudo aquilo que ele não tinha, pois era uma lagosta. Pelo comportamento das lagostas hodiernas, podemos dedizir que Épster vivia nadando para lá, para cá e para acolá, comendo suas coisinhas – ignoro a dieta das lagostas modernas – e morrem presas pelos humanos, essa sim, espécie dotada de alguma consciência, por mais duvidosa que seja, e depois terminam em panelas de água fervente; eventualmente podem adornar o aquário de algum restaurante badalado, até serem escolhidas por um dedo gordo, para servirem de respasto.
Mas os polímeros de Épster magnidecêmpede dividem angústias com muita gente: deram formas a pequenos retângulos de plástico, com arestas arredondadas e providos de uma tarja para leitura magnética: tornaram-se todo um lote de cartões de crédito. E alguns titulares desses cartões, imbuídos pelo espírito de Épster, do seu modo de vida, tão suscintamemente decodificado em polímeros, como um código genético, passam certas qualidades suas aos titulares de tais cartões: vivem andando para lá, para cá e para acolá, comendo suas coisinhas – ignoro qual seja a dieta e tal gente – e morrem fisgadas por algum ataque cardíaco ou alguma neoplasia malígna; pegas como um crustáceo. Mas, talvez, elas mal se apercebam.






2 respostas até agora ↓
G // Quinta-Feira, 23-Ago-2007 às 8:39 |
Quatro metros de lagosta??!!
Isso é muuuuita lagosta… :-)
Abraço!
Donato // Sexta-feira, 24-Ago-2007 às 8:25 |
Épster, pelo visto, foi um antepassado do Dr. Zoidberg, da série Futurama.