Granada de bolso

156. Análise semi-crítica do discurso de Montilla

Quarta-feira, 12-Set-2007 · 1 Comentário

Não consegui aprontar a tempo a tradução que venho fazendo d’”As barras de sangue” (”Les barres de sang”) de Jacint Verdaguer, que teria sido muito interessante publicá-la no Dia da Catalunha. Porém, devido à marcha irrefreável do tempo, os vinte e seis versos traduzidos ainda esperam o seu complemento, e terão de esperar ainda mais um pouco.
Não tendo pronto o poema, pensei em traduzir o pronunciamento do presidente da Generalitat, coisa que levei a termo e vocês têm disponível aí logo abaixo. Não que eu esperasse grande coisa do pronunciamento de um político; sou brasileiro e, portanto, assaz tisnado pela verve desconexa dos políticos da Botucúndia, mas confesso que a “mensagem institucional” do presidente Montilla deixou-me um pouco decepcionado.
Em poucas linhas: não traz nada de novo e usa abundantemente aqueles termos que, de tão usados, tornam-se gastos e abstratos, palavras vazias. Também me incomodou o tom de “pregària” que o discurso assumiu, uma formuleta pobre: “Se bem o fizermos, [...] a Catalunha de amanhã será mais forte”, como arremate do sexto, sétimo, oitavo, nono e décimo quinto parágrafos, o que dá um tom messiânico risível ao discurso.
O nacionalismo à moda antiga é tempero que ainda agrada, ainda mais nesses nossos tempos de perda de identidades: «“A Catalunha é a minha casa”, “A Catalunha é a minha terra”, “A Catalunha é a minha pátria”», além do uso político das estruturas tradicionais da sociedade catalã: língua e cultura; língua principalmente. O catalanismo é, basicamente, aproveitando as palavras de Artur Mas da agremiação política Convergència i Unió (CiU), casa comum da política catalã. Ou como rebateu Pasqual Maragall, causa comum, não casa comum. Independentemente de unionistas e independentistas, a língua catalã é um incrível aglutinador político e Montilla soube dela bem servir-se. Claro que logo o discurso descambou para o aspecto econômico – ah! as argentarias! – os investimentos; dinheiro é capaz de silenciar e fazer línguas morrerem.
Outro trecho que é digno de nota é: “Porque, se como país, abdicarmos da nossa responsabilidade coletiva, corremos o risco de perder a batalha pelo futuro”. Ao que me consta, por piores que sejam as intenções das Cortes de Madri, creio que não está nos planos do Exército Espanhol jogar uma ogiva nuclear sobre Lérida ou sobre Barcelona. A que batalha pelo futuro refere-se Montilla? O futuro, bom ou mau, existirá; o tempo, malgrado os espanholistas e os inimigos da Catalunha, passará; a não ser que haja uma arma secreta atômica, capaz de gerar um “pulo” no espaço-tempo e a Catalunha ficasse sempre presa num 10 de setembro qualquer ou em 12 de setembro de 1714. Não é possível perder o futuro. O fenômeno de atribuir obrigatoriamente acepções opcionais das palavras não é tão-somente, pelo visto, um fenômeno do politicamente correto brasileiro; está como todo o gás na Catalunha.
O discurso de Montilla demonstra que a apatia das iniciativas político-estatais é um fenômeno mundial. Quantos discursos silimares não já terão sido pronunciados ao redor do mundo?

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  • Miquel Boronat // Quinta-Feira, 13-Set-2007 às 9:32 | Responder

    Hola:

    Precisament per això que ressenyes, i perquè potser tinc més costum de sentir el Montilla, no vaig fer el mínim esforç per escoltar el seu discurs, que preveia tal com l’has descrit.

    Per contra, cal evitar que ens enganyen els discursos: hi ha qui posa molta espenta a l’hora de dir-la ben grossa, però en això es queda. I això deu passar ací, al Brasil i a la taula del funcionari del costat –en el meu cas molt concret.

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