«Tu reniegas en suajíli
y yo en catalán»
“Te guste o no”, J. M. Serrat
Quarta-feira à tardezinha, caminhávamos, eu e minha namorada, para o ponto de ônibus onde pegaríamos algum coletivo em direção ao Centro da cidade. Antes, porém, resolvemos fazer uma pequena parada na Faculdade onde termino o curso de Letras, uns minutos para recuperar o fôlego gasto na primeira parte da caminhada. Nessa pequena parada, encontrei um amigo e enquanto minha namorada esquadrinhava as barracas de livros usados, quedei ali, a trocar algumas palavras com ele.
De pronto, veio-me com a seguinte proposição: ele conhecia uma língua que tinha mais falantes que o mirandês e, talvez, menos que o catalão, mas que eu renegava: o klingon. Muito embora meu amigo seja pessoa que goste de provocar, limites foram despedaçados com tal disparate. É ridícula a comparação do catalão ou do mirandês com um aborto de filólogos ociosos e entediados, cuja basófia é seguida por milhares de alienados em todo o mundo.
A minha irritação com o assunto não é exatamente pelo disparatado paradigma, mas pela inutilidade da pretensa língua klingon. Aí sim, temos uma língua inútil, rótulo que volta e meia impinge-se às línguas naturais minoritarias. Mesmo dentre as línguas artificiais – coisas que alguns lingüistas abominam pela sua imobilidade e artificialidade frente às línguas naturais – o klingon é um aborto de uma fatia da sociedade que se aliena.
Das línguas artificiais existentes, qual é o seu escopo? Para que serviria uma língua artificial? No pensamento de Luís Lázaro Zamenhof, seria a “facilitação da comunicação entre os homens” através das fronteiras ou lingüísticas, uma verdadeira língua universal. Zamenhof teve uma idéia interessantíssima: a partir de um conjunto pré-definido de elementos constituintes extraídos às línguas européias (as ditas “raízes”), um engenhoso sistema de sufixos e prefixos que mudam os significados das palavras de acordo com as necessidades. Estima-se que os falantes de esperanto no mundo sejam cerca de 2 milhões, concentrados, sobretudo, na Europa e na Ásia.
Poucos cá no Brasil sabem, mas, além do Esperanto, há outras tentativas de aproximar os homens através de uma língua neutra artificial. Antes mesmo do esperanto, houve a tentativa do volapuque que, para nós, latinos, em critérios de beleza ou de eufonia, fica a desejar: é uma língua esteticamente feia, o que não tira seus méritos.
Podemos citar ainda exemplos mais recentes, como a Interlíngua, de base predominantemente latina (as ditas “palavras de circulação internacional”), o “latino sine flexione“, criado por Giuseppe Peano em 1903 e até mesmo o Folkspraak, uma língua artificial feita de bases germânicas e que seria compreendia por mais de 400 milhões de pessoas. Todas são pensadas para que um número maior de interlocutores possam entender-se. Agora, que pensar de uma língua feita sobre a base de um produto da indústria cultural de massa?
Estima-se que o tal klingon tenha algo entre 7.500 falantes (1999) segundo a Modern Language Association; enquanto o élfico (criação de J. R. R. Tolkien) em suas duas variantes, o quenya e o sindarim, tem o número de “falantes” ignorado. A que serve uma língua que tem por padrão o fruto da indústria cultural capitalista, de massa e fátua? E aliás, o meu caro Orlando que me desculpe, mas o número dado pela MLA põe o kingon abaixo do mirandês; a língua astur-leonesa conta com cerca de 15 mil falantes, e que dirá perto de outra língua astur-leonesa “posta de lado”, o asturiano, com 550 mil falantes.
A aprender alguma variante esdrúxula de línguas cinematográficas – às quais não atribuo a condição de artlang (língua “artística”) – é preferível aprender alguma artificial que tenha um intuito e um escopo: o esperanto está aí.
E ridicularizar línguas somente porque elas não são aquelas da administração central de um Estado, parece-me, sem sombra de dúvida, é coisa de ditaduras e monarquias absolutistas. Nada impede que um Estado tenha mais de uma língua oficial ou haja línguas regionais. Aliás, considero premissa que, se um Estado propõe-se a administrar certo território de língua diversa daquela do centro administrativo, deve fazê-lo na língua local. Está provado que a repressão de cunho lingüístico gera desavenças gravíssimas. E comparar línguas regionais à escória da inutilidade como são tais línguas artificias, não é somente uma afronta, mas uma formulada ofensa.






2 respostas até agora ↓
dani // Segunda-feira, 01-Out-2007 às 9:49 |
eu conheci uma quantidade considerável de gente que falava síndarin. nada absurdo, mas certamente mais do que eu conheço de falantes de qualquer outra língua artificial ou minoritária. tudo bem que quase todas essas pessoas faziam parte de um nicho demográfico peculiar (nerds jogadores de RPG), mas tenho quase certeza que é uma das línguas artificiais mais faladas, e provavelmente ultrapassa muita língua minoritária por aí. é uma língua muito bonita.
Resposta:
Então, Dani, citei o conceito de eufonia, mas, o que procurei destacar não foi absolutamente esse aspecto. Digo que, se alguém procura fazer uma língua artificial, penso no escopo social de tal língua. No Brasil, as línguas artificiais ditas auxiliares não têm muita repercussão, muito embora exista a Liga Paulista de Esperantistas, que fica na Lapa. O que acho o cúmulo é a criação de uma língua de bijuteria. Bem, as naturais minoritárias, belas ou feias, ao menos são naturais e, sendo conceito pessoal, a noção pode variar muito: eu acho o turco uma língua bonita, o Donato, um amigo meu, acha-a insuportável aos ouvidos. É tudo muito variável.
Donato // Segunda-feira, 01-Out-2007 às 12:11 |
Que língua não é artificial, Sérgio?
Resposta:
Donato, não me venha com abstrações imensas: a distinção é óbvia: artificiais são aquelas criadas por uma pessoa, ou por um grupo, onde termos são rapidamente definidos, extraídos aleatoriamente. Uma língua artifícial é uma língua a dispersar-se dum único ponto. Enquanto as naturais são um conjunto de nomenclaturas socialmente aceites, parte de toda um grupo de falantes. É óbvio que se alguém conseguisse retornar ao proto-indo-europeu, conseguiria estabelecer um momento em que as coisas foram simplesmente designadas, hora em que fonemas foram ajustados com formas físicas de objetos ou procuravam reproduzir farfalhares. Isso posto, é lícito dividir línguas naturais e artificiais. As naturais como co-evoluídas da espécie humana e as artificiais como fruto do engenho humano imediato e racional.