Keith Johnson é um idiota. E trata-se do pior tipo de idiota: um idiota sem motivos. O senhor Anderson é jornalista do The Wall Street Journal, jornal que se dedica às notícias da especulação mundial. A pergunta é a seguinte: num jornal que se preocupa com oscilações da bolsa e com o mercado de investimentos, que cabimento tem uma matéria sobre línguas minoritárias? E o pior: por um total leigo no assunto a dizer os maiores disparates.
Atrevo-me a ofender o senhor Johnson pela sua petulância em ofender e minimizar a expressão de todo um povo – o basco -, com afirmações, no mínimo levianas. Não tenho a menor idéia da sua intenção com tal artigo. A Tribuna Catalana dá uma pista: o jornal quitandeiro foi recentemente comprado por Rudolph Murdoch, proprietário do gigante mediático News Corporation que tem como assessor o ex-primeiro-ministro espanhol, José María Aznar.
O artigo de Johnson é no mínimo dúbio: cita uma obscura professora de Matemática de Bilbao que “gasta 25 horas por dia conjugando verbos e aprendendo vocabulário em basco”, o autor qualificado o basco da seguinte maneira: “uma língua sem relação alguma com qualquer outra língua européia e falada por menos de um milhão de pessoas”, lembrando que o castelhano é falado por mais de 450 milhões de pessoas ao redor do mundo.
Se assim fossem os critérios, o esloveno deveria deixar de ser falado, por ter menos de um milhão de habitantes, o maltês deveria ser expurgado (mas é a língua oficial de Malta, membro da União Européia assim como a Espanha) ou o húngaro deveria deixar de ser falado, por ter pouca relação com outras línguas européias.
Johnson cai no ridículo quando tenta justificar sua posição, dizendo que palavras bascas como aireportu, zientzia, errenazimentu, demokrazia, governu, independentzia são tomadas de outras línguas. Curioso. Anderson, como falante de inglês, deveria saber que quase 70% do vocabulário do seu idioma é de origem românica (francesa e normanda) e que as palavras citadas como emprestadas pelo basco de outras línguas, igualmente o são no inglês: airport é a junção de aer (radical comum greco-latino) e porto (latina); science provêm do latim scio, “conhecer”, e provavelmente entrou já pelo francês; renaissance então, é puro francês (nós ainda temos um decalque, renascimento); democracy é comum a praticamente todas as línguas ocidentais e é grego; government é de origem grega (kubernáo, dirigir o navio) por via latina (gubernare, com o mesmo sentido do grego) e independency é de raízes latinas. Os empréstimos, como bem citou Patxi Baztarrika, vice-conselheiro de Política Lingüística do governo Basco, são uma prova da vitalidade e saúde de qualquer língua.
As fontes citadas por Johnson, ou seja, a obscura senhora Esquivias e um deputado do Partido Popular. Quanto à senhora Esquivias, ignoro-a somente como exemplo mau escolhido, mas quanto aos infelizes comentários de Leopoldo Barrera, esse sim, pessoa pouco autorizada a falar sobre o assunto. O Partido Popular, como herdeiro direto do franquismo, muito tem trabalhado contra as línguas autonômicas, notadamente na Catalunha, País Valenciano e País Basco. A Galiza parece que é uma exceção, mas segundo movimentos que trabalham com a língua, a própria insistência do poder autonômico em afirmar categoricamente que galego é um idioma e português é outro totalmente diferentes, insistindo numa normativa em separado e numa ortografia castelhanizante, tem levado o idioma a uma míngua oficial. Será que tem alguma relação com o governo de Manuel Fraga Iribarne, do PP? Outra coisa típica de imbecis de direita é associar língua e separatismo. Nem todos os falantes de basco (assim como os de catalão) são separatistas. É ridículo e primário pensar assim, mas é isso que o jornalista declara no seu artigo.
O jornal, por seu autor, ouviu quem quis e emitiu um juízo que não corresponde à realidade. O principal ponto para desqulificar a língua foi no chamado ‘utilitarismo comercial’: como o Governo Basco exige que contratos e normativas sejam bilíngües, Anderson qualifica a exigência como ‘entrave’ àqueles que querem fechar negócios com o Governo Basco. Eu já opino da seguinte maneira: se o negócio for de fato interessante, as empresas arrumam rapidamente um tradutor; não será a língua um empecilho para um negócio onde haja muito dinheiro. O que prova mais uma vez que os ataques são gratuitos e injustificados.
O infeliz jornalista vem juntar-se ao coro dos retrógrados e conservadores que ainda acham que ‘España es en español’; hemos-de avisá-lo que Franco morreu; Johnson veio juntar-se a Fraga Iribarne, que qualifica o basco como “língua de museu”, mas que já disse frases do tipo “a rua é minha”, quando foi ministro de Governação na imediata transição de regime. Adapto a frase de Alfonso Guerra sobre Fraga e aplico-a também a Johnson: “ele tem intestinos no lugar do cérebro” por ter escrito um artigo superficial e frívolo sobre um assunto que desconhece e agravado por não saber, provavelmente, o que é uma sociedade onde há duas línguas que convivem juntas.
Quanto será que ele recebeu (e de quem recebeu) para escrever tamanha imbecilidade?
O artigo original. Artigo no Tribuna Catalana. Resposta em Izaronews.






4 respostas até agora ↓
juliana // Segunda-feira, 12-Nov-2007 às 14:43 |
Maldito conceito de utilidade…
G // Terça-feira, 13-Nov-2007 às 13:24 |
Concordo plenamente consigo.
Acho que devia fazer chegar esta critica ao senhor Johnson.
Há pessoas que insistem em falar de coisas que desconhecem!
Abraço!
dsferrara // Terça-feira, 13-Nov-2007 às 16:09 |
Mr. Johnson, why don’t you shut up?
É isso. Vamos seguir o exemplo do rei.
Sergio Méndez e Sánchez // Quarta-feira, 14-Nov-2007 às 8:16 |
Maledictíssimo, Ju.
É, G, o sr. Johnson já ouviu bastante, mas juntemo-nos ao coro dos descontentes.
De acordo, Donato. ¡Viva el rey!