179. Inconsciência negra

O feriado da Consciência Negra foi estabelecido legalmente no Município de São Paulo em 2004, sendo, desde então, celebrado em 20 de novembro, presumida data da morte de Zumbi dos Palmares, famoso líder quilombola contra a escravidão no período colonial e fundador do maior quilombo que já existiu, o Palmares. A semana na qual cai a data festiva deve servir “para a reflexão do papel da minoria negra na formação do povo brasileiro”.
As empulhações dadas como motivos para as datas festivas são simplesmente insuportáveis, não só no caso do feriado de 20 de novembro. O povo quer farra e folga, uns poucos vão sim pensar e refletir algo, mas serão realmente muito poucos; as lideranças dos movimentos negros farão alusões à data, sempre baseando-se na cada vez mais distante “africanidade”, com roupas típicas, danças e festas, “eventos culturais”, o que parece tão artificial quanto reconstituições de centúrias romanas com seus clarins. Absolutamente nada a opor, ao contrário, que tomem as ruas numa festa única e incrível e mostrem à esmagada maioria, todas as suas conquistas e prerrogativas como minoria outrora oprimida e hoje expandida.
Mas o que queremos cá destacar não é a alegoria comum ligada ao étnico e que beira a adereço carnavalesco. Nesta semana, já próxima da data alusiva, passamos diante dos simpáticos prediozinhos baixinhos da Secretaria de Estado da Justiça, no Pátio do Colégio e deparamo-nos com dois painéis de lona, grandes, um em cada prédio. O título de ambos: “Semana da Consciência Negra” e abaixo, fotografias: num cartaz, José do Patrocínio, e noutro, Luiz Gama. Também há no Teatro Municipal uma dessas lonas, só que com a efígie de Carlos Gomes; desconhecíamos que Gomes, compositor d’«O Guarani» fosse negro.
Eis aí realmente grandes exemplos de negros que lutaram não somente por uma consciência de africanidade – se é que o fizeram – mas que quiseram para seus concidadãos, negros e brancos, um país realmente de todos, com esforços que culminaram com a abolição da escravatura.
Sabemos que o movimento negro, de u’a maneira geral, rejeita a festa do 13 de maio, pelo fato de a escravidão ter sido abolida por uma princesa branca. Qualquer motivo para rejeitar mérito ao ato é válido, menos esse. Pode-se dizer que foi por mero interesse político ou um ato propagandístico para tentar salvar uma monarquia que já definhava, mas, rejeitar o valor de um ato tão-somente por ele ter sido por uma pessoa branca, é o preconceito invertido. Já que tanto se batem pela questão do racismo contra os negros, poderiam, sensatamente, perceber que o inverso também o é. A palavra racismo não tem um componente “negro” no seu significado. Racismo é o preconceito que determinada raça ou etnia tem contra outra, independentemente se são brancos contra negros, negros contra brancos, portugueses contra espanhóis, paulistas contra nordestinos ou sérvios contra croatas: é racismo da mesma maneira, independente de qual parte parta.

Mesmo assim, viva o 20 de novembro.

5 respostas a 179. Inconsciência negra

  1. é um feriado de seis dias, sérgio, e essa é a única coisa que importa. podia ser a comemoreção do dia em que o imperador pedro II largou as fraldas, que ia dar na mesma.

  2. Os negros brasileiros buscam a sua “africanidade” perdida por não ter ainda encontrado a sua identidade no Brasil. A cominidade negra teve um importante papel na construção do que hoje é chamado povo brasileiro e sua cultura hoje não é mais daqueles que os antecederam ,”os africanos”, e sim é uma mistura de tradições africanas com portuguesas e outras mais. Temos aqui uma mistura que não existe em nenhum país.

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