Não sei que raios se passa na cabeça duma gente que deu de escerver por aí. Acham-se mui modernitos porque não usam maiúsculas (“para que maiúsculas? são cansativas”, ouvi certa feita; ou “ai, maiúsculas; é tão difícil usá-las!”) e dedicam-se a martelar frases até que a sintaxe mal parida dê-lhes aspecto de conversa de boteco, entre bêbados. Além das mil palavras inecessárias em inglês. Gente que se contamina demais com esse mundo “estadunizado”, perde as palavras em português e, por mera pobreza vocabular, passam a fazer uso de modismos que vêm sequer indicados com itálico: vibe, loser. E se você usa um termo em francês, olham-lhe como se a própria Boitatá houvesse aparecido. De outras línguas então, como o basco, nossos irmãos (antepassados?) peninsulares, nem se fale! Campejam os anglicismos selvagens; o problema não são os anglicismos em si, mas sim o abuso deles; alguns são mesmo necessários, mas não transforme seu texto num galinheiro vulgar, ponha o termo em itálico. Para ver a confusão ascosa que é o exagero, é só passar em dois ou três blogues, aleatoriamente e eis a farândola de retardados a expor-se como expõem-se vendedores ambulantes de trastes chineses.
Quanto aos tipos minúsculos, deve ser resultado de algum tipo de necrose cerebral, como provavelmente ocorreu a Hilda Hilst. É a mesma gente que berra da “inutilidade” do trema; que disse à essa gentalha que o trema é inútil. Certamente são uns analfabetos que não conseguem juntar dez letras. Não é a ortografia que é difícil e, nem eu, tenho ganas de saber tudo: trata-se somente de um “conhecimento mínimo essencial”. A pontuação é necessária para a clareza; nem todos podem abster-se dela sem prejuízos. O único escritor conhecido que consegue minimamente comunicar-se decentemente sem o auxílio de pontuação é José Saramago. Se você não é José Saramago, pare, besta. A ortografia e a gramática são necessárias para que nos entendamos minimamente em textos escritos, não são janelas a ser quebradas e para que digam: “vejam como eu sou transgressor e original: estourei a janela”. Mas, janela estourada é frio entrando, algum problema de compreensão de sentido haverá. Se você não sabe ser original de outras maneiras, vá ler, querido, aprenda a escrever minimamente e não sacie suas veleidades literárias à custa do obscurantismo e da intransigência, não cola mais: o mundo está cheio de idiotas modernos – escritor é Balzac, é Flaubert, não um monte de merdas vermosas. E lembrem-se: vocês já encheram; vocês são gente que come salsichas e insiste em tentar arrotar peru. Ou quem sabe, a turkey.
180. Hoje tenho vontade de desancar
Terça-feira, 20-Nov-2007 · 7 Comentários
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7 respostas até agora ↓
dsferrara // Quarta-feira, 21-Nov-2007 às 11:32 |
Não seja tão intransigente, Sérgio. Afinal, quem sofre é você; os criticados não dão a mínima.
júlia // Quinta-Feira, 22-Nov-2007 às 21:31 |
(você nunca pensou que seu modo ‘antigo’ de escrever pode ser muito mais transgressor do que daqueles que você elege como “eles”; e por isso minha brincadeira, de que você é pós-moderno.
etc,
você já ouviu falar que saramago é uma farsa?
você acha mesmo que a linguagem existe para comunicar? você acha mesmo que a gente se comunica? você realmente leu hilda hilst? já leu e.e. cummings? já achou bonito coisas que não entende? você acha que existe um certo? você acha mesmo que o trema precisa ser defendido? acha mesmo que todos que escrevem de um modo próprio é para serem transgressores? )
ah, sérgio, você sabe, te admiro muito principalmente nas nossas diferenças, mas assim, tão desancando a torto e a direito, misturando coisas tão diversas assim, quem passa por ignorante (no sentido de que existem coisas que ignora) é você. sabe, não estou defendendo um outro lado, porque realmente não me faz sentido estar de um lado oposto ao seu, afinal, acho que a linguagem, as línguas, a literatura, a escrita, a poesia, chamem essas palavras de como se quiser, tem tantas faces, estilos, apresentações e nuances… e ainda bem, tão poucos donos! longe de mim des-estabelecer a (finalmente!) anarquia!
no mais, faço minhas as palavras do donato acima, cauteloso e perspicaz, as usual .
baccio.
Sergio Méndez e Sánchez // Quinta-Feira, 22-Nov-2007 às 22:24 |
Mira, Júlia. Respeito suas opiniões quaisquer que sejam. O texto aí, no caso, é uma espécie de desabafo. Volta-e-meia, alguém me diz: “nossa, como você é preciosista” e a coisa tem tinto-se à anedota. Desenterro palavras antigas que soam alienígenas pela falta de tacto do resto dos falantes; a culpa não é rem minha. Agora, do jeito que escuto isso, escuto falarem maravilhas de uma pessoa que escreveu uma coletânia de poemas que se chama “Bufólicas” (e eu li sim) e que são as coisas mais horríveis que eu já li. Quanto ao tal Cummings, depois que eu ler a obra do Balzac, posso dedicar algumas horas a lê-lo.
Quanto a existir certo e errado, também não o sei rem; há o lado do qual tomamos partido. É horrível? Pode ser: é somente crer que há coisas que podem (e numa concepção particular, devem) ser ignoradas. Que eu seja rebaixado à categoria de ignorante por tal, que seja, é um rebaixamento que me honra. Temos de tomar partido de algo sob o preço de tornamo-nos promíscuos; há-de ter-se uma linha de raciocínio a seguir-se; é impossível e sandeu ser eclético.
Creio que, no estado de coisas actuais (eis aí um vício meu, essa maldita expressão), a literatura caminha para o cenário pintado por Júlio Verne em “Paris no século XX”, poesias sobre a decantação do ácido sulfídrico e sobre a partição do átomo do hidrogênio. É melhor que morra logo ao invés de rastejar moribunda como faz hoje. Cacaso! Raios que me partam, Cacaso é literatura! Qual o critério, quem o pôs lá? O panteão literário é, de fato, individual; certo que há aqueles aos quais o tempo não machuca e eles permanecem.
Beijo.
Thiago Dias // Segunda-feira, 26-Nov-2007 às 1:09 |
Certa vez, em uma comemoração típica das que fazemos com “a turma” (o termo é da Jú), uma amiga disse que havia visto, em um shopping (sintomático, não?) algumas frases brilhantes de célebres (sic) escritas em garrafais entre uma loja e outra, ou no teto, não me lembro bem. Acontece que, segundo a indignada amiga, as frases dos iluminados foram postas sem nenhum acento, vírgula ou aspas. Outra (Zéquinha …) se levantou e disse que era necessário aquele tipo de transgressão! rs Que os modernistas haviam feito e era “legal” fazermos isso … rs Bem, na ocasião, comentei que, de fato, transgredir (eu sei que é vago …) é louvável, mas uma coisa é chegar até a gramática e, daí, quebrá-la, mudá-la ou, ainda genericamente, transgredi-la. Outra coisa é nem atingi-la, por pura falta de interesse, ou “capacidade”, errar e chamar isso de transgressão, avanço… Pior é simplificar, facilitar a coisa alegando, por exemplo, que nossa época não tem tempo para formalidades ou floreios. Isso é grosseria! É não perceber a mínima sutileza (se é que é possível dizer que a percepção da utilidade de uma cento é uma sutileza). A comparação não me parece ser precisa, mas creio que o sentido é o mesmo.
Quanto ao total relativismo acima defendido, me é completamente suspeito. Acredito que SEMPRE se parte de algum ponto de vista, de alguma concepção – consciente ou não – ao afirmar algo. Sendo o relativismo, inescapavelmente, uma afirmação, é preciso enxergar de onde ele parte. Prefiro a sua clara tomada de posição!
G // Segunda-feira, 26-Nov-2007 às 7:46 |
Isto está a precisar é duma “limpeza” total.
Abraço!
jo // Terça-feira, 20-Mai-2008 às 8:53 |
O trema é inutil
Sérgio Mendes, não o músico // Terça-feira, 20-Mai-2008 às 9:03 |
Jo, talvez na sua terra o seja. Na minha mesa e no meu papel não o é.