As pessoas falam muito em sociedade; vida em sociedade também. Falam em seres sociais. Dizem que o ser humano é um ser social, assim como as formigas e as abelhas, que trabalham pela comunidade, Algum chato vai levantar-se exatamente agora e vai dizer que as abelhas e as formigas não são democráticas. Esse que levantou, é um comunista? Não sei. Diz que as formigas e as abelhas são como o proletário na Londres vitoriana: trabalham dezesseis horas por dia. Outro pulha levanta-se: os insectos sociais não são democráticos porque, com exceção da rainha e do macho de vida efêmera, são todos estéreis, não têm o subterfúgio do sexo que temos nós, homens moderno. Aponta para o primeiro que ergueu a voz e diz-lhe que é temerária a comparação dos insectos sociais com o proletário vitoriano, pois esses tinham o subterfúgio do sexo, como nós o temos; daí o grande índice de natalidade, mesmo com expedientes de dezesseis horas diárias; a não ser que o caro colega tenha como provar que, por plumbismo fossem todos estéreis. As abelhas e as formigas, divididas em proletáriado (as operárias), burguesia ainda fora do poder (os soldados) e a nobreza (a rainha poedeira), não formam uma sociedade democrárica. Mais um levanta-se e diz que os insectos sociais são uma sociedade comunista, visto que o proletariado trabalha para o sustente de uma nomenklatura estatal (a rainha e os soldados). O segundo locutor levanta-se novamente e grita que aquela afirmação era um desvairio: era óbvio que se tratava de um feudalismo animal. Objetam: não há senhores feudais; se aos soldados fossem loteadas glebas das colméias ou dos formigueiros, aí sim, poderíamos falar numa relação de vassalagem. Mas os insectos ditos sociais, como os nomeiam, são frutos duma sociedade opressora; sociais somos nós, humanos, livres, que temos o subterfúgio do sexo como diversão, liberdade e democracia de eleger nossos mandatários. Um outro disparou: achava que éramos menos livres que os insectos sociais; esses, por um desígnio alimentar, desenvolviam-se sem qualquer compulsão a reproduzir-se ou almejar a subverter a ordem na qual estão inseridos. Mas, objetou um no fundo da sala, há gente entre nós, humanos, que assim vive; há uma raça de gente que não pensa nada além do que lhe seja útil para a sobrevivência imediata e acumulação de riquezas, ao invés de agir em prol da manutenção coletiva, agem egoisticamente pela manutenção própria, se possível em opulência; são opostos cujas pontas encontram-se, ou seja, são a mesma coisa; a única diferença é que o ser humano tem consciência de fazer o que faz, enquanto a formiga ou abelha operária fazem-no por mero instinto. É certo, disse outro, que as abelhas e formigas não subverterão a ordem vigente em suas colônias, pois obedecem a um instinto da espécie. Não seria um instinto da espécie humana subverter ordens? A pergunta deixou a assembléia muda. Ou, na busca de construir o seu cabedal, o ser humano não ajuda, involuntariamente a construir um cabedal maior, sem sequer importar-se? O que se configura ainda mais preocupante; o trabalho das abelhas e das formigas verte-se todo em prol da colônia toda, mesmo que sejam assexuados, eunucos; enquanto um ser humano assalariado recebe o seu salário mas pode render muitas vezes a quantia com a qual é recompensado (outra coisa que inexiste nos insectos sociais) e sequer ver nada disso, como não vê, e achar normalíssimo. A burguesia (que também inexiste nos insectos sociais) pode usar os operários como massa de manobra contra o governo, coisa que os soldados jamais fariam contra a rainha. O senhor defende que nós deveríamos ser como os insectos, e fazer as coisas sem nada questionar? Não, não necessariamente, mas os insectos não têm a consciência. Então, não devemos ter consciência? Não, se não tivermos, seremos escravos totais. Assim como os operários dos insectos sociais? Senhores, pausa para o intervalo. A aula de Entomologia continua após o intervalo.
181. Desquadro social
Quinta-Feira, 22-Nov-2007 · Deixe um comentário
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