Granada de bolso

187. Sentimentos comezinhos: medo

Segunda-feira, 17-Dez-2007 · 1 Comentário

Coisa estranha é o medo. É coisa que adere à pele e não adianta banho, solvente, maçarico. Gruda a pele e vai penetrando, atinge os ossos e daí dificilmente sai. E é infecção que se alimenta de porcarias, pequenas vergonhas, pequenas humiliações, sapinhos ásperos do dia-a-dia. O medo deixa a pele amarela, cerceia o pensamento em direção do futuro, dá olheiras, tira o cálcio das unhas e provoca impotência.
O medo nunca vem sozinho; está intimamente ligado a outro mal, o instinto de sobrevivência, o de sobreviver a todo custo em meio à borrasca; por manter o emprego, não mandarmos o chefe às favas, por medo de ir parar na rua da amargura. Mesmo com os amigos e conhecidos: não dizemos as coisas com medo de ofender e perder a amizade, mas ao mesmo tempo, sempre algum tem uma pontinha se sílex para enfiá-la entre as suas costelas; aí temos medo de retrucar e que o fato termine sob os olhos do delegado; polícia é outra coisa que alimenta violentamente o medo. Os bandidos um pouquinho mais só.
Remédio não há muito. Coragem é medicamento em falta e quando é encontrado acaba sendo ministrado em quantidades absurdas e provoca também grandes desgraças.

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