Antes de sair de casa, enfiou o envelopezinho no bolso. A mulher indagou o que era aquilo, embrulhado daquele jeito tão rico, um papel de presente lilás e fita dourada. O marido respondeu que era pra o filho. A mulher não respondeu e o homem fechou a porta, foi para a parada de ônibus e pegou um coletivo que vinha do centro. Mal consegiu espremer-se entre tanta gente com tantos pacotes e sacolas das compras natalinas. O ônibus foi esvaziando e, pouco antes do ponto final, desceu diante do cemitério municipal. O sol de dezembro cozinhava os miolos dos passantes. Entrou pelo portão e, ao longe, distinguiu os coveiros arrematando uma cova fresca. Avançou mais um pouco, B 7 – 1074, era o endereço. Avançou mais, cem, duzentos metros pela alameda de terra vermelha, sol e árvores secas; dobrou à esquerda e seguiu a inclinação ascendente do terreno. Mais adiante, mais dois coveiros fechavam outra cova; fora eles, mais ninguém. Agora, o cemitério verdejava um pouco mais: as árvores tinham alguma folhagem e a terra era mais úmida, por não estar tão ao descoberto. Num trecho bem fresco, sob uma grande árvore de folhas miúdas, parou o homem, diante de uma das dezenas de milhares de covas iguais: um montículo de terra com uma cruz de concreto caiada, de azul ou rosa, ou mesmo branco. A administração municipal mandava pintar as cruzes de acordo com o sexo do morto. Junto da cruz, uma lajota de pedra, identificando o morto, os dados básicos: nome, datas e alguma frase votiva como: “Orai pela sua alma”, “Saudosa fica a família”. Parado o homem, tira o embrulhinho do bolso: “eu sei que você gosta de desenhar, por isso lhe trouxe isso”. Com a mão, abriu um pequeno rego na terra e ali depositou o embrulho retangular. “São duas lapiseiras com dois tipos de grafite, uma mais dura e uma mais maleável, próprias para desenhos”. O homem asentou-se junto à cova, deu notícias da família, as recomendações da mãe, contou piadas, ficou em silêncio olhando a esplanada do terreno do cemitério. Ficou ali muito tempo e, quando a tarde caiu, levantou-se. Reevocou as esperanças de que o presente lhe tenha agradado e despediu-se do filho, despediu-se com um “até logo, meu filho e feliz Natal”. Começou a caminhar e o vento levantava, ao longe, torvelinhos de poeira vermelha, a cor tornava-se ainda mais viva no sol do fim da tarde. Pensou o homem: “os homens demoram muito a subir assim, em lentas parcelas, quando tem vento”; até a porta, não encontrou ninguém, nem mesmo o coveiro, somente exatamente no portão, o funcionário, de olho no relógio, contava os instantes faltantes para fechar o portão. Ao passar, o homem fez um aceno de cabeça ao funcionário, que lhe respondeu com outro. Na avenida, o homem deu de cara com o movimento intenso da avenida, carros que iam de vinham, cheios de gente, luzes de pisca-pisca, árvores de Natal. O homem dirigiu-se para o ponto de ônibus, ofendido com aquela exuberância de alegria fajuta.






2 respostas até agora ↓
Juliana // Quarta-feira, 26-Dez-2007 às 20:55 |
Triste, mas lindo. Muita gente passa o natal assim.
G // Sexta-feira, 28-Dez-2007 às 7:49 |
Excelente texto.
O natal tem tanto de contaditório…
Abraço!