José Cristiano da Matta, funcionário público, teve a infelicidade de sofrer um golpe de aortas bem no dia 30 de dezembro e, indo-se desta para uma melhor, deu-se que seu velório foi no dia 31 de dezembro, com enterro programado para 1.º de janeiro.
Ao cair da tarde do calorento dia 31, família juntou-se na sala de velório, esperando a chegada do corpo, a ser trazido do Instituto Médico Legal. Embora solteiro, o quase sexagenário diretor de repartição ainda tinha mãe viva e com ela vivia. A mãe, com os dois irmãos mais novos do morto, foram os primeiros a chegar. Depois chegaram colegas e subordinados, todos dispostos a passar ali a noite abafada.
Após os pêsames e as condolências, reinou o silêncio do embaraço. Mas logo, os colegas de seção saíram do recinto para tomar um ar e entabularam uma discreta conversa, primeiro, lembrando dos méritos do morto, que rapidamente descambou para os defeitos e, depois passou a relembrar as situações cômicas e embaraçosas.
Eram quase dez horas da noite; as mutucas batiam-se desesperadas contra as lâmpadas de vapor de sódio e o cemitério abria-se diante dos olhos dos ali presentes como um grande leque preto; em alguns pontos, uma distante pedra reluzente, no meio do mar de mausoléus e lápides, rebrilhava a luz do prédio do velório, o que dava à paisagem um tom fantasmagórico e propício a temores. Pedro, encarregado de compras e subordinado direto de José, tinha lá seus medinhos, mas procurava escondê-los para não virar chacota dos colegas, ainda mais levando em consideração que ele era o que seria promovido com a vacância da diretoria da seção.
Às dez e quinze, saiu a mãe do finado. A roda quedou-se imediatamente em silêncio e ela ergueu-lhes uma bandeja de bolinhos. Eram bolinhos de bacalhau. Cada um pegou um e muito elogiaram o bolinho. Depois, Santiago, o irmão mais novo do morto, trouxe-lhes um pouco de suco de uva. Paulo, o arquivista, levantou-seu copo, como quem sugere um brinde; todos, em silêncio, ergueram seus copos, incluindo a família. “À alma do nosso José”, disse Paulo. “E à nossa saúde”, completou a mãe de José. Baixaram os copos e os olhos; quando os ergueram novamente, a mãe de José pôs-lhes diante dos olhos e sob os narizes, sanduíches de carne-louca que foram pegos um por cada um.
Eram quase vinte para a meia-noite quando os homens todos começaram a apontar no céu os fogos que, a cada minutos, eram em maior quantidade. Uns subiam como uma centelha luminosa e estouravam num globo de pontos brilhantes, outros subiam e, no alto, explodiam e faziam cair fagulhas coloridas, verdes, brancas e vermelhas. Outro estourava em azul. A mãe de José veio juntar-se para assistir ao espetáculo pirotécnico. Cinco para a meia-noite, Mateus, o irmão do meio, trouxe uma sidra vagabunda comprada ali, na loja de conveniência do posto de gasolina.
Todos continuavam parados no pátio da capela dos velórios, iluminados, em frações de segundos, pelo clarão das explosões dos fogos de artifício.
Meia-noite em ponto. Somente o clamor dos fogos cobre o estampido feito pela garrafa de sidra aberta por Mateus. Enchem-se os copos sujos de suco de uva. “Feliz ano novo”, dizem todos enquanto apertam-se as mãos. Veio também o segurança do complexo cumprimentar a todos, o faxineiro, a mulher da copa também e já aproveitou para trocar a garrafa de café e as bolachas murchas.
A mãe e os irmãos voltaram para dentro enquanto os últimos fogos massivos ainda estouravam; depois, ficariam intermitentes, um a cada sete ou dez minutos durante toda a madrugada. Os funcionários continuaram conversando no pátio, volta e meia algum se deslocava para falar algo à mãe do morto. E assim, viram raiar a aurora do primeiro dia do ano que começava.
Às dez da manhã, quando o sol já ofuscava as vistas e as gotas de suor iam esconder-se nas golas das camisas, levaram José Cristiano da Matta à morada final. Algumas lágrimas por parte da mãe e a breve fala de Pedro e do cura que havia sido chamado que, referindo-se à morte e a continuidade da vida, leu, do Evangelho de São Mateus, o trecho onde está escrito que sobre Pedro, Cristo edificará a igreja. Tudo acabado, foram-se. A gaveta do jazigo foi lacrada e a laje de concreto foi marcada a tinta branca com uma combinação de letras e números, logo receberia uma placa de pedra combinante com o mármore preto do pequeno mausoléu.
Todos se cumprimentaram, cumprimentaram a família e disseram-se “até amanhã” e também se cumprimentaram pelo ano novo, mais uma vez.
191. Ano-novo
Sexta-feira, 28-Dez-2007 · 4 Comentários
Categorias: Efemérides · rotina






4 respostas até agora ↓
jeff // Segunda-feira, 31-Dez-2007 às 12:46 |
A tal passagem do evangelho de São Mateus é bonita…
Amanda // Terça-feira, 01-Jan-2008 às 14:04 |
Morte e renovação é uma antítese que teve tudo para ser in nesse reveillon. A Sidra pelo menos foi avaliada pelo exame do Inmetro do Fantástico?
Susi // Quinta-Feira, 03-Jan-2008 às 8:43 |
Essa maldita sidra me persegue todos os anos. Fiquei realmente tentada a levar seu texto aos meus alunos e mostrar-lhes o que venho explicando a séculos. As melhores histórias são do cotidiano. Parabéns.
G // Quinta-Feira, 10-Jan-2008 às 6:59 |
Olha!… Feliz ano novo! :-)
Abraço!