«Vas a parir felicidad
como una bendición horrible
[...]»
«Vas a parir felicidad», Mario Benedetti
Era um dia de semana quente e abafado e tudo estava normal: as pessoas apertavam-se nos ônibus e pisavam nos pés uma das outras. Trânsito caótico, como todos os dias, um atropelado aqui, outro ali, um acidente na Marginal. Um perfeito e tranqüilo dia de semana de um mês estival.
Sob a terra, num vagão do metrô, devidamente engravatado, estava um gerente de algo de alguma empresa multinacional. Como havia sido recentemente promovido, ainda não tinha os cobres para comprar um automóvel que fizesse jus à sua nova posição social.
Na estação habitual, saltou de 007 à mão e buscou a luz do sol. À luz do sol, mesmo estando a calçada cheia de gente que ia e vinha, sentiu uma súbita felicidade; entre a silhueta do cume dos prédios havia um céu azul, azul fortíssimo. Com os sapatos raspando já na pedra do calçamento, o gerente continuou caminhando até a porta do prédio, mas continuava fixo o olhar no céu, o sol aquecia-o pelo terno cinza e fazia rebrilhar as fibras sintéticas da sua gravata. Um esbarrão aqui, uma pisadela, um impropério ao incauto pedestre. E eis o gerente diante do prédio, feliz, um dia lindo; mesmo adentrando o salão de pedra cinza polida do edifício e fazendo seu crachá liberar a catraca sem-graça que dava acesso à área restrita dos escritórios. A mulher do elevador cumprimentou-no e ele respondeu-lhe efusivamente; e assim foi com a mulher do café e a mulher da limpeza. E todos ficaram boaquiabertos, pois, aquele gerente, era um homem para lá de taciturno e carrancudo. Seu olhar, habitualmente cinza, hoje era dum verde faiscante; entrou na sala e antes cumprimentou efusivamente um diretor de processos escusos que o esperava na ante-sala; de café na mão, pediu que o diretor o acompanhasse.
Sentou-se na sua cadeira giratória que guinchou pelo peso, e atendeu alegremente o diretor que era portador de notícias cinzas. A certo, a conversa passou para uma certa informalidade; do grande janelão de parede toda que havia na sala, o diretor e o gerente começaram a reparar detalhes na paisagem escarpada dos prédios que se estendia por muitos quilômetros até a linha do horizonte; procuravam sob o sol, pontos verdes: parques e canteiros de cebolinha na sacada dos prédios. Ficaram surpresos e encantados ao ver um homem engravatado, como eles, abrir a porta que dava para uma sacada e ir cuidar de um vaso de flores, de longe não se definia bem o que eram, talvez fossem gerânios, talvez, ciclames. Apesar do sol faiscando sobre os cinzeiros de vidros e detalhes metálicos da sala, o ambiente era de cores escuras; no meio da surpresa dos dois hierarcas, o gerente disse que se sentia mal e sentou-se novamente na cadeira. Começou a tossir e a sufocar. O diretor saiu da sala e pediu a secretária que chamasse o médico da enfermaria.
Cinco minutos depois, quando chegou o médico da empresa, o gerente estava pondo sangue e mal conseguia respirar. Com o auxílio du’a maca, diretor e médico levaram-no à enfermaria. O doutor disse que se ele não parasse de tossir e botar sangue logo, teriam de chamar a ambulância para levá-lo ao Hospital. O médico observou que o sangue posto fora pelo gerente não era vermelho, mas sim, róseo; imaginou que tenha rompido algum órgão vital.
À menor menção de levá-lo ao hospital, o gerente chacolhou violentamente a cabeça; suava muito e estava desfigurado. O médico, o diretor, dois enfermeiros e a secretária do gerente abriram espaço ao redor, aterrorizados.
O gerente, sem gravata e de camisa deabotoada, debatia-se na maca. O médico correu para acionar a emergência. A secretária observou que poderia ser um ataque epilético e que aquele sangue rosa era sangue e espuma de saliva. O diretor fez reparar que o gerente estava pondo a língua para fora e disse que, certamente, tratava-se de uma convulsão.
Era uma língua rosa, bem rosa e lisa. A secretária disse que provavelmente o gerente estava doente havia um bocado, ninguém tem uma língua rosa como aquela; e lisa, sem papilas.
De repente, na parte de baixo da língua rosa, surgiu uma mancha vermelha; aquilo sim, era, de fato, a língua. O gerente estava pondo uma víscera rósea pela boca. A secretária não agüentou e correu para o banheiro. O diretor estava pálido e suava frio. Num trovão chegou o médico acompanhado da equipe de emergência que estava pronta para a remoção e, à imagem daquilo, do diretor expelindo uma víscera rósea que já estava quase do tamanho do seu rosto, soltou um grito desumano de pavor. Gente de todo prédio acorreu. Diziam que o gerente, que sempre estava carrancudo e hoje aparece feliz, deveria ser um bêbado contumaz; agora a cirrose estava a empurrar-lhe o fígado pelo esôfago.
Vários chegaram à enfermaria e viram o gerente estrebuchando e sufocado pela massa rósea que lhe saía pela boca. Parecia uma bolha feita de goma de mascar. Param todos à porta quando a víscera rosa caiu no chão com um barulho mole, mas sem espatifar-se. O gerente limpou-se da saliva, do sangue e da substância rosa numa tolha de mão estendida pelo médico. Curiosos aglomerarm-se diante da víscera; nenhum tinha palavra para dizer; dela, vinha um cálido cheiro de tutti-frutti que inebriava a sala.
De súbito, o gerente levantou-se e berrou para que se afastassem; todos recuaram em direção a porta. Encabulado e carrancudo, explicou que aquilo era felicidade e que, por um problema congênito, ele tinha de expeli-la antes de vir trabalhar, senão, o dia não rendia. A noite, a víscera refazia-se e todo dia de manhã, ele forçava a saída. E nessa manhã, ele levantara atrasado e esqueceu-se de expelir a víscera que acabou por se expelir.
O médico, assustadíssimo, tencionou tocar o órgão com a mão coberta por luva plástica. O gerente berrou para que se afastassem daquilo, que era contagioso; pegou uma garrafa de álcool no armário e com o isqueiro ateou fogo à víscera que rapidamente passou de rosa a preto; pediu que chamassem a limpeza. Perguntou à platéia atônita o que eles faziam ali parados enquanto havia mercados inteiros a conquistar.
Todos retiraram-se silenciosa e rapidamente; somente o diretor foi retido. O gerente disse-lhe que esquecesse todas aquelas baboseiras melosas e fosse já à sua sala, pois queria falar-lhe sobre o relatório e a próxima readequação do quadro de funcionários.






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