Granada de bolso

197. Novela de cavalaria

Domingo, 20-Jan-2008 · 2 Comentários

Invocação

No ano do Senhor de 2006, sob a graça de todos os Santos e Doutores de Santa Igreja, invoco as Tietégides a auxiliar-me no pesado fardo que a Fortuna impõe-me, de contar, em prosa e eventualmente em verso, a venturosa história do ilustre Guilherme de Taiaçupeba, fidalgo valoroso e homem d’armas, todas suas façanhas e gestas e outros pormenores menos gloriosos. Invoco-vos, musas do rio de águas acastanhadas e também vós, Tamanduteídes e – por que não o faria? – as inominadas musas mancas do Aricanduva que vem da Borda do Campo, bordeando os montes Matildinos e a sacra Penha; e as ninfas minhas do melancólico Pinheiros, protetoras das suas pontes. Invoco-vos todas, ninfas fluviais da Paulópole, para que não me deixeis nunca faltar com a mais forte verdade, que tudo que se delineia seja pelo fio da espada da Verossimilhança, deusa de uma única face feiíssima.

Intróito

Guilherme de Taiaçupeba, antes de sê-lo era somente Guilherme, Guilherme da Vindima, ser miserável que retificava as estradas reais nas proximidades de Aveiro com outros companheiros de galé, repondo grandes blocos de gnaisse que se deslocavam nos barrancos. Em três ou quatro companheiros, dependendo do tamanho do bloco, repunham-no à sua posição original. Como Guilherme foi parar nos labores forçados, é realmente uma incógnita. Más línguas relatam que teria sido encadeado por dívidas feitas por seu pai, meeiro nas vinhas da Corunha, pai que lhe deu o cognome.

Da vida pregressa de Guilherme

Era ele incumbido, como já dito, de pôr em ordem as estradas reais, junto com muitos outros rotos e despossuídos da mesma escumalha, até que um dia, aproximou-se dele o feitor de sua juntada e perguntou se ele, Guilherme, trocaria sua pena perpétua de carregar pedras por um desterro perpétuo em terras d’além-mar, el-Rei outorgar-lhe-ia ainda um feudo ou sesmaria; desterro perpétuo, mas livre, desde que não voltasse ao Reino. Pensou aginha e dando loas à Virgem e aos céus clementes, respondeu ao feitor que sim. Ainda nos trabalhos, algumas jornadas depois recebeu uma carta de doação do feudo de Taiaçupeba, em algum lugar depois do mar, mas antes da quina, e foi imediatamente conduzido para a cidade do Porto. No Porto, ele mais um grupo de gente que partia degredada, mas com a mão na frente, outra atrás, sem cartas ou benefícios, somente a liberdade de além-mar.

A travessia do mar Oceano

Todos foram postos na caravela rumo ao desconhecido. Ali, da boca do grumete, ficaram sabendo para onde iam: eram terras novas, além dos domínios do conhecido e da serpente marinha que seprenteava entre o mar médio e a quina; mas as terras eram bem antes da quina, onde as águas caíam no éter infinito.

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