Granada de bolso

200. Baratas

Sexta-feira, 08-Fev-2008 · 3 Comentários

“As baratas vieram novamente sapatear sob os móveis. Sempre me esqueço de comprar naftalinas. Agora, são três da manhã e escuto dezenas de patinhas queratinadas sambando debaixo do armário. Não vou me levantar. Não tenho inseticida e a única coisa que disponho para matá-las é um par de chinelos. Os meus chinelos. E ia ser uma meleca só. Elas continuam esse tic-tic-tic irritante. São três horas e nem as baratas me respeitam. Alguém pode dizer, um desses empoladinhos pedantes e flatulentos: ‘as baratas conviveram com os dinossauros, então, por tempo, elas têm mais direito que você’. Bem, a vida não é um posto da Previdência. Vi na televisão, uma vez, num desses longos documentários ingleses, um fóssil de barata de mais de meio metro, maior que um gato. Baratas não têm direitos porque não têm alma. Como não têm alma? Não têm alma porque não falam; somente os seres falantes e que compreendem a linguagem foram alentados pelo sopro divino e, por isso, têm alma. O resto é porcaria ambulante. Não posso deixar que nadinhas sem alma atapalhem meu sono”.

Assim pensando, levantou-se, pegou o chinelo direito que boiava junto à perna da cama e deixou dez baratas coladas ao chão em seus próprios fluidos corpóreos. Deitou-se novamente e adormeceu placidamente. Sonhou que entrava numa igreja: o coro cantava lindas melodias sacras e ele comungava; nas bocas presentes, um benevolente sorriso de aprovação.

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