Ato único
Cena I
O palco está arrumado como um interior de um coletivo, estilizadamente, alguns bancos e balaústres, somente para transmitir a idéia. Num dos bancos um passageiro (I), vestido humilde, mas decentemente, está sentado no banco e olha para a platéia como se olhasse por uma janela de coletivo, como quem olha para postes e outros carros. Num banco mais alto, diante de uma catraca, vestindo camisa azul, o cobrador. Mas adiante, próximo à ponta esquerda do palco, o motorista, sua poltrona, seu volante e sua indefectível camisa azul. Cobrador e passageiro são puxados pelo tranco de uma freada leve.
Cena II
Da ponta esquerda entra um passageiro (II), bem vestido, mas completamente desalinhado, bêbado, segurando uma garrafa de alguma bebida “nobre” na mão. Cambaleando e simulando as brecadas e arrancadas do ônibus, o passageiro II dá um gole de bebida para o cobrador e passa por baixo da catraca e vem sentar-se ao lado do passageiro I, de modo esparramado, de pernas abertas. O passageiro I faz um largo gesto indicando seu desprezo pelo cheiro forte da bebida exalado pelo passageiro II e faz um gesto para que ele recolha as pernas. O passageiro II faz um gesto de “não encha o meu saco” (1). O passageiro I reclama para o cobrador, indicando o passageiro II; o cobrador dá de ombros. O passageiro II continua balouçando em direção do passageiro I que se irrita e dá um empurrão no impertinente passageiro II.
O passageiro II cai no chão e rasteja, o ônibus breca e ele vai para fora do ônibus (sai pela direita).
Cena III
Motorista, passageiro I e cobrador continuam balouçando ao sabor das crateras no asfalto. De súbito, o ônibus freia bruscamente (o que se percebe pelo jogo dos atores na direção da parte esquerda do palco).
Cena IV
Entram dois homens, cada um com um bastão, e atrás deles, o passageiro dois, com uma garrafa na mão. Os dois homens pulam a catraca; o cobrador protesta erguendo-se do banco, mas o passageiro II lhe dá a garrafa. O motorista vira-se, mas o cobrador faz sinal com a mão para ele olhar para a frente. Os do bastão aproximam-se do passageiro I e começam a provocá-lo com tapinhas nas costas, na cabeça e na nuca; quando este se levanta e busca reagir, é moído a pauladas pelos marmanjos.
O cobrador, bebendo no gargalo, levanta-se, vai até o motorista e lhe passa a garrafa para que beba um pouco. O ônibus breca novamente (movimento simultâneo dos atores na direção da parte esquerda) e os dois descem (saem pela direita), deixando o passageiro I caído no chão.
Cena V
Motorista e cobrador olham-se; o cobrador pega a garrafa das mãos do mororista e os dois saem de cena (pela esquerda) brigando pela garrafa.
Cena VI
O passageiro I prossegue caído, imóvel. O palco escurece, somente mantém-se um facho de luz sobre o passageiro; o facho vai se enfraquecendo aos poucos e palco remanesce na escuridão completa.
Fim.
(1) pode ser um gesto feito com o braço, jogado para frente, com a mão relativamente frouxa e aberta (mas sem estar espalmada), descrevendo cerca de um quarto a um sexto de circunferência, tendo como ponto semi-móvel (oscilação trás-frente de poucos centímetros) o cotovelo; o ângulo entre o braço e o antebraço oscila próximo a 45 graus. O gesto vem acompanhado de uma interjeição, um “Ah!” bêbado e ligeiramente prolongado; será o único som propositalmente produzido da peça.






2 respostas até agora ↓
G // Quarta-feira, 27-Fev-2008 às 7:12 |
Acabei de ir ao teatro!
Obrigado! :-)
Abraço!
Amanda // Sexta-feira, 29-Fev-2008 às 19:59 |
Isso seria baseado no itinerário da linha 4284 que atende a paulistânia centro-oriental?
=*