“Sabe, nunca tive grandes pretensões. Quando as crianças queriam ser engenheiros e astronautas, eu queria ser mendigo, para passar o dia todo deitado e com a mão estendida; aliás, eu nem gosto muito de banho mesmo. As crianças crescemos. Aquele que queria ser engenheiro, virou operador de telemarketing - que miséria! O que queria ser astronauta, virou cobrador de ônibus. Olho para essa gente e penso o quanto o mundo é horrível e como ele produz idiotas em quantidades industriais. Aliás, não me excluo e nem me eximo. Eu queria ser mendigo, mas, em nome do bom-mocismo, tornei-me bancário de um banco esquecido. E, o mais engraçado de ser bancário, hoje em dia, é que se pode trabalhar num banco sem ver uma única nota, se você não for caixa. Os valores me são pura abstração. Digo mil com a mesma pachorra com que digo cem ou um milhão; as cifras já não me assustam mais. Outro dia, quando saía do banco em direção ao ponto de ônibus, vi um mendigo sentado no meio da poça da própria urina, imundo, com a mão rígida e espalmada, qual uma dionéia suja esperando a mosca dourada e redonda. Olhou-me o mendigo, todo barbudo, cabeludo, absolutamente desgrenhado, desviei as vistas de receio. Que será que quis ser aquele ser humano inviável? Provavelmente bancário.”
208. Mosca dourada
Sexta-feira, 14-Mar-2008 · 2 Comentários
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2 respostas so far ↓
jeff // Domingo, 16-Mar-2008 às 15:35
Bravo!
G // Segunda-feira, 17-Mar-2008 às 12:09
Belissimo texto…
E quanta verdade!
Abraço!
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