Os ônibus foram os primeiros. Obstruiram as grandes avenidas e corredores; os motoristas, inutilmente, tentavam dar a partida e os veículos não arrancavam. Depois foram os carros. Os luminosos apagaram. Depois de um dia de caos, à noite, as lâmpadas da iluminação pública não acenderam. Itaipú e Porto Primavera não desenguiçavam. Angra não engatava. As pessoas ficaram com medo. Nada de computadores, nada de microondas, nada de caixas automáticos. Dias foram se passando, sem rádio e sem televisão. Gente com pedaços de pau fazia guarda nas ruas. Fogueiras erguiam-se altas. Braseiros ostentavam panelas e bules. Escasseava a comida, que chegava limitada no lombo de burros e em veículos feitos carroças. O povo cansou; marchou em legiões com destino à campanha aberta e às florestas. Eis que retornava, para um pedaço de Humanidade, o glorioso período da caça, coleta e agricultura rudimentar.
209. Desligamento
Terça-feira, 25-Mar-2008 · 7 Comentários
Categorias: Atualidades · capitalismo selvagem · causa-mortis · rotina






7 respostas até agora ↓
Rafael Urnhani // Quarta-feira, 26-Mar-2008 às 8:36 |
Quase um Saramago (sem piada).
Sérgio Mendes, não o músico // Quarta-feira, 26-Mar-2008 às 8:39 |
Então, Rafael. Eu ainda não li o “Ensaio sobre a cegueira”, que talvez fosse o pai ideológico desse meu texto, mas confesso que, a partir da sua observação, lembrei-me d’”A jangada de pedra” ou d’”O ano de 1993″, coisas já lidas, assimiladas e internalizadas. Bem, a mim me agrada Saramago. Obrigado.
Rafael Urnhani // Quarta-feira, 26-Mar-2008 às 8:43 |
Reescreva isso em 190 páginas. Por favor. : )
Sissi // Quinta-Feira, 27-Mar-2008 às 15:28 |
não li Saramago AINDA, mas sinto que esse seu texto tem algo dele, ainda mais depois dos 2 comentários. rs.
… e logo pensei na parte prática: não temos florestas suficientes para todo esse povo caçar, pescar, colher. :P
marcos // Quinta-Feira, 27-Mar-2008 às 15:40 |
teve gente que ficou nas cidades. nunca faltam ratos. e os ônibus, cada um um lar. eram os lestrigões. e tinha festa sempre que chovia.
Rafael Urnhani // Segunda-feira, 31-Mar-2008 às 8:00 |
O ano de 1993 ainda não li. A jangada de pedra é ótimo (eu também sou Ibérico afinal), e além do Ensaio sobre a cegueira o livro Intermitências da morte também segue uma linha parecida.
Valem muito a pena!
: )
G // Terça-feira, 01-Abr-2008 às 13:15 |
Quase todas as obras de Saramago tem uma “linha de pensamento” muito semelhante e interessante!
Abraço!