O dicionário Houaiss da língua portuguesa não registra gentílico para a pessoa natural de Girona, na Catalunha. Nem gironês, nem gironense; fico com a primeira pela semelhança com a forma catalã: gironès, variante de gironí, assim como dizemos em português barcelonês ou barcelonense, para o catalão barceloní. Fiquemos, então, com gironês.
Para ontem, estava marcada às oito horas da noite, na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, uma palestra sobre poesia catalã, ampla, contemplando abertamente desde os trovadores catalães às coisas mais novas, passando por várias escolas, inclusive o noucentisme e o futurismo. A existência da palestra foi-me indicada pela Júlia.
Hesitei em ir, afinal, teria de faltar ao estágio de Licenciatura, não pelo conteúdo do estágio propriamente dito, mas pelas três horas não computadas no meu formulário de estágio. Minha namorada, Juliana, ao saber da palestra, convenceu-me a ir. Depois de um passeio de ônibus na São Paulo em hora de pico, chegamos à Casa das Rosas. Uma gente na porta, jovens em sua maioria. “Onde será que é a palestra?” perguntei. “Pergunta prò homem de terno ali, ele deve trabalhar aqui”, disse minha namorada e evadiu-se para uma visita ao banheiro. O homem de terno apontou para uma sala anexa ao salão de entrada: “é aqui”.
A sala, ricamente ornada de estuque, com cadeiras e um sofá confortável, estava absolutamente vazia. “É aqui mesmo?”, perguntei. “É sim”, tornou o homem de terno, “daqui a pouco o palestrante está aqui”. Juliana voltou e perguntou se eu já havia descoberto onde seria a palestra. “Aqui mesmo”, disse eu. Sentamo-nos e esperamos ou pouco; passava já um pouco das oito. Conversamos.
Entrou um homem, vestido de preto, cabelos rapados, o que indicava uma calvície escondida, de óculos e com tatuagens pelos braços. Olhou-nos. Pensei que era mais um gato-pingado para a palestra, até que ele disse: “são vocês dois os loucos que vieram para a palestra?”. Respondemos que sim, que estávamos ali para a palestra, perguntei se ele era o palestrante. E era; disse que esperaríamos mais um pouco para ver se chegaria mais alguém e sentou-se no sofá para conversar conosco. Desconfiei do sotaque que reclamava da pouca assistência: “Essa palestra era para ter sido dada no mês passado, mas não apareceu ninguém. Vamos ver se desta vez aparece mais gente”.
Perguntou-nos sobre os nossos interesses e eu lhe disse que gostava muito da língua e a havia estudado muito pouco, ‘una miqueta’. O sotaque continuou a ecoar e perguntei: “Hum… i tu, ets català?”; “Si, sóc català, de Girona, parles català?”; “una miqueta” e entabulamos uma curta conversa de cinco minutos em catalão, “hum… de la mateixa província de en Llach?”; ele nitidamente surpreendeu-se pela citação a Llach, “no, Llach ès de Verges; jo sóc de altra ciutat, de San Feliu de Guíxols”, mas Llach e, para minha surpresa, não eram as predileções do gironês: “jo prefereixo, com a poeta, en Serrat, és molt millor”, além de citar a questão da ‘lamúria’ llachiana. Depois de mais uns travessões, voltamos ao português bem falado do gironês. Já que ele não gostava do Llach, perguntei-lhe se ele acompanhava o Polònia da TV3 catalã e se conhecia a primaz imitação que faziam de Lluís Llach; riu e disse que sim, era um programa muito divertido e interessante; falou também da capacidade da auto-ironia catalã: “Você jamais teria um programa desse tipo em Madri”.
Disse-nos que estava morando em Goiás, Anápolis e tinha vindo de dezesseis horas de ônibus para fazer a palestra. Um catalão em Goiás, nada poderia ser mais estranho; lugares que, absolutamente, se ignoram. “Conhece uma cidade chamada Catalão, em Goiás?”, perguntei. A resposta foi, no mínimo, surpreendente: “Sim, conheço. Eu estive em Catalão… mas uma coisa me chamou a atenção: nas cidades catalãs, por menor que sejam, sempre tem um historiador ‘amateur’, amador, que conhece a história da cidade com muitos detalhes e até a explicação do nome. Em Catalão, ninguém sabia o por quê do nome. E eu até saí no jornal da cidade: ‘Um catalão em Catalão’”.
Indagou-me sobre o que eu conhecia de poesia catalã; eu disse o básico: Joan Brossa. Perguntou-me se eu conhecia Sérgio Alcides e Ronald Polito; sim, Polito conheço-o de uma palestra no Espaço Sátiro, na Praça Roosevelt, justamente sobre as literaturas não-castelhanas da Espanha.
“Brossa não me agrada, não gosto; mas é o que mais está traduzido em português; mas há uma coletânea boa que saiu recentemente…”, perguntei se era a 12 poetas catalães [organizada por Josep Domènech Ponsatí e Ronald Polito], “Sim, sim! É essa”. A coletânea traz vários nomes vivos da poesia catalã: Pere Gimferrer, Jordi Cornudella, Andreu Vidal e mais seis. “Há muita coisa melhor; mas mesmo em Catalunha, consideram-no ‘o poeta de Catalunha’ Miquel Martí i Pol, já morto, do qual Llach musicou poemas, mas acho que é mais por dó, porque ele andava doente e velho, do que propriamente valor como poeta”.
Na Catalunha, o gironês trabalhou numa livraria: “O dono gostava muito do Llach e toda vez que ele punha como música ambiente na livraria eu pedia: ‘pelo amor de Deus, abaixa isso!’”; também falou da bronca que tem do Paulo Coelho: “não sei que as pessoas tem aqui com essa literatura ‘espírita’, Paulo Coelho [citei a Zíbia Gasparetto], sim, sim, ela também!”. Perguntei sobre a repercussão da literatura brasileira lá, além do Pablo Conejo, claro. “Muito pouca coisa”, disse que estava traduzido, para o castelhano, “Lavoura arcaica”, de Raduan Nassar, autor que ele disse gostar muito, tendo inclusive traduzido um livro dele. Outros que ele classificou como geniais, como Rachel de Queirós, nem pensar. Falou bem a respeito dos novos, da nova geração de escritores, e citou como expoente Marcelo Milizola. Nosso gironês é, de fato, alguém muito, muito moderno. Juliana mostrou-lhe um livro da Lygia Fagundes Telles e classificou-a como muito boa; o gironês pegou o livro na mão e também disse que ela era boa. Sou franco a dizer que nunca li nada dela.
Eu disse ainda que era um problema geral o desinteresse da leitura: a pressa, o utilitarismo; as pessoas consideravam ler com perda de tempo, uma atividade ‘sem retorno’; “mas isso também em Catalunha, é mundial, parece”, sentenciou o gironês.
Como mais ninguém aparecesse, convidou-nos para tomar uma cerveja, que substituímos por refrigerante e suco, mas o teor foi o mesmo. À porta, apontou para um cartaz: “Não sei porque vocês fazem isso” e com o dedo mostrava um verbo com um pronome enclítico: ‘convidá-lo’. “Vocês não falam assim, não sei por quê assim escrevem, deveria ser ‘convidar você’ ou ‘convidar vocês’”. Disse-lhe eu que era o papel unificador da norma da língua, que era a mesma aqui e do outro lado do Atlântico. “E é mesmo? Mário de Andrade dizia que não, que era a língua brasileira e que não adiantava ‘macaquear’ a sintaxe lusíada”. Outro susto que tomei: a citação de Mário de Andrade.
Na mesa do barzinho, a conversa continuou. Disse-lhe que discordava da visão de dividir a língua portuguesa, apesar da opinião do Mário de Andrade. “Ele tem uma visão mais de lingüista”, disse-me depois a minha namorada, não sem um certo júbilo na voz. Afirmei a necessidade de uma norma que unisse, ao menos pelo texto escrito, as duas variantes. Afinal, a influência cultura portuguesa no Brasil sequer existe. Somente de uns anos para cá, tem havido uma união, um interesse comum na aproximação dos países de língua portuguesa.
Voltámos à música. Como o gironês já havia dito, não gostava do Llach, preferia o Serrat. Citei ‘Antònia Font’ e aí sim, ele riu; gostava muito do ‘Antònia Font’: “Agora sim, chegamos num acordo!”. Disse também sobre a música brasileira: “Depois de um tempo morando no Brasil, e indo e vindo, descobri Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, gosto muito da música brasileira, muito rica, em comparação com a catalã; e pra mim não tem isso, que, se você é do Chico, não pode gostar do Caetano e vice-versa! Eu gosto dos dois!”. Hilaridade geral.
Sobre o público inexistente da palestra, continuamos a lamentar e o assunto do desinteresse voltou à Espanha: “Mesmo em Girona, que é, assim por dizer, a ‘reserva espiritual’ do catalão, as coisas já não vão bem; há muita gente que acha que fala catalão com muitas palavras do espanhol; em Barcelona, então, se escuta muito espanhol. Não gosto de Barcelona, cidade grande é uma coisa horrível! E veja, eu dizia: ‘nunca vou morar em Barcelona! Odeio cidade grande…”; “E veio parar numa quase cinco vezes maior!”, completei eu, rindo. “Mas uma coisa é certa, por falta de defesa, por parte do Estado, que pouco liga para as línguas da Espanha, o catalão vai desaparecer; não tão já, mas vai desaparecer, em Valência, acho que a situação é mais grave, é um espelho da situação”. “É”, disse eu, “acho que a salvação da Catalunha é pular fora da Espanha”.
Infelizmente estava ficando tarde, era hora de irmos embora. “Putz, eu nem perguntei: como você se chama?”; “Josep”; e tratava-se, enfim, de Josep Domènech Ponsatí, o organizador da antologia. Esses simpáticos nomes catalães, sempre tão sonoros; Josep completou: “Joseps e Joans són com els ases, a cada casa hi ha un!”. Cumprimentamo-nos todos: “Adéu!”, “A reveure!”.
217. O gironês
Quinta-Feira, 01-Mai-2008 · 3 Comentários
Categorias: Catalão-Catalunha · Espanha · Lingua · Literatura · Línguas minoritárias · Mercantilização · Música · País Valenciano · Politicamente-correto · Política



3 respostas so far ↓
Donato // Quinta-Feira, 01-Mai-2008 às 19:12
Puxa, que bom você ter encontrado alguém com quem pudesse conversar sobre esses assuntos!
júlia // Quinta-Feira, 01-Mai-2008 às 21:33
que bom que você foi, sérgio. fico super contente de todo o inusitado e ainda mais, ainda mais por ter sido eu a te avisar. que bom, que bom.
Miquel Boronat Cogollos // Sexta-feira, 09-Mai-2008 às 9:08
Hola, Sérgio: una conversa entretinguda i, segurament, millor encara que el debat sobre poesia.
Hi ha dos coses que no entenc: és Sant Feliu de Guíxols (i no Félix: tret que siga la forma brasilera); i «Conejo», vaja, si fóra «Conill»…
Quant a la situació de València o de les secessions, no es perden les llengües, sinó els drets de les persones, això és el que és greu.
I quant a música, els enfits són enfits, siguen de Llach, de Serrat o de Caetano. Per ací és fàcil tindre un cert enfit de Llach, sobretot en alguns àmbits. Però moltes voltes és simplement una enfit compensatori d’algunes mancances que sentim. Per exemple, per a compensar-me alguna desil·lusió política, escolte Obrint Pas.
Deixe um comentário