Granada de bolso

221. Chá

Domingo, 25-Mai-2008 · 5 Comentários

Em algum canto perdido entre a Moldávia e a Ucrânia, uma mulher arranca ervas daninhas da horta diante de casa. Diante da casa, passa um caminhão do Exército russo levantando poeira no calor de junho, logo atrás, um caminhão entitulado “Exército da República Moldava da Transnístria”. O mulher levantou os olhos do jardim. Viu uma bandeira alvi-rubro-cerúlea seguida, no meio da poeira, por uma rubro-víride. A mulher abaixou os olhos e continuou a tentar divisar as ervas daninhas entre os alfaces. Achou também umas cápsulas de balas de fuzil que pôs no bolso do avental. Moldávia, Transnístria, Ucrânia. E daí? A única coisa que nos dão abundantemente são os cartuchos das balas. Ainda que fossem umas moedas, dava para comprar açúcar. A mulher entra na casa de madeira destroçada e com marcas de tiro; acende o fogão a lenha não sem certo esfoço. Enquanto a lenha pega fogo bem, a mulher, de chaleira na mão, vai à parte de trás da casa, ali há um poço, onde ela enche a chaleira. Volta, põe a chaleira sobre o fogão e pára os olhos num canto escuro do assoalho. Ali há um podre, logo se abrirá um buraco. Perde-se nas divagações, no céu, nos girassóis junto à casa. A água ferve. A mulher pega a chaleira, despeja a água fervente numa chávena de ágata, salga-a e tira do bolso as cápsulas joga-as na chávena. Deixa que as cápsulas descansem na água salgada; recolhe-as com um garfo e lentamente sorve o chá, acompanhando bolinhos de aveia.

Categorias: Europa · Incompreensível · escritos

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