Granada de bolso

233. Manifesto pela língua incomum

Segunda-feira, 14-Jul-2008 · 6 Comentários

Nas Espanhas, não bastassem os consuetos problemas de intolerância lingüística (essa sim, perigosíssima) ocasionados pela Guarda Civil e pelos broncos de plantão, uma nova ameaça – de caráter ideológico – paira sobre a incipiente marcha das línguas nacionais espanholas: um certo “Manifiesto por la lengua común“. Tal documento, que ainda estamos a traduzi-lo para poder devidamente comentá-lo, é um opúsculo vagabundo que propugna ao castelhano o papel de “língua comum”, que nas regiões de língua própria, ele tem sido “menosprezado e deixado de lado”.

Precisa ser lembrado aos autores de tal manifesto (e também àqueles todos que o assinaram, como Mário Vargas Llosa) que a presença do castelhano na Galiza, nas Astúrias, na Cantábria, no País Basco, em Leão e nos Países Catalães é fruto de uma imposição política, da época em que os povos eram mantidos sob o jugo tirânico de uma monarquia absolutista e centralizadora. É absurdo como no texto do manifesto, fala-se em democracia; como se fala em democracia, quando se cerceia o direito a viver na sua língua materna? Aproveito e cito Vicent Partal que, falando sobre o mesmo assunto no VilaWeb, lembrou-se de um perigoso precendente:

Neste sentido, o manifesto nos faz lembrar muito o famoso Memorandum publicado em 1986 pela Academia Sérvia de Artes e Ciências, memorandum que serviu de base ideológica a Misolevic e terminou por levar à guerra e à independência de todas, absolutamente todas as áreas não majoritariamente sérvias da ex-Iugoslávia e ao isolamento internacional da Sérvia. O memorandum, por exemplo, afirmava, contra a realidade, que os únicos que não tinham direito a usar a sua língua eram os sérvios que viviam em territórios ‘bilíngües’ e reclamava a primazia imposta do servo-croata sobre todas as outras línguas, e tudo aquilo que não fosse a afirmação dessa idéia era ‘particularismo’ e ‘anti-democrático’.

Paralelo interessante. E é o que costumo dizer: você pode espoliar economicamente um povo, pode derrotá-lo em guerra, mas a maior humilhação possível, é obrigá-lo a usar uma língua que não é a sua. Bilingüísmo é uma opção, não uma obrigação. Penso em alguém da lista Migjorn (não me lembro exatamente quem, peço perdão) que disse: “Que diríam os suíços se alguém lhe visse com um manifesto desses”. Já foi o tempo em que tínhamos de aturar Ortega y Gasset e Miguel de Unamuno batendo-se nas Cortes contra as línguas regionais.

E para finalizar, ponho abaixo o texto que publiquei hoje no Sete línhas sobre o inquietante assunto e uma visão particular.

Manifesto pela língua incomum

Leio o que quero, quando se fala de notícias. Por isso, só sei o que quero saber. Nada de moças que somem em canais ou meninas volantes, e vê, que á imprensa muito lhe apraz esses assuntos. Fiquei matutando sobre um certo “Manifesto por la lengua común” que uns castelhanistas de meia-tigela querem impor a todas as Espanhas. Como se o castelhano já não fosse suficientemente imposto, querem acuar as línguas regionais; lembrei de alguém, vassoura em mãos batendo num cachorro. Por que temos de falar todos a mesma língua? Que há de mal? Gosto de falar português, gosto de escrever em catalão, gosto de pensar em italiano, gosto de fazer bilhetes em castelhano. Vargas Llosa que vá dormir e esqueça-me, faça-me o favor.

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6 respostas até agora ↓

  • dsferrara // Terça-feira, 15-Jul-2008 às 13:39 | Responder

    Você acha que a comunicabilidade imediata é um luxo, Sérgio?

  • Sérgio Mendes, não o músico // Terça-feira, 15-Jul-2008 às 13:50 | Responder

    Só que aclararia as idéias saber, Donato, por que na Suíça não se fala desse tipo de coisa? Eles têm quatro línguas confederativas (cada cantão diz qual é – ou são – a(s) oficial(ais) e basta. No Parlamento, há tradutores, ou mesmo parlamentares que falam duas ou três línguas. O que não pode é que a diglossia continue a ser imposta como o é na Espanha e, malgrado os pouco avanços em recuperar essas línguas e dar-lhes vida civil, defender uma preponderância do castelhano sobre todo o território do Estado arrotando superioridades numéricas. É demais para a minha cabeça!
    Comunicabilidade imediata, Donato, é aquela que se faz em família ou com os vizinhos; ou com os órgãos regionais; o que os signatários querem é que o castelhano volte a tomar o papel preponderante na relação cidadão-estado e mandando as línguas regionais ficarem no âmbito da cozinha e da lavanderia.
    É muita pretenção minha, pois a Espanha, por causa da metalidade retrógrada de certos setores da sociedade civil, jamais terá um clima de abertura como a Suíça. Eles têm problemas porque, ao contrário dos helvécios, seu Estado ainda é fortemente centrípeto. Lembro-me da jocosidade de um cartaz, quando foi da aprovação do novo Estatuto de autonomia da Catalunha: “Os limites de autogoverno vão até onde queira a vontade de Madri que nós nos autogovernemos”.
    A Suíça sim, é, de fato, um país federal. A Espanha é tão federal quanto nós; e enquanto houver gente que, dissimuladamente, sustenta posições similares à Falange e aos nazistas (”ein Volk, ein Reich – e aqui, por minha conta -, eine Sprache”), a Espanha, como país tolerante e multicultural, será uma mera bazófia política.

  • dsferrara // Terça-feira, 15-Jul-2008 às 14:54 | Responder

    Você estaria disposto, portanto, a aceitar que todas as línguas indígenas que se falam no Brasil sejam alçadas à condição de línguas oficiais?

  • Sérgio Mendes, não o músico // Terça-feira, 15-Jul-2008 às 15:32 | Responder

    Bem, Donato (sei que uma frase assim começada já provoca reações irônias, porém, ei-la), a diferença com os índios é:
    1) os povos indígenas têm direito ao uso das suas línguas e à educação pública e gratuita nelas.
    Nisso estamos como a Espanha; há garantias constitucionais.
    2) os índios, como você sabe, não seguem o nosso estatuto de cidadão ordinário, têm direitos diferenciados justamente por terem um modo de vida diferente do nosso, (queira ou não) europeizado. Os índios, nas suas terras, não fazem parte da vida civil do país, têm já, portanto, o uso da sua língua garantido, porque, salvo que saiam da reserva ou proponham-se a aprender português, ninguém os obriga; quando o fazem, fazem conscientemente. Digamos que catalães, bascos e galegos estejam numa escala diferente; não há reservas demarcadas e são espanhóis de pleno direito.
    3) Os índios preservam sua autogestão e mantém seus costumes e línguas próprias. Impor-lhes o português seria a morte de todas elas (Pombal arde no Inferno).
    4) Caracterizado o uso das línguas e visto o estatuto jurídico dos indígenas e suas língua e cultura; seria inviável alçá-las à condição de língua oficial no que tange à veiculação em toda a União.
    5) Porém, não sou absolutamente desfavorável que seja alterado o caput do artigo 13 da nossa Constituição; mas para permitir a adoção de línguas co-oficiais com o Português pelos Estados, nas regiões de incidência maior de população indígena (o que afetaria o Centro-Oeste e, mais notoriamente, o Norte do país).
    6) Tais decisões seriam, sem dúvida alguma, excelentes, mas, para levá-las a cabo, seria necessária a fundação de uma academia de cada língua (ou, pelo menos, comissões estaduais) para regularização dessas línguas, principalmente no que tange a aspectos gráficos e ortográficos.
    7) A população brasileira de língua indígena é cerca de 0,5% (segundo o pesquisador A. D. Rodrigues da UNB http://orbita.starmedia.com/~i.n.d.i.o.s/textos/txt008or.htm ); na Espanha: o catalão (e variantes) representam 12% de toda a população, o galego, 8%, basco, 1,2%. Fora as minoritárias. Ou seja, um em cada cinco espanhóis não é de fala castelhana. Se isso fosse a realidade do país, teríamos 40 milhões de falantes de outros idiomas.

    Tudo isso posto, por que não uma oficialização regional aqui no Brasil?

  • dsferrara // Terça-feira, 15-Jul-2008 às 18:42 | Responder

    Há coisas admiráveis em você, Sérgio. Você é um homem de causas. Quanto a mim, não creio advogar em favor de causa nenhuma. Tenho, sim, um vago anseio por verdade e justiça, mas é difícil imaginar alguém mais desorientado do que eu. E verdade e justiça, para mim, são coisas que quase sempre passam muito longe de gregarismos e demonstrações de força.

    O que quero lhe dizer é o seguinte: acho impossível que essas cisões políticas e culturais cheguem ao paroxismo sem uma dose muito expressiva de ressentimento. E me parece igualmente impossível que o ressentimento puro e simples, depois de algum tempo de embate legítimo de argumentos, não se torne um ídolo ou um estandarte em torno do qual os fiéis e os combatentes vão se reunir, pouco importando a justiça da causa.

    Não sou contrário às línguas minoritárias, pois. Mas não posso achar graça no fato de que pessoas resolvam não se entender deliberadamente e saiam por aí a proclamar que “o mundo é [sua] aldeia”. Isso é profundamente antidemocrático. Estamos caminhando para um mundo com 10 bilhões de seres humanos; e estaremos velhos quando isso acontecer. Se começarmos a nos prender a questiúnculas identitárias, a coisa vai desandar. E feio. Não sou profeta, mas o Bandarra que vive em mim está sempre a dizer que quem acha que a identidade será o grande tema deste século se enganará absolutamente. Tudo isso é wishful thinking, é pensamento desejante. A grande questão deste século é a mesma de todos os séculos, que vem se perpetuando pelos séculos dos séculos: a violência.

    O que mais me intriga e incomoda, porém, é o fato de que as pessoas acreditem que determinações históricas expliquem o que elas são, e não as circunstâncias em que vivem. O sectarismo, em nossa época, está crescendo muito e dá mostras periódicas de estar fora de controle. E ele se baseia, muita vez, nessa chantagenzinha vagabunda e rasteira que preconiza que as culpas do passado precisam ser expiadas no presente sob a forma de privilégios, às expensas da maioria inocente.

    Provavelmente não é bem isso o que acontece na Espanha com as minorias lingüísticas, mas não vejo impossibilidades para que isso seja posto em prática em qualquer país do mundo. É isso que estão tentando montar por aqui. Com êxito, porque estamos nos comportando como repolhos.

    O que proponho a todos é que, sem abrir mão de suas línguas naturais, esforcem-se por aprender, no mínimo, uns quatro idiomas a mais, e que não façam isso só por si, mas também pelos outros. Só a soma das magnanimidades individuais nos salvará da cizânia.

  • Sérgio Mendes, não o músico // Quarta-feira, 16-Jul-2008 às 8:52 | Responder

    Agradeço a menção, Donato. Não sei se sou um homem de causas, mas sou alguém que vê na línguagem a expressão máxima do ser humano e qualquer obstáculo à manutenção de uma língua natural tem o meu apoio quase incondicional. Há gente que se preocupa em conservar animais e plantas, eu me preocupo com as línguas que estão a ser relegadas meramente como instrumento de comunicação e não ser vistas em tudo aquilo que realmente significam e podem significar.
    Eu sei que parece um pouco de demência defender um ponto tão profundamente – ou tentar fazê-lo -, mas, uma vez, numa conversa com o Orlando percebi o quanto é dificultoso para que nós, brasileiros, percebamos o que é ter falantes de outros idiomas dentro de um Estado-nação. No nosso caso, como já disse, as minorias lingüísticas brasílicas estão muito longe das cidades e, muitas vezes, nós mesmos esquecemos que estamos num território que foi invadido e tomado aos ameríndios e que banimos suas línguas para o ostracismo e para a extinção.
    Não acho que a existência de bolsões de falantes de outros idiomas sejam uma ameaça à democracia, aliás, esse é o argumento do tal Manifesto. Nada impede que você aprenda um idioma estrangeiro, ou outro idioma nacional, o que eles querem em Espanha, Donato, é o direito de viver na sua língua própria.
    Outra coisa que é complicada é tomar caso da realidade espanhola. Depois de anos de franquismo e a imagem exterior de uma Espanha culturalmente homogênea, quando você fala para alguém, cá em Pindorama, que na Espanha há quatro línguas (fora as de menor magnitude), as pessoas se assustam: “Ué, não se fala espanhol na Espanha?”. O mesmo ocorre com a Itália (notoriamente entre os descendentes de italiano), com a França e com a Grã-Bretanha. A idéia de estado-povo-idioma, ou seja, um Estado-nacional deve ter um único idioma cresce e fervilha.
    Em Espanha, setores muito conservadores e – quiçá – saudosos da “organização” que era o regime franquista, militam por uma Espanha “una, grande y libre”, como diriam os falangistas. “Una”; você diz sobre a “aldeia global”; eu não vejo a globalização – do modo como se vem processando – como algo bom. A homogenização está acarretando na perda de valores culturais. É esse o preço que teremos de pagar? Para nós, parece, que não temos muito a perder: somos totalmente ocidentalizados e vendidos, em certos termos, mas quando se fala em língua, ainda não nos obrigam a falar inglês na marra ou ter de usá-lo na rua. Muitos “hespanhóis” (depois explico esse agá) acham um absurdo deslocar-se dentro do país e ter de escutar (não é “entender”, é “escutar”) línguas diferente que não seja o seu castelhano, a ponto de dizer expressões que já se tornaram prosaicas como “Estamos en España, háblame em español”. As culturas têm de ser respeitadas, Donato. Não estamos falando de um banimento do castelhano, mas batendo na cretinice do manifesto, que tem a arrogância de ser contraditório quando diz que: “uma língua não deve ser vinculada a um território”. Santo Deus! mas é justamente o que eles preconizam, a grosso modo, “España en español”! Como não vincular? Dizem que o bilingüismo é uma opção. Como falar de opção a pessoas que foram proibidas durante séculos de falar em público nas línguas em que cresceram?
    Esse tipo de ação espanholista, infelizmente, acaba por alimentar a coia que eles mais odeiam: o separatismo dessas minorias; já li por aí, nos blogues e fóruns: “mais uma vez mostram-nos a necessidade de termos nosso próprio Estado”; oportunismo? Pode ser, mas acaba convertendo-se em verdade.
    Pelo que observo o que falam catalães e valencianos, eles não se negam a aprender qualquer língua, inclusive, são praticamente todos bilíngües em castelhano, mas o que querem – e têm toda razão e direito disso – é viver na sua língua, dar-lhe viver civil, na relação do cidadão com o poder público e não ser obrigados a dirigir-se uns aos outros na língua do “limpia, fija y da esplendor”.
    É possível haver várias línguas dentro de um Estado, sem que uma se imponha, desde que esse estado assuma-se, de jure, plurilíngüe, o que não é, de fato, a situação espanhola. Lembro de ter lido em algum canto que, durante a constituinte do final dos anos 70, um deputado pediu a inclusão de termos nos quais o herdeiro da coroa fosse educado para que tivesse noções da língua e da cultura dos povos sobre os quais reinaria. Claro que, falar disso ainda com o franquismo moribundo foi em vão, a proposição não foi incluída na Constituição. Uma vez Bourbon, sempre Bourbon.

    Quanto à sua consideração opondo condições históricas e vida atual, será que nosso problema não é justamente querer que a segunda sobreponha-se à primeira? Acho sim que a consciência história é por demais pesada para que passe desapercebida ou seja relegada somente aos acadêmicos. Nosso problema com a História é que temos uma História absolutamente inventada, e aversão original não é grandiosa e luminiscente como a pintam. Qual a história da bandeira argentina? Belgrano a desenhou para identificar suas baterias no rio da Prata. Qual a história da bandeira catalã? São os dedos ensangüentados de Vilfredo sobre o seu escudo amarelo. Qual a nossa? Um artista francês, que veio com a corte portuguêsa, desenhou um losango amarelo, cor emblemática dos Habsburgos, emoldurado por um retângulo verde, cor emblemática dos Bragança, fez uma bandeira para o país que foi libertado pelo herdeiro do trono da Metrópole! Que História é essa? É a mais demeritória possível. O brasileiro, dizem, tem memória curta; mas se fosse paquidérmica, talvez a esquecesse propositalmente. Não sei bem, Donato, são questões complicadas.
    Mas e a nossa realidade, o nosso hoje, o nosso viver civil, a vida atual? É aplastrante, alienante e tende a reduzir tudo a um divisor comum. É a morte de qualquer civilização, é a morte da Humanidade. No viver civil capitalista, só há espaço para a sobrevivência e não há tempo para mais nada. Vejo por aí, as pessoas conversando e fico preocupado. Às vezes, é melhor ater-se à História e na História podemos encontrar respostas, não é?

    P. S.: o “hespanhol” com agá, roubo-o de Castelao, que assim o utilizava para definir o conjunto das Espanhas, recuperado de Hispânia.

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