Granada de bolso

234. Jardim

Quinta-Feira, 17-Jul-2008 · 1 Comentário

O tédio, os olhos que ardem. O homem é o lobo de si mesmo, lembro-me disso das aulas de Latim, quando eu ainda tinha ânimo e energia para assistir aulas noturnas. Hoje, durmo cedo e mal consigo reger-me de pé. Quando penso que tenho de ficar dentro dum escritório durante oito horas, tratando das coisas mais desinteressantes com gente desinteressante, me vêm ganas de pular da janela. Só há um agravante: trabalho num piso térreo e minha sala sequer tem janelas. Nunca pensei que pudesse atribuir tanta importância às janelas, e hoje me fazem uma falta tremenda. Não que a sala não tenha janelas exatamente, mas, do meu lado, há uns postigos que dão para um corredor interno e, do outro, por dentro da sala envidraçada dos chefes, há uns basculantes um pouco maiores que dão para um jardim interno. Certo que é um jardim interno, a natureza enjaulada e posta num aquário, mas ainda assim é terra e é vida. Imagino, enquanto digito este texto insulso, a inconsciente felecidade dos tatus-bola, meus queridos e amados crustáceos terrestres. Cada jardim é uma praiazinha sem mar, ou melhor, com um mar de grama ou outra planta comportada e servil que se presta ao serviço de ser esquadrinhada e posta no formato que queiram os paisagistas. Prefiro pensar assim, porque, de vidas tediosas, os vagões enchem-se pela manhã; prefiro pensar na inconsciência alegre e quitinosa do tatuzinho-de-jardim, esse crustáceo desterrado e distraído que recria o seu mar de um dia na escuridão frouxa de sob as pedras – qual paisagista não gosta de pedras, argila espandida e pedrisco branco? E entre plantas e musgos, indirente aos que lhe cercam – esses insetos! – o crustáceo, inconsciente da sua evolução, pois jamais leu Darwin, e nem poderia, segue esperando, sem saber, a próxima etapa da lenta evolução sem fim.

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