Granada de bolso

235. Rotina

Segunda-feira, 21-Jul-2008 · 1 Comentário

Nasce o dia. Seria redundância afirmar que, na verdade, somos nós que nos fazemos visíveis ao sol e não o contrário? Mas o antropocentrismo ainda é lei, mesmo depois de Copérnico. Não importa muito, pois, nasceu o dia. Uma luz abóbora forte banha os telhados de amianto e as paredes de tijolo. Do seu apartamento, Constantino põe a cara ao sol, na janela, e decide por ir comprar os víveres para o café. Se não terminar a tradução hoje, não terá jantar. A padaria é na esquina, ele vai de roupão mesmo. Já o conhecem na padaria. Constantino pede o litro de leite C e os três pães franceses; ele ainda não se habitou a ver o preço do pão por quilo, ao invés da unidade. Tanto faz. Passa um ônibus cheio, algumas pessoas prendem a vista no vulto de cabelos desalinhados, de roupão de flanela e com o pão debaixo do braço. Volta para casa e toma seu café. Liga o computador e traz as tralhas cuja tradução está para terminar: um romance vagabundo. Acende um cigarro e a fumaça toma conta de todo quarto-sala da quitinete. Dicionário, gramática, teclas. O sol vai subindo e o rastro de luz desloca-se pelo ambiente, alterando a claridade do espaço de acordo com a cor do objeto sobre a qual incidia, até que saiu. Era meio-dia. Tradução quase pronta. Almoçou um cigarro, almoçou mais outro. Enquanto almoçava, olhava as nuvens pela janela. A quitinete, o caos, lá fora, alguma mãe ralhava com o filho pequeno, um caminhão rolava pelas avenidas abaixo. Da quite do lado vinha um barulho de rádio, era o boletim do tempo. Constantino voltou para a tradução. Acabou-a logo, imprimiu-a e colocou o calhamaço num envelope. Finalmente tirou o pijama, vestiu-se e saiu para deixar a tradução com aquele que a solicitara, um editor de livros safados, uns catecismos para gente adulta. Era o que conseguia, não podia largar, por mais que odiasse aquilo. Chegou ao prédio seboso no centro da cidade, com seus capitéis de pintura descascada e poeirentos, de remendos retilíneos alternando-se no original neoclássico. Entrou, deixou o RG com o porteiro e subiu pelo elevador velho, de grade ainda. À saída do elevador, uma placa igualmente sebosa, indicava os escritórios que funcionavam no andar; a editora era na última sala à esquerda. Bateu na porta descascada; abriu-a uma senhora de coque, era a mãe do dono. Bons-dias e entrou; ela pediu a Constantino que esperasse, que o Demerval – era o dono – fora até a padaria tomar um pingado. Esperou quase meia hora folheando revistas encontradas num revisteiro tão velho que poderia ter sido citado no Gênesis. Todas as revistas diziam a mesma coisa. Chegou Demerval, visivelmente bêbado e pediu para que Constantino se sentasse à sua mesa. Viu a tradução, elogiou o seu trabalho, como sempre faz e disse que iria depositar o dinheiro na terça-feira próxima. Constantino sabia que o dinheiro só viria na sexta, depois de uma chuva de telefonemas. Mas era a vida. Voltou para casa e ligou o televisor preto-e-branco; fumou mais uns cinco cigarros e não quis jantar, televisor lhe dava enjôo. Desligou-o e ligou o rádio. Ficou afundado na poltrona. Quando perdia os olhos nas luzes de mercúrio que pontuavam o horizonte, percebeu que algum pequeno animal estava junto à janela. Pensou que, certamente, tratava-se de um pombo ou pardal perdido, na meia luz da arandela não conseguia distinguir. Intrigou-o a insistência da ave e resolveu acender a luz para identificar melhor o que era. Levantou-se e bateu a mão no interruptor; virou a cabeça e, por instantes, pensou que fosse uma cobra, por causa do olhar parado, mas logo o animal começou a sair detrás da persiana e veio lentamente voando em direção à lâmpada acesa. Era uma sardinha. Constantino esfregou os olhos fortemente; ela continuava ali, voando ao redor da lâmpada como se nadasse. Baixou e foi fuçar junto do computador. Constantino cautelosamente tentou aproximar-se e a sardinha, percebendo a presença ameaçadora, fugiu em direção da estante de livros. Constantino pegou um pote de vidro na cozinha e tentou fazer com que a sardinha entrasse nele, sem sucesso, ela esvoaçou e foi para a lâmpada; da janela, outra sardinha tomava a direção da lâmpada, essa, um pouco maior que a primeira. Constantino achou melhor sentar-se novamente na poltrona e, com o coração na goela, olhava as sardinhas perseguirem-se e voltearem ao redor da lâmpada. De súbito, levantou-se e, num salto, conseguiu pegar uma. Era, de fato, na consistência e no aspecto, uma sardinha; só que viva no ar e que, ainda por cima, flutuava. Soltou-a e o peixinho correu a esconder-se. Antes de ir dormir, tentou pô-las para fora com o auxílio de uma vassoura, só que elas não quiseram saber de ir para a escuridão da rua. Constantino, tomado de pena, deixou que elas ficassem por lá.
No dia seguinte, ao levantar-se, preparou o café e nem se lembrava das sardinhas, achou que não tinha passado de um sonho; foi à geladeira e quando voltou, havia uma sardinha flutuando sobre a sua xícara e bebericando o seu café. O pote de requeijão espatifou-se no chão por causa do susto. A sardinha também se assustou com o barulho e foi-se para a sala. Constantino recolheu os cacos do copo e tomou seu café – pôs outro, pois ficou com nojo daquele em que a sardinha tinha encostado a boca. Sentou-se para trabalhar, em outra tradução e as sardinhas ficaram por ali. Às vezes paravam, quietas, junto ao chão, outras vezes esvoaçavam e corriam uma atrás da outra. Pelo andar da carruagem, elas ficariam por ali mesmo. Constantino pensou em dar-lhes nomes, mas nenhum nome veio-lhe à cabeça. Pensou em chamar o vizinho do rádio para ver, afinal, não era todo dia que sardinhas voadoras entravam pela janela.
Quando pôs a mão na maçaneta, veio-lhe um estalo: e se só ele estivesse vendo as sardinhas. Sardinhas são peixes, não voam. Olhou para tras e elas estavam ali, abrindo e fechando a boca, suas sombras projetavam-se no carpete, ou seja, a luz não lhes era indiferente. Mas poderia sim ser um sinal de loucura.
Resolveu vestir-se e sair e as sardinhas, com um impulso, resolveram segui-lo. Ele tentou mantê-las no apartamento, mas foi inútil, colaram-se às suas costas. E qual não foi a reação de Constantino quando saiu à rua e vi que cada pessoa tinha, pelo menos, duas sardinhas atrás de si. Num ônibus cheio que passava pela rua, as sardinhas faziam uma tremenda confusão, confundindo-se e esbarrando no rosto das pessoas.
Constantino olhou para as suas sardinhas e olhou para as sardinhas das pessoas que estavam em volta, todos as tinham. Foi ao escritório de Demerval e lá o encontrou com mais duas sardinhas; Dermerval o recebeu irônico: “ah, então também tem as suas, achei que tinha bebido demais”; a mãe contou a Constantino que o filho quase se jogara da janela por causa das sardinhas e fora ela que evitara o pior. Todos tinham as sardinhas.
Constantino voltou para casa e pôs-se a fumar. As cinzas que caíam do cigarro, as sardinhas as comiam.

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