Granada de bolso

238. Sobre árvores

Sexta-feira, 01-Ago-2008 · Deixe um Comentário

Além da obrigatória especialização em algo, fenômeno muito moderno, todos nós temos algum tipo de ocupação para o tempo livre. As minhas, além da numismática e filatelia amadoras, tendo uma queda pela botânica. Mas não a botânica de sentar e ver binômios (não que não me agradem) ou saber família, filo e espécie exata (o que também não agrada), mas sim uma botânica mais intuísta: ver árvores, porque se trata, enfim, de uma botânica de observação de árvores. À ramaria miúda não dou muita trela: gosto de árvores.
Mas o que quero contar, em si, não tem muito a ver com gostos sobre botânica. Começou exatamente com uma peça dos Les Luthiers, grupo músico-humorístico argentino o qual muito me apraz, intitulada “Suite de los noticieros cinematográficos”. A peça desenvolve-se como se fosse o áudio de um dos já não mais existentes noticiários cinematográficos (consultem os mais velhos: aqui nas plagas brasílicas, havia o “Primo Carbonari” e nas Espanhas, o famigerado “Noticieros y Documentales”, mas conhecido pelo seu acrônimo No-do); a certo ponto, narra-se a inauguração de uma fábrica de refrigerantes dita “Algarrobo Pampeano” que fabrica a “Algarrobo-cola”.
Como palavras diferentes nas línguas que conheço sempre me chamam a atenção, fiquei com ela guardada para futura consulta e sempre me esquecia de fazê-lo; isso até sábado passado.
Em um sábado passado, eu e minha namorada fomos ao Centro da cidade para visitar os sebos; ela estava atrás de alguns livros e eu não me abstenho nem de acompanhá-la e de passar a vista pelas longas estantes abarrotadas atrás de títulos curiosos e obras de referência pouco divulgadas. Resultou que eu, que somente acompanhava, comecei a juntar livros sob o braço e saí de lá com alguns volumes, bem mais do que os levado pela minha namorada. Nesses volumes, entre o “Dicionário Kazar” de Milorad Pavić e “A guerra da Gália” de Júlio César, comprei uma edição do Diccionario Manual e Ilustrado de la Lengua Española* da Real Academia da Língua Espanhola, de 1950.
Bem, algumas considerações sobre o dicionário: foi editado em 1950, em pleno franquismo, na etapa mais dura. Como será que definem comunismo? Não sei agora de cabeça, mas a definição era sumária e dizia basicamente que o comunismo consistia em trocar o sistema de propriedade privada pelo da propriedade coletiva. Nem o nosso Dicionário Escolar da Língua Portuguesa do MEC, de 1973 é tão sucinto! O DMILE* dedica três linhas ao verbete comunismo; três linhas numa coluna minúscula e letra igualmente diminuta.
Aproveitando a distração de Juliana nas estantes, procurei a palavra que estava alojada no cérebro, algarrobo; ora, lembrei-me da palavra e estava com o dicionário na mão. Quando se tem uma oportunidade tamanha? Pois bem, é uma árvore.
Fiquei temporariamente satisfeito. Era uma árvore. A dúvida começa a fazer-se novamente espinhosa e cutucar os recônditos cerebrais: e, em português? Sem dicionário bilíngüe, o jeito foi valer-se da Wikipédia, que não é lá muito confiável, mas dá uma base que pode ser confirmada. E nesse tipo de pesquisa sempre surgem surpresas: há dois tipos de algarrobo: o europeu (Ceratonia siliqua, família das fabáceas, sub-família das Cesalpinioídeas) e os americanos (pertencentes ao gênero Prosopis, igualmente da família das fabáceas, mas da sub-família das Mimosoídeas), mas que, por causa das similaridades, ganharam o mesmo nome comum.

Através do binônio latino da espécie européia, cheguei à denominação portuguesa alfarrobeira. O Houaiss somente registra acepção para a espécie européia:

Alfarrobeira, s.f.
árvore frondosa (Ceratonia siliqua) da fam. das leguminosas, subfam. cesalpinioídea, de caule tortuoso, folhas paripenadas, flores apétalas, avermelhadas ou esverdeadas, e grandes vagens cilíndricas, castanho-escuras; alfarroba, ervilhaca-parda, fava-rica, figueira-de-pitágoras, figueira-do-egito, pão-de-são-joão [Nativa do Mediterrâneo, é cultivada pela madeira e esp. pelo fruto, adstringente e tanífero, depois com polpa adocicada e comestível, tb. muito us. como forragem.]
ár. al-harruba ‘alfarrobeira’

Porém, o dicionário espanhol, a última edição do DRAE traz algumas confusões:

algarrobo.
(De algarroba).
1. m. Árbol siempre verde, de la familia de las Papilionáceas [1], de ocho a diez metros de altura, con copa de ramas irregulares y tortuosas, hojas lustrosas y coriáceas, flores purpúreas, y cuyo fruto es la algarroba. Originario de Oriente, se cría en las regiones marítimas templadas y florece en otoño y en invierno.
2. m. Am. Nombre de varios árboles o plantas, como el curbaril o el cenízaro.

[1] trata-se de um sinônimo de ‘fabáceas’.

Através dessas designações, comecei a juntar as designações populares da árvore pela Europa, visto que ela distribui-se pela bacia do Mediterrâneo. Aqui, a definição do Gran Diccionàri de la Llengua Catalana:

garrofer
[s. XIV; de garrofa]
m BOT/AGR 1 Arbre perennifoli de la família de les cesalpiniàcies (Ceratonia siliqua), de fulles paripinnades i fruits en llegum (garrofa).
2 garrofer del diable Arbust caducifoli de la família de les papilionàcies (Anagyris foetida), de fulles trifoliades, tòxic i pudent.

Em francês, a altura da árvore parece um pouco alterada. Enquanto as enciclopédias (Wikipédia: pt, es, it) dizem que a altura gira entre 7 e 10 metros, o Dictionaire de l’Académie Française indica a altura por volta dos 20 metros:

CAROUBIER n. m. XVIe siècle, carroubier. Dérivé de caroube.
BOT. Arbre de la famille des Césalpiniacées, à feuillage persistant, atteignant une hauteur de près de vingt mètres. Le bois rouge et dur du caroubier est propre aux ouvrages de menuiserie et de marqueterie.

A definição italiana do De Mauro-Paravia é mais sucinta ainda:

car|rù|bo
s.m.
TS bot.com., albero sempreverde (Ceratonia siliqua) che produce le carrube, dal quale si ricava un buon legno per ebanisteria
Varianti: carrubbio, carubo

Porém, nos dicionários, mesmo no de castelhano, falta a definição do algarrobo americano; em nenhum está indicado. Notadamente, em português aconteceu um processo diferente de nomeação das árvores do gênero Prosapis: adotou-se o nome castelhano, ou seja, em português chama-se as Prosapis de algarrobeira ou algarobeira, derivado do uso platino e ‘alfarrobeira’ continua destinada somente à Ceratonia siliqua, européia.
O mais interessante de se notar é que somente o dicionário de Português preocupou-se em explicar a etimologia da palavra, se bem que não se trata de um dicionário em-linha, como todos os outros citados, mas a versão em CD-Rom do Houaiss.

Depois de tudo isso, leitor, você se pergunta: e daí? E eu lhe respondo: é isso. Trata-se de um texto escrito por mera curiosidade, assim como os dados e informações aqui dispostas, unindo duas coisas a que tenho um amor profundo: as línguas e as árvores. Infelizmente tais árvores não há pelas nossas paragens, mas, um dia, hei-de observá-las.

* Atualização de 04 de agosto: o Diccionario Manual e Ilustrado de la Lengua Española (DMILE) fora erroneamente definido como sendo o Dicionário geral da Academia, o Diccionário de la Real Academia de la Lengua Española. Este dicionário-manual é uma versão resumida (não muito) e inclui acepções que não haviam ainda entrado no dicionário “oficial” (cfr. a própria introdução da publicação); salvo este engano, uma futura análise de alguns verbetes a ele pinçados, dará um interessante estudinho.

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