Pequeno adendo antes da leitura: não pense, eventual leitor, após a leitura, que o relato abaixo vem de alguém que tenha orgulho de suas origens “européias” e limpinhas. A Europa da qual descendo é a Europa da guerra, da fome e da miséria. A sua também, descendente de italianos ou alemães; escória somos, escória seremos. Algo que me irritaria profundamente seria ser posto junto a essa escumalha de colônia que vê os países como são hoje e usam tal fato para jactanciar-se.
(Somos de la sexta, sexta división.)
A musiquinha ficou ecoando na minha cabeça a cada tecla batida. Espanha é um assunto que me intriga. Não gratuitamente. Muitos de nós, brasileiros – melhor, não tenho autoridade para falar por todos os brasileiros, digo então, paulistanos, melhor – então, muitos de nós, paulistanos, acabamos por interessar-nos por um país estrangeiro, geralmente pelos aspectos positivos. Vejos os descendentes de italianos, que se vangloriam do que a Itália é hoje. Mas e a Itália que os seus antepassados deixaram? Essa simplesmente não existiu. No meu caso, sou descendente de espanhóis, mas que me atrai na Espanha, não é a Espanha como ela é hoje, integrada na União Européia, é a Espanha de antes, a perdição da Europa, a Escandinávia do Magreb. Quero saber da Espanha histórica, real e sangrenta, que teve sua república dilacerada.
Minha ligação com a Espanha é mais do que sangue, é história, coisa que supera qualquer carga genética.
(Negras tormentas agitan los aires, nubes oscuras nos impiden ver.)
Minha história começa quando Francisco Franco, o oficial baixote e atarracado subleva as guarnições espanholas do Marrocos. Pois é, meu avô estava lá, às vésperas de acabar o serviço militar. Teve de ficar os três anos da guerra com o Franco. Os que não estavam de acordo? Bem, caso falassem, terminavam crivados de balas. Meu avô, galego como Francisco Franco, foi um dos “moros” que subiu do Marrocos a Espanha, aos quais gritaram e cantaram “¡No passarán!”; e passaram. Meu avô não gostava do Franco, mas era apolítico, tanto que não ia com a cara do Azaña também. Não sei se ele estava presente à tomada de Madri. Infelizmente, são detalhes que ele levou consigo para a cova antes que a minha curiosidade despontasse.
(Cara al sol con la camisa nueva, que tú bordaste rojo ayer.)
Sei que, quando foi depois do 1º de abril de 1939, quando a maioria das tropas foi desmobilizada, largaram meu avô mais outros na Extremadura; ele e mais um grupo de galegos (o número varia de acordo com quem conta a história, entre quatro e oito) subiram até lá a pé.
[continuará...]






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