Category Archives: Quitutes e acepipes

242. Ladeira General Carneiro, 06:45

As primeiras pessoas desembarcadas dos ônibus que as trouxeram do subúrbio começam a subir a ladeira. E a descê-la também. O movimento começa. As primeiras lojas começam a erguer ruidosamente suas portas de aço. Os camelôs montam suas barracas de quinquilharias várias. De uma porta estreita, esmagada entre duas lojas, um homem obeso empurra seu obuseiro da batalha diária. Alta qual um homem e coberta de chapas de aço, a máquina desliza sobre suas rodinhas; é uma máquina, ou aparenta sê-lo. Com um toco feito de caibro – de algum telhado desmanchado nas redondezas – o gordo estanca a sede de correr ladeira a baixo da máquina. Volta à portinha e de lá vem com uma grande caixa de papelão cuja face aberta está tampada por uma folha de jornal. Da caixa, cheia e manchas profundas de gordura e poeira, emerge um espeto de carne, cilíndrico, de quase um metro, um cilindro feito de raspas de carne. O gordo encaixa-o à máquina, acende-a – antes, liga o gás – e, com um motor elétrico, o espeto começa a fazer o mundo girar ao seu redor. Será repasto de muita gente, aqueles nacos gordurosos de carne salgados e apimentados, dentro dum pão, acompanhados ainda de um suco amarelo.

224. De como questões mundanas podem ser nitidamente tradadas e facilmente resolvidas através da linguagem límpida e clara e da exata definição do tema a ser efetivamente tratado de modo dialógico e sem divagações prolixas e perda inútil de tempo e latim

Entretanto, não nos podemos deixar abater; essas coisas ocorrem todos os dias, se não comigo, contigo, consigo, com eles. Acontece. É claro que é possível evitá-las, simplesmente não saindo de casa. Como eu gostaria, se pudesse, não pôr mais o nariz para fora de casa. Uma casa comigo e minhas manias, todas elas, exasperadas, violentas. Mas temos de sair, enfrentar o turbilhão, a ausência de poesia no dia-a-dia cinza da cidade cinza. Mas mesmo assim, não é? Isso, às vezes, é tão inevitável quanto o mato que brota nos canteiros ou nas frestas dos viadutos e viram chumaços de pêlo, como se viadutos tivessem pêlos. Mas, voltando à vaca fria, nessas situações, você pode fazer o seguinte…

Vídeo: La gallineta, Lluís Llach

La gallineta
Lluís Llach

La gallineta ha dit que prou,
ja no vull pondre cap més ou,
a fer punyetes aquest sou
que fa tants anys que m’esclavitza.

I si em vénen ganes de fer-ne
em faré venir un restrenyiment,
no tindrà cap més ou calent
el que de mi se n’aprofita.

La gallina ha dit que no,
visca la revolució.

A canvi d’algun gra de blat
m’heu tret la força de volar
però, us ho juro, s’ha acabat!
Tinc per davant tota una vida

i no pateixo pel destí,
que un cop lliurada del botxí
no ha d’haver-hi cap perill
perquè m’entengui amb les veïnes.

La gallina ha dit que no,
visca la revolució.

I els galls que amb mi hauran de dormir
els triaré sans i valents,
que n’estic farta d’impotents
que em fan passar nits avorrides.

Que quedi clar per sempre més,
que jo de verge no en tinc res,
i que, posats a fer, no em ve
d’un segon restrenyiment.

La gallina ha dit que no,
visca la revolució.

203. Duas, três

Enredo de filme nacional

A rainha da bateria da Unidos do Taquaruçu de Baixo engravidou; mesmo assim, pediu ao bixeiro que financiava a escola para que continuasse rainha, afinal, o pai da criança era o braço direito do bixeiro Topeira, que topa (ê, aliteraçãozinha vagabunda!) e ainda acha que estará na vanguarda por permitir que a grávida unte-se de banha de porco com purpurina e saia rebolando enlouquecidamente sobre saltos de trinta centímetros. No dia do desfile, a rainha gestante estoura-se contra o chão e sai sangrando por todos os lados, inclusive pelas partes pudendas, mãe e bebê morrem, mas o carnaval, orgulho nacional não pode parar. Mesmo com a morte da rainha, a Unidos do Taquaruçu tira o primeiro lugar no grupo de acesso; o bicheiro regozija-se com o feito inédito. A rainha e filho são levados ao cemitério sob uma forte chuva de fevereiro por pessoas fantasiadas; levam o caixão seis baianas (daquelas, da ‘ala das baianas’). Fim.

Iluminação

O primeiro louco viu Deus porque consumiu algum tipo de estupefaciente; por isso o consumo dos mesmos é hoje ilegal.

Arte

“Decébalo, rei da Dácia”, ou somente “Decébalo”, representa o legendário rei dos dácios que lutou contra os romanos. O ícone da nacionalidade romena foi representado tendo como base o retrato do soberano reproduzido sobre a moeda de 20 lei, feito tridimensional e montado cada elemento com materiais recicláveis: os cabelos são de tiras de garrafas ‘pet’; sua coroa foi primorosamente esculpida a partir de recortes de folhas de alumínio, tiradas às latas de cerveja, olhos e boca são tampinhas de coca-cola. Apesar da beleza intrínseca da obra, que foi usada como bonecão no carnaval de Olinda, os veteranos da Guarda de Ferro trucidaram-na na primeira oportunidade, quando a segurança no palácio dos Congressos de Bucareste foi diminuida.

201. Onde nascem as coxinhas: Bueno DOCG

A gastronomia não é o forte do GB, mas eis um artigo que certamente irá parar nas páginas da Criativa (?) ou nos dará um quadro no programa da Palmirinha Onofre: Turismo e culinária ou Turismo gastronômico.

* * *

Por incrível que possa parecer, não se trata de uma irônia: as coxinhas, pelo menos as boas, têm um lugar de origem, nem que seja simbólico. U’a Meca da coxinha? (espero que nenhum muçulmano leia o texto, senão, serei explodido junto com o cartunista dinamarquês). Sim, amigos, leitores e desafetos, existe u’a Meca da coxinha.
Bueno de Andrada é um distrito de Araraquara, Estado de São Paulo (ca. 275 km a NO da Capital); do centro da cidade ao distrito são cerca de 12 ou 13 quilômetros. Bueno, como é mais conhecido o lugarejo e assim é nas placas indicado, acessa-se através de uma estrada secundária, como quem sai de Araraquara em direção a Matão e Jaboticabal; pela via, muita plantação; não é como na Capital, onde os bairros se sucedem e se atropelam sem que se perceba: há uma grande área vazia entre os bairros periféricos de Araraquara e a sede do distrito de Bueno.
Que encontramos lá? A certa altura da estrada, um desvio; desvio que, umas duas centenas de metros depois, se torna a rua principal do lugar. À esquerda, a linha férrea, por onde hoje transitam somente os trens de carga, uma simpática estaçãozinha que atualmente abriga uma agência dos Correios, o cartório e a sede da sub-prefeitura de Bueno. Na rua principal, seguem-se quase uma dezena de lanchonetes e mais umas cinco barracas. Todas vendem a legítima coxinha de Bueno. Segundo dizem, somente um local é o verdadeiro mantenedor das legítimas, um pequeno bar de balcão de madeira e prateleiras velhas como o mundo, porém, como ainda não inventaram o selo de qualidade para as coxinhas de Bueno e muito menos uma denominazione d’origine controlata e garantita para as benditas, todos alardeiam as suas como sendo as legítimas por meio de placas e faixas com letras garrafais.
Consideremos, por concentração, que todas são legítimas e portadoras de uma ‘Bueno DOCG’.
Terça-feira de Carnaval, fim de tarde. Ei-nos em Bueno de Andrada. Pedimos as coxinhas numa barraca que tinha mesa de plásticos. A dita vetusta lanchonete detentora da ‘Bueno DOCG’ tinha uma fila pantagruélica; ficamos com a genérica. Servidas numa cestinha de vime, vieram fumegantes, imensas e douradas. Os guardanapos que forravam cesta por dentro estavam praticamente secos, o que significava que as coxinhas não iam fazer doer o fígado pelo excesso de óleo: estavam sequinhas. Sequinhas e crocantes.
De fato, mídia a parte, pois me parece que as famosas coxinhas já foram inclusive divulgadas pelo Polvo global, as coxinhas são realmente magnânimas. Depois de experimentá-las, você nunca mais terá coragem de atirar olhares famintos a coxinhas de rodoviária ou àquelas coxinhas solitárias, habitantes de estufas em botecos poeirentos das longitudes urbanas. Nada.
O que pode ter uma coxinha para torná-la algo especial? Não sei se há algum macete nas ‘Bueno DOCG’, ou magia, dedo maçônico, aldrabices comunistas. Não sei necas; só sei que são muito boas. É lá, meus amigos, no lugarejo de Bueno de Andradas, encravado em Araraquara, que moram as coxinhas.
O único porém de Bueno são os mosquitos (ou seriam mutucas e borrachudos) que são vorazes pelo sangue dos que se alimentam das coxinhas; ao entardecer, vêm numa nuvem ao pacífico distrito.

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