Casa nova

Estamos de casa nova: Hepáticas.

243. “Qui ens aclarirà amb què se’n van les taques de cafè?”

Meus amigos, meus poucos leitores

É comovido que vos agradeço a audiência, a paciência que dedicastes aos meus textos. Não são a melhor coisa do mundo, bem o sei, mas me esforcei para que fossem o mais interessante e bem construídos o possível. Deixo de escrever temporariamente; mas será uma pausa longa, no mínimo de um ano e alguma coisinha, tempo que creio necessário para pôr as coisas da vida em ordem.
Bons textos ou textos que sejam interessantes, às vezes nos vêm subitamente. Outras muitas vezes, uma idéia interessante tem de ser trabalhada, como o mineral bruto, até que seja o metal que dará vida a algum artefato útil, seja moeda, seja parafuso. Não quero escrever tão-somente por fazê-lo, por isso a necessidade imperiosa de parar.
Também não tenho o ímpeto ‘bloguicida’ e, por um certo sentido de auto-preservação e de apegar-se aos cacos, o blogue continuará aqui, como um memorial a não sei o que ou como uma cidade bombardeada. Os comentários ficaram destravados e, se quiserdes entrar em contacto, bastará escrever.

Um abraço a todos,
Sérgio

P. S.: como música de encerramento, poema sinfônico “Finlândia”, do Jean Sibelius.

Mr. Otto in Olympics por Bruno Bozzetto

Aproveitando todo chilique e frenesi por causa das Olimpíadas, um videozinho bonitinho para relaxar de tanta gente suada correndo, batendo-se, correndo atrás de bolas e fazendo contorcionismo.

242. Ladeira General Carneiro, 06:45

As primeiras pessoas desembarcadas dos ônibus que as trouxeram do subúrbio começam a subir a ladeira. E a descê-la também. O movimento começa. As primeiras lojas começam a erguer ruidosamente suas portas de aço. Os camelôs montam suas barracas de quinquilharias várias. De uma porta estreita, esmagada entre duas lojas, um homem obeso empurra seu obuseiro da batalha diária. Alta qual um homem e coberta de chapas de aço, a máquina desliza sobre suas rodinhas; é uma máquina, ou aparenta sê-lo. Com um toco feito de caibro – de algum telhado desmanchado nas redondezas – o gordo estanca a sede de correr ladeira a baixo da máquina. Volta à portinha e de lá vem com uma grande caixa de papelão cuja face aberta está tampada por uma folha de jornal. Da caixa, cheia e manchas profundas de gordura e poeira, emerge um espeto de carne, cilíndrico, de quase um metro, um cilindro feito de raspas de carne. O gordo encaixa-o à máquina, acende-a – antes, liga o gás – e, com um motor elétrico, o espeto começa a fazer o mundo girar ao seu redor. Será repasto de muita gente, aqueles nacos gordurosos de carne salgados e apimentados, dentro dum pão, acompanhados ainda de um suco amarelo.

241. Fomes

I
Tem fome, mas não de comida. Tem fome de espaço livre pròs olhos, caminhos sem pedras pròs pés. Tem fome de cousas que se vão ao longe, fome de silêncio e fome de tempo. Há fomes que se curam com meio quilo de arroz-e-feijão; estas não se alteram com o alimento. Fomes que engrossam cadenas, incham sapatos, de multiplicar papéis, chuvas torrenciais e ônibus que nas enxurradas navegam. Fome de liberdade, da qual só há farelos miseráveis e sujos na ganga do cotidiano de esvaziador de fossa. Almoço? Um prato de ponteiros de relógios velhos temperados com sal-de-olhos.

II
Ah, os meus olhos castanhos, verdes e azuis. Quantos são? Não importa. São humanos, mas multifacetados como o dos insetos que vêem em mil direções as luzes, mas nada distinguem. Meus olhos cheios de heranças de outros povos, de caravelas, de machados e legiões. Têm fome também, de luz e de mar e de sol. A nuvem de fumaça de diesel oculta alguns raios de sol.

III
De que adianta tão colossais esforços? Na vida moderna, trabalhamos qual hércules e vivemos qual vermes, escondidos na água turva das multidões. Querem o couro, querem o sangue, querem os ossos. E, se não bastassem, querem a consciência e querem a opinião, amoldada a seus propósitos. O convívio irritante; e dos ossos, fazem-se botões.

IV
Se dentro dentro de uma represa há bilhões de copos d’água e, em cada copo d’água há trilhões de singelas moleculas, cada uma composta por três átomos (tão-somente três, o três suficiente): um de hidrogênio e dois de oxigênio. E se nesse elemento primordial, esse tal hidrogênio que tudo forma e em tudo está, se dentro de seu núcleo ainda intangível à opticocuriosidade humana (esses aprendizes de São Tomé), houver um pequeno borrão que se vai definindo, definindo e, veja, que curioso! Se parece com uma galáxia presa num pingo d’água. Mas como algo tão minúsculo pode estar profundo em uma das partículas inomináveis nas quais se divide o núcleo de um átomo?

V
Se me permitem, o próprio nome átomo é uma incoerência, pois significa em grego, justamente “indivisível”. Veja como a enciclopédia diz-se dividida em ‘tomos’.

VI
E no fundo desta espiral afogada na água elétrica nuclear, manchas menores se vão distinguindo e, que coisa, parece outro átomo, com um núcleo brilhoso e com corpúsculos que lhe giram ao redor. Curioso que o microscópio eletrônico pontentíssimo (pontentíssimo como nunca haverá) manda a informação que cada corpúsculo tem uma cor diferente e o analisador de aceleração detectou que têm órbitas e velocidades ligeiramente diferentes. Aproximou-se o foco no terceiro corpúsculo e viu-se que ele tinha a cor azul-cerúlea e manchas de cor variegada. Ampliou-se mais e surgiram ilhas de matéria semelhantes a continentes e a mancha azul como um grande oceano. Aproximou-se mais e viu que, na face escura, estranhos fenômenos de luminiscência ocorriam, como se fossem um ataque de fungos que, espalhando seu micélio e sua hifa, brilhasse no escuro. Qual a sensação quando se viu, aproximando mais que, ao que parecia, existam colônia de infinitesalmente minúsculos organismos. Algum tipo de vida nunca imaginada habitava aquele rincão de átomo, menor do que qualquer coisa que jamais foi vista pelo olho humano. Que surpresa quando, o microscópio aumentou ainda mais sua ampliação e foram vistos filetes pretos como estradas e corpúsculos retangulares que ali iam, ordenadamente, como carros. E o susto e o colapso do espaço-tempo que se sucedeu e a implosão nunca possível e nunca relatada pela engenho humano, que se sucederam à vista de uma pequena placa verde que dizia: “Caminhões mantenham a direita”.

VII
E o ônibus, com sua roda de borracha vulcanizada, joga para a calçada o oceano formado pela água da chuva, tributário do Tietê e do Tamanduateí.

VIII
A chuva que cai sobre o prédio do Correio central, gelada, tudo empapa. Vão-se criando líquens microscópicos que não sobreviverão ao pó preto soltado pelas máquinas de locomoção. Quantos virabrequins, quantos carburadores, não é? A tantos reais cada um. Uma pequena e considerabilíssima fortuna. E a tudo isso, os vidros ficam indiferentes, salvo que algo seja lançado em sua direção.

IX
O vidro sempre foi algo que me chamou a atenção. Certa vez, li numa revista de ‘ciência’ que alguns cientistas britânicos haviam descoberto que o vidro era fluido como a água. Uma lâmina feita de água, como a lastra de vidro de uma janela, não agüentaria alguns milissegundos numa estrutura estática (em condições de pressão e temperatura normais, não gelo), arrebentaria redondamente, como somente a água pode fazer. O vidro é como a água, mas o seu arrebentar redondo pode levar milhares ou milhões de anos. Os britânicos citados dizem isso baseados na medição dos vitrais de uma catedral francesa (Chartres?), nos quais, as lâminas que os formam estão mais espessas na parte inferior do que na superior, nanometricamente falando.

X
Jean Verre tinha esse nome porque seu ofício era trabalhar o vidro: colori-lo para os vitrais, soprá-lo para fazer objetos. Acreditava, sob os auspícios de Cristo e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, que uma das maiores conquistas humanas era o transformar areia em vidro, esse gelo fantástico e belo, misterioso no seu jogo infindo de luzes. Jean enganou-se e morreu, não por causa do engano, certamente. Séculos mais tarde, descobriu-se que o mais antigo (por tanto, que tem a primazia) produtor de vidro não é o homem, mas sim uma família de seres minúsculos, de cuja existência nem se falava, e muito menos se imaginava, as diatomáceas que produzem uma caixa redonda, uma secção de cilindro, para proteger-se, e essa carapaça, similar a uma peça de dama, é de vidro. Um delicadíssimo e natural vidro.

XI
Segundo obscuras fontes, algumas algas unicelulares também sintetizam vidro a partir de silicatos da areia do mar; a produção deste vidro a partir da “chemie douce” seria, em volume, superior à produção humana do material. Vidro a partir de seres que vivem na água. Se um dia o homem conseguir usar essas algas e essas ditomáceas para produzir vidro, acabar-se-iam aqueles fornos e o vidro fundido a uma temperatura absurda. Foi a massa plástica de vidro que queimou os dedos de Jean até que eles se tornassem insensíveis e que também secou-lhe um dos olhos. Jean jamais viu o delicado estojo produzido pela Cyclotella meneghiniana, de poucos mícrons de diâmetro.

XII
Espantoso como as coisas mais fantásticas vêm da água, como esse vidro natural, feito por uma alga. Isso tudo até a nova implosão que será causada ciclicamente pela descoberta de um novo universo dentro das divisões atômicas do hidrogênio que compõe a água. Possivelmente, todas as maravilhas naturais são fruto de pequenas (no tamanho) civilizações subatômicas que se escondem nos átomos e são, por estarem num átomo universal, fonte infinita de idéias fantásticas. Civilizações que, por sua infinita fome de conhecimento, mandam sondas e coisas a explorar o espaço externo e muitas dessas coisas tomam vida própria e se tornam milhões de vezes maiores do que a civilização que o criou. Também as nossas idéias costumam ser (por mais medíocres que sejam), maiores do que nós mesmos. Quantos moles não ocuparia uma mísera idéia safada, ou uma intenção escusa?

XIII
Nos laboratórios secretos, incrustados num bunker sob algum deserto terrestre (ou até mesmo na lua), alguns cientistas apátridas (pois assim são obrigados a sê-lo) e ateus, conseguiram desenvolver um ampliador de matéria. Essa máquina amplia a matéria a ponto que coisas ridiculamente pequenas possam ser vistas a olho nu. A primeira experiência foi com uma cápsula vazia de Cyclotella meneghiniana. Após algumas horas de procedimento radioativo, apresentou-se diante dos olhos famintos dos cientistas, algo como dois grandes pirex, encaixados, redondos e chatos, como dois pratos de vaso, de vidro grosso e liso. O problema é que a estrutura atômica ampliada não resistia muito tempo ao inchamento de sua estrutura atômica (que consistia em inclusões de vazios entre a estrutura nuclear dos átomos) e implodia. Maravilhados, os cientinstas tentaram fazer o mesmo com um átomo de água, para, finalmente, poder examinar o que é um átomo, para assombro do mundo. Ligaram a máquina e puseram-se a esperar no ambiente: um foi fumar, o outro, ler um relatório, outro foi escrever (não conatava para ninguém, mas era poeta). Passadas as horas prescritas para o funcionamento eficaz da máquina, os cientistas abriam-na e o átomo de água não se havia ampliado. Ou melhor, havia sim, mas por uma falha do aparelho, ampliara todos eles e o laboratório em escala retorcida. Um deles percebeu porque seu braço afinou até sumir na extremidade, enquanto coxilou, ficando parecido com um lápis apontado. Não deu tempo para mais nada, suas estruturas atômicas (coisas e seres) implodiram por causa dos vazios instáveis.

240. História particular

Pequeno adendo antes da leitura: não pense, eventual leitor, após a leitura, que o relato abaixo vem de alguém que tenha orgulho de suas origens “européias” e limpinhas. A Europa da qual descendo é a Europa da guerra, da fome e da miséria. A sua também, descendente de italianos ou alemães; escória somos, escória seremos. Algo que me irritaria profundamente seria ser posto junto a essa escumalha de colônia que vê os países como são hoje e usam tal fato para jactanciar-se.

(Somos de la sexta, sexta división.)
A musiquinha ficou ecoando na minha cabeça a cada tecla batida. Espanha é um assunto que me intriga. Não gratuitamente. Muitos de nós, brasileiros – melhor, não tenho autoridade para falar por todos os brasileiros, digo então, paulistanos, melhor – então, muitos de nós, paulistanos, acabamos por interessar-nos por um país estrangeiro, geralmente pelos aspectos positivos. Vejos os descendentes de italianos, que se vangloriam do que a Itália é hoje. Mas e a Itália que os seus antepassados deixaram? Essa simplesmente não existiu. No meu caso, sou descendente de espanhóis, mas que me atrai na Espanha, não é a Espanha como ela é hoje, integrada na União Européia, é a Espanha de antes, a perdição da Europa, a Escandinávia do Magreb. Quero saber da Espanha histórica, real e sangrenta, que teve sua república dilacerada.
Minha ligação com a Espanha é mais do que sangue, é história, coisa que supera qualquer carga genética.
(Negras tormentas agitan los aires, nubes oscuras nos impiden ver.)
Minha história começa quando Francisco Franco, o oficial baixote e atarracado subleva as guarnições espanholas do Marrocos. Pois é, meu avô estava lá, às vésperas de acabar o serviço militar. Teve de ficar os três anos da guerra com o Franco. Os que não estavam de acordo? Bem, caso falassem, terminavam crivados de balas. Meu avô, galego como Francisco Franco, foi um dos “moros” que subiu do Marrocos a Espanha, aos quais gritaram e cantaram “¡No passarán!”; e passaram. Meu avô não gostava do Franco, mas era apolítico, tanto que não ia com a cara do Azaña também. Não sei se ele estava presente à tomada de Madri. Infelizmente, são detalhes que ele levou consigo para a cova antes que a minha curiosidade despontasse.
(Cara al sol con la camisa nueva, que tú bordaste rojo ayer.)
Sei que, quando foi depois do 1º de abril de 1939, quando a maioria das tropas foi desmobilizada, largaram meu avô mais outros na Extremadura; ele e mais um grupo de galegos (o número varia de acordo com quem conta a história, entre quatro e oito) subiram até lá a pé.

[continuará…]

239. Comercial de repolho

Comercial de repolho

Que novas que ventam desde a rede!
Vejo um antigo comercial de repolhos,
repolhos tchecos e socialistas,
com gente alegre e camarada.
Atrasados e estragados;
pois o socialismo
estragou-se antes dos repolhos.

de Postais da França, de Enrico Lupini
(Trad. Isaías Florentino, Editorial Moinho: Ferrol, 2007)

Muitos dos meus leitores sequer ouviram falar de Enrico Lupini. Eu também, confesso, que o conheci há poucas semanas: encontrei um livro seu num sebo de São Paulo. Trata-se de um obscuro autor italiano, siciliano. Nas orelhas do pequeno volume mal encadernado por uma editora galega de fundo-de-quintal localizada em Ferrol (cidade natal de Francisco Franco) e publicado em português por uma editora que se intitula “reintegracionista”; por isso a forma portuguesa da tradução.

As informações sobre o autor são poucas, nascido em Serradifalco (província de Caltanissetta, Sicília), Itália, em 1978. Ganhou duas edições do Concurso Literário da Comuna, tendo seu primeiro livro de poesias e crônicas curtas sobre a vida siciliana e italiana, Cartoline francesi (traduzido como Postais de França) publicado às expensas da administração comunal em 2002. A única publicação feita em língua estrangeira foi feita pela editora de Ferrol, em português. Seu segundo livro, Mille gennai, aguarda publicação também pela Administração comunal.