27. Memórias do pós-guerra

Helmut und mich.

Quando a guerra acabou, eu e Helmut saímos da Alemanha. Não que fôssemos do primeiro escalão, muito pelo contrário, eramos uns dos tantos pé-rapados e borra-botas da Wehrmacht, mas o que nos deu muita má fama na nossa aldeola da Baviera do pós-guerra.
Fugimos juntos porque sempre fomos amigos, na aldeola e no Exército. Fugimos para uma outra aldeola do interior da Espanha franquista, onde nem os habitantes sabiam o que eram alemães. Gostava muito de Helmut, mas a guerra o traumatizou. Uma vez que estávamos no café e alguém citou a palavra guerra (isso foi em 17 de abril de 1947), ele tirou do bolso das calças ou do bolso do casaco um nariz de palhaço – eu sempre jogava fora quando os achava pela nossa casa, mas parece que Helmut os fazia brotar da terra – encavalou-o no nariz e saiu de mesa em mesa cantando o Panzerlied – «Ob’s stürmt oder schneit, / Ob die Sonne uns lacht…» – e roubando os cigarros apoiados nos cinzeiros alheios, fumando-os numa única tragada enquanto cantava. Os espanhóis ficavam paralizados nas suas mesinhas . – «Der Tag glühend heiß / Oder eiskalt die Nacht…» – O padre do lugar já havia me perguntado se Helmut estava possuído por alguma coisa e ele prontificava-se a mandar chamar o bispo. – «Bestaubt sind die Gesichter, / Doch froh ist unser Sinn…» e tossia com a fumaça. Quando passava por todas as mesas, sentava-se de volta na nossa, atirava o nariz de palhaço no meio do passeio público, cantava mais dois versos da canção – «Ja! unser Sinn; / Es braust unser Panzer…» – e retomava a conversa exatamente de onde havíamos parado. Os freqüentadores do café entreolhavam-se sempre pasmados.
Isso aconteceu mais duas vezes. Depois disso, Helmut sumiu – era pouco discreto, convenhamos – e eu mudei-me de cidade, fui para Saragoça. Acharam o corpo uns meses depois, mas a Polícia não deu muita bola. Helmut foi enterrado como indigente em algum cemitério clandestino da Guerra Civil, há uns dez anos desativado.

One response to “27. Memórias do pós-guerra

  1. solitário, frio, seco… com um toque de absurdo.

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