57. Bom princípio de ano-novo

O primeiro dia
(Sérgio Godinho, In: Pano cru, 1978)

A princípio é simples anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida,
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo,
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo,
diz-se do passado que está moribundo,
bebe-se o alento num copo sem fundo.
E vem-nos à memória […]

E é então que amigos nos oferecem leito,
entra-se cansado e sai-se refeito;
luta-se por tudo o que leva a peito,
bebe-se, come-se e alguém nos diz bom proveito.
E vem-nos à memória […]

Depois vêm cansaços e o corpo frequeja,
olha-se para dentro e já pouco sobeja,
pede-se o descanso por curto que seja,
apagam-se duvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória […]

Enfim duma escolha, faz-se um desafio:
enfrenta-se a vida de fio a pavio,
navega-se sem mar sem vela ou navio,
bebe-se a coragem até dum copo vazio.
E vem-nos à memória […]

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza,
nasce um novo dia e no braço outra asa,
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória […]

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