58. De bello iraquiano

Saddam durante julgamento.

«Eo postquam Caesar pervenit, obsides, arma, servos, qui ad eos perfugissent, poposcit.»
(«Depois que César chegou ali, exigiu reféns, armas e os escravos que tivessem fugido para eles.»)

(«De bello gallico», Liv. I, cap. XXVII)

Saddam está morto. Pode ser que alguns estadunidenses respirem aliviados, achando que sua missão como polícia do mundo foi mais uma vez bem cumprida. Assim como se tentou bem cumpri-la no Vietnã e bem feita foi na Coréia.
Saddam está morto. Subiu ao cadafalso com a cara descoberta, enquanto seus carrascos, certamente com medo das represálias, esconderam-se sob máscaras pretas, o que lembrou os carrascos medievais ou uns criminosos comuns, com medo de serem identificados.
Saddam está morto. Não vou defendê-lo. Ele é indefensável. Matou gente, isso bem se sabe. O problema, como temos o costume de dizer, é mais embaixo. O processo judicial que apontou Saddam como responsável pelo massacre de 148 muçulmanos xiitas em Dujail, em 1982 e por continuadas operações contras essa maioria, configurou algo como um genocídio. Saddam Hussein está morto. Não me lamento por ele, a quem ponho no mesmo degrau do General Pinochet. O problema foi quem o mandou matar.
Quem teria jurisdição para tal seria o povo iraquiano, fosse por seus representantes eleitos, fosse por insurreição popular. Nem um, nem outro, bem se o sabe. Saddam foi morto pela mão oculta dos americanos, que manipularam todo o processo de democratização do Iraque: invadiu um país que está fora de sua jurisdição (parece óbvio, mas sinto necessidade de dizê-lo), pois, ao que me consta, os cidadãos iraquianos não elegem o presidente estadunidense; destruiu esse país em nome da democracia. A democracia em prol dos americanos; a democracia pelo petróleo. Invadiu-se um país em nome de falsas premissas. Tratou-se de hedionda covardia dos americanos em atacar um país que não tem condições, praticamente, de defender-se. As armas químicas não foram achdas. Senhor Bush, senhor Blair: onde estão as armas químicas, tão propaladas e alvoroçadas pela mídia? Não se achou nada. E caso existissem de fato, os Estados Unidos ali não poriam suas botas cardadas. Quero ver o Senado americano aprovar uma invasão à Coréia do Norte, ou ao Irã, pois eles têm, de fato, o que se anuncia que têm.
O que se achou, ao cabo de alguns meses, foi um ex-ditador reduzido aos farrapos e enfiado num buraco com algumas centenas de milhares de dólares. Quando enforcarão Bush e Blair? O Iraque terá direito de ingerir-se nos assuntos da Águia Malévola para enforcar o seu mandatário com cara de mico-de-circo? E nas questões intestinas da Perfidiosa Albion? Poderão os iraquianos mandar à forca ou ao paredão Tony Blair pelos crimes de guerra por ele impetrados? Pagarão suas contas devidas Itália, Espanha e Austrália? Claro que não, certamente que não.
E quanto à inação das Nações Unidas? Que sabe muito bem punir com sanções o Irã e a Coréia do Norte, mas quais sanções sofreram os Estados Unidos pelas invasões ao Iraque e ao Afeganistão? E a Grã-Bretanha? Nenhuma, claro, pois são essas nações que detêm o poder da ONU, que tem se mostrado tão atuante quanto a Liga das Nações ao tentar remediar os conflitos que deram origem à Segunda Guerra Mundial e decretou sua falência. O novo Secretário-Geral não dará jeito, pois, evidentemente passaram pelo crivo do Conselho de Segurança e, representa em parte, interesses neutros. Somente um paliativo. O Secretário-Geral da ONU, assim como o plenário, são meras representações. Sabe-se muito bem que quem manda são os membros do Conselho de Segurança.
Saddam não morreu porque era um ditador tacanho e sanguinário. Saddam não morreu pela aurora da democracia. Saddam morreu porque era um obstáculo à política dos Estados Unidos para a região, morreu porque os Estados Unidos não tinham ali, accesso irrestrito ao petróleo. A democracia ali, implantada aos moldes ocidentais, está condenada ao fracasso e, em breve, levará o Iraque ao fraccionamento e à guerra civil.
Não defendo Saddam Hussein, como já disse. Mas quero saber quando os chefes da Coalizão Anglo-Americana serão responsabilizados pelos seus crimes de guerra. O fato deles terem sido eleitos democraticamente – até onde sabemos, mais duvidoso no caso americano e seu duvidoso sistema de votação – não lhes dá plenos poderes para investir contra nações estrangeiras.
Não há inocentes, somente culpados; então, punição para todos. É o justo.

2 responses to “58. De bello iraquiano

  1. nem sempre que a gente sai do buraco a vida melhora, disse saddam.

  2. Terminamos o ano de 2006 com quatro ditadores a menos: Milosevic, Stroessner, Pinochet e Saddam. Fidel por pouco não se foi. Belzebu deve estar tendo trabalho, se formos pelas crendices cristãs. Mas, como o Orlando, eu também tenho as minhas dúvidas.

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