143. Sonho n.º 1

Era um baile de gala; gente bem vestida e fútil, jogando conversa fora, espalhando veneninhos da sociedade enquanto seguravam uma taça de prosecco; quase sempre a casta de uva vêneta do vinho era mais nobre do que a mão que ergue a taça.
Num canto do grande salão, junto onde há um palco e uma banda canta um pseudo-rock água-com-açúcar, entra uma limusine branca. Era ele. O esperado. É o húngaro anão, tradutor das Cantigas e Lamentos dos Comedores de cebola da Lusácia (Codex Lusatiensis). Vida curiosa a desse anão húngaro: ele foi garçom boa parte da vida e começou a tradução das cantigas eslavas por acidente e diversão; achou uma edição fac-similada do Códice numa loja miserável do lamacento vilarejo húngaro onde vivia e era garçom numa taberna estatal.
Hoje ele chega à festa de limusine, em trajes de garçom de gala, para lembrar o passado. Ao seu lado um grande e gordo negro arruma-lhe a gravata borboleta.
Levanta-se e mal se vê; é húngaro, mas tem a pele tisnada e lembra muito o Tatu da Ilha da Fantasia. Sai com seu passo curtinho do automóvel e vai até uma escada que leva a uma plataforma presa a um elevador. A plataforma alça-se lenta com o ranger dum motor elétrico e todos os convivas, de prosecco na mão, param para ouvir o grande tradutor húngaro. A bandinha cessou a música sebosa.
O pequeno húngaro olhou com os olhinhos miúdos e bovinos aquela gente toda e não conseguia começar a falar. A banda resolveu ajudar puxando um “fala, fala, fala!” acompanhado por instrumentos. O tradutor não se decidia e quando arriscou a primeira sílaba do que pretendia falar, a banda atacou de novo uma cançãozinha ligeira e instrumentada: “fala logo, quiabo! fala logo, diabo!”.
Virou-se para a banda, o tradutor diminuto, e disparou: “Calem a boca ou eu desço aí para arrancar os dentes de vocês no soco”. Os da banda pararam imediatamente e ficaram com uma terrível expressão de medo.

4 responses to “143. Sonho n.º 1

  1. mas você TEM CERTEZA que está mesmo tudo bem aí?

    (aw, apaga o último comentário. nick errado.)

  2. Meu anão inesquecível é o Fischer, em “Auto-de-Fé”.

  3. Você já leu um conto chamado “Os Canibais”, do Álvaro do Carvalhal?

  4. anão, limousine, garçom, tradutor… toda essa imagem me fez lembrar que ainda não sei o que Claudia Roquette-Pinto quer dizer ‘E’ se quer dizer…

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