169. Gramática particular: verbos

Os verbos são importantíssimos para a língua; ao que me parece, não há língua natural ou fruto do engenho humano que ende seja desprovida. Cada núcleo, ou seja, cada unidade de significação composta, tem o seu. Com raras exceções, como gritos de pavor ou interjeições súbitas, os verbos são impreteríveis. Podem ser transitivos direitos ou indiretos, intransitivos, bitransitivos, pronominais, defectivos, irregulares, ou seja, a fauna é vasta.
Melhor ainda são os verbos que a língua gera ou incorpora a partir de palavras de outras classes gramaticais do próprio português ou de línguas estrangeiras. Certo que praticamente todas as novas criações sejam de primeira conjucação, do comuníssimo sufixo -ar, mas, usando de meia dúzia de palavras e radicais, gera-se praticamente qualquer verbo.
Há verbos derivados de substantivos já há muito incorporados à língua, como colar (de cola), calcular (de cálculo). Nada impede de, na criação artística que usa como matéria-prima a língua, a criação de verbos de sentido exato e único para a completude da idéia de ambientação ou descrição detalhada para melhor compreensão por parte do leitor. Por exemplo, para descrever o ruído dos passos de personagem que calce tamancos de madeira. Há tamanquear. Mas por que não poquear, onomatopaico? Ou coquear, fazer barulho similar ao choque entre cocos; e o “e” de coquear, justifica-se pela alterção da vogal em coqueiro.
Ainda é válido dizer que o limpador de vidros aranhava-se pelo prédio, descendo pendurado como uma aranha que desce pelo fio da teia. É não somente válido, mas tem seu significado depreendido com pouco esforço.
Também de verbos existentes é possível substituí-los por novos, criando construções originais, exatas e até mesmo lúdicas. É certo que existe o verbo cacarejar, ação dos galináceos a emitir som; também se pode aplicar o verbo para um rumor de conversa, mas cujo sentido prejudicado pelo ruido direto da imediata associação ao substantivo designador do animal, galinha, cujo sentido pode ser ofensivo. Caso o viés não seja necessário, pode optar-se por cocorocar, também onomatopaico, mas cuja a associação remete primeiro ao som, à associação com o ruído produzido pela galinha e, somente depois, ao animal, situação em que o possível sentido ofensivo é diminuido.
Verbos extraídos diretamente do latim parecem interessante e reforçam parentesco com as irmãs neolatinas, como, por exemplo, a construção duzir, oriunda do verbo latino ducere (levar, portar), presente em verbos como conduzir ou induzir. Em estado puro, inexistente no atual estágio do nosso romance, pode ser usada com a acepção que lhe foi atribuída no catalão dur (derivado de ducere também), de trazer consigo: “Duzia um ramo de flores”, “que bela camisa duzes!”, sendo polissêmico, substituindo, nos dois exemplos, trazer e vestir (trazer vestida), respectivamente. Aqui, fica a dúvida se o verbo é uma recriação a partir de um verbo latino, ou, se é simplesmente um verbo catalão adaptado.
E mesmo nos verbos existentes, prefixos têm importante ação para novas criações verbais. Por exemplo: alfabetizar; se o sujeito vai desaprendendo as coisas, passando de uma situação de conhecimento para uma de desconhecimento, faz-se um simples decalque: considerando que existe a palavra alfabetizado e seu oposto, analfabeto, é conveniente usar analfabetizar(-se). Exemplos com prefixos há no próprio vocabulário canônico: andar/desandar, fazer/desfazer, dizer/desdizer.
A imitação de expressões populares é fonte de grande riqueza vocabular. Quando alguém está parado inativamente quando deveria estar a agir, dizemos que esse alguém está ali “feito um dois-de-paus”, referência a carta de baralho. Podemos extrair da expressão, por exemplo, baralhejar, visto que baralhar e a forma prefixada embaralhar já existem e têm significado bem determinado na língua; o infixo -ej- presente no sufixo verbal -ejar, indica justamente aspecto freqüentativo; então, baralhejar pode ser aplicado à inação do sujeito quando era hora de agir: “Diante dos destroços na selva, Gumercindo baralhejava desconsolado”.

9 responses to “169. Gramática particular: verbos

  1. Diz o Leonard Bernstein que, numa possível homologia entre música e língua, os substantivos se ligam aos motivos melódicos; os adjetivos, a seu ambiente harmônico; e os verbos, ao elemento rítmico. Movimento.

  2. Andou lendo muito o Mioto. Texto Genial.

  3. Texto interessante. Muito interessante!
    A minha namorada vai adorar este texto…
    Abraço!

  4. eu gostei muito deses verbos

  5. quando os gatos sai os ratos fais a festa.

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