188. Árvore?

Quem passou nestes últimos dias pelo viaduto do Chá e pelo começo da rua da Consolação viu a que ponto o políticamente-correto e a histéria pela reciclagem podem chegar.
A Caixa Econômica Federal – pelo que pude ver com o coletivo em movimento – “decorou” alguns pontos da cidade com “árvores” de Natal. Não bastasse a horrenda decoração que polui ainda mais a cidade a estas épocas, a Caixa não pôde deixar de dar o seu contributo à fealdade urbana. Sob os auspícios da instituição financeira, foram montadas estruturas que são tetraedros alongados, com algo entre 3,5 e 4 metros de altura. Cada uma das faces foi decorada: uma recoberta com plástico verde, aparentemente, majoritariamente garrafas de politereftalato de etila (PET) verdes; outra face decorada com garrafas e bujõezinhos azuis de polipropileno (?), quase todos embalagem de amaciantes para roupas; e a última face tem a superfície composta por retalhos de madeira. No alto da horrenda árvore, no lugar da tradicional estrela, um sólido vermelho triangular: o símbolo internacional da reciclagem.
Até quando abusarão da nossa paciência? Volta e meia põem-nos horríveis abortos que tentam conjugar num único corpo espírito artístico (qual?) e utilidade prática; a idéia de mal gosto da Caixa ainda tem o infeliz nuance de tentar ser um símile da decoração natalina. É a nova moda: “os nossos arranjos de Natal são cem-por-cento recicláveis”; pena que os cérebros dos banqueiros não o é. Creio que o empesteamento natalino espalhado pela Caixa seja a linha C, comparado àquele do Banco Real, do Banco de Boston e do Bradesco. Com os lucros arrancados aos correntistas, erguem verdadeiros palácios de plástico, isopor, terciopelo e purpurina que arrastam até às suas agências da avenida Paulista legiões de máquinas digitais para fotografar as hordas de bons-velhinhos e duendes natalinos. Quanto ao Cristo, pobrezinho, ninguém se lembra dele; continua a sangrar, dependurado nas cruzes das igrejas ou nas representações mortuárias jacentes.
Pergunto-me qual a relação – por mais tênue que seja – da árvore de lixo da Caixa com o Cristo? Sinceramente, não vejo a hora que algum desses mil tarecos plásticos pegue fogo no ponto onde está e deixe, sobre a calçada, a poça rígida de plástico derretido; aí sim, teremos algo mais artístico que lixo empilhado ou o costumeiro, enfadonho e empoeirado papai-noel de mil Natais.

10 responses to “188. Árvore?

  1. esse lixo todo é a nossa fartura!
    e imagine daqui a uns 20 anos: os mares parecerão aquelas piscinas de bolinhas coloridas que há em festas infantis, só que com embalagens plásticas boiando à beira da praia.

  2. Mas isso é muito ódio no coração. Não gostou mesmo das alegorias natalinas de cunho descartável-reciclável e carnavalesco? Não tem problema, eles se livrarão delas a partir do dia 9 de janeiro colocando-as gentil e política corretamente embaixo de determinados viadutos na Radial Leste…

  3. rs Tá bravo!! Tem motivos! Concordo contigo, mas o que mais me irrita (mais que isso, me preocupa) é que tais manifestações do “politicamente correto”, de sentimentalismo e congêneres são sintomas do nosso povo (ou parcela influente dele) ávido por se sociabilizar. Para ser “civilizado” e se comportar “comme il faut”. Nosso complexo de subdesenvolvimento também aparece aí, e eu tenho tido a impressão de que, de uns tempos para cá, nossa classe mérdia (sempre ela) tem tomado mais fôlego nesse sentido. Não ela em si, que está sumindo, mas seus valores. Me parece que há uma crescente polarização entre os “civilizados” e os não, que elegem gente analfabeta e não se incomodam com o “absurdo que é esse país, que não tem nem malha aérea confiável”, sabe? É esse maldito povo emocionado que constroi e admira idiotices como essas de que vc reclama em seu texto. … acho que estou com sono! rs

    Ps – vc viu a decoração do banco Real??? É também gandiloquentemente idiota, mas com o agravante de que propõe ações para a sustentabilidade do planeta!! rs é divertido!! Nojento é o povo emocionado com seus filinhos, o futuro do planeta, aprendendo desde cedo esses valores!! hahaha

  4. Minha vó pendura pisca-pisca e bolinhas na folha de bananeira, ou de café, presentes no quintal dela. E ela nem é formada em Belas-Artes…

  5. Concordo, Dani, puro charlatanismo.

    Breno, você fez-me lembrar da turma do Greenpeace; imagino-os dançando ritualisticamente ao redor duma das “árvores”; parecem todos uns histéricos fugidos do hospício, são os profetas do apocalipse.

    É, Amanda. Tudo , absolutamente tudo, cedo ou tarde, vai enfiar-se sob o Guardalajara.

    É isso tudo que eu tento dizer, Thiago. E que digo sempre.

    A minha mãe também, Jeff. embora o coqueiro do meu jardim com pisca-pisca também é algo medonho.

  6. José Américo de Melo

    O Conjunto Nacional também está todo coberto dessas coisas corretas.
    Nesse limite do saco cheio, é como se cada pedaço de PET exposto como tento ou condecoração correspondesse a uma espécie exterminada a menos.
    Completando o cenário, embaixo, a banca do Unicef denota que tantas crianças sudanesas serão salvas se você comprar um cartão (“são tão bonitos!”).

  7. Bem, J. A., a decoração do Conjunto Nacional, digamos, está menos feia, não tenta emular nada e, de longe, lembra-me vidro; mas são as maleïdes PETs. Engraçado que na Páscoa não há papagaiadas recicláveis como as que acontecem no Natal.

  8. Ele há gostos para tudo!

    E depois… “tudo” é arte…

    Abraço!

  9. Pingback: Adendo à postagem 188 « Granada de bolso

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