195. Blogosfera, esse grande circo

Dia desses, conversava com uma amiga pelo MSN e ela queixou-se de que seu blogue não tinha muitos leitores e que andava às moscas; pensava em escrever algo polêmico para atraí-los. Após um breve instante de reflexão, pediu-me desculpas e disse que, em realidade, não se importava uma vírgula com os leitores, que eles se funhacassem.

E quereis saber? Acho que ela está coberta de razão. Se nos orientamos a escrever apenas aquilo que os outros querem ler, terminaremos num mundo cheio de escritos medíocres da mesma lavra de Paulo Coelho, Lya Luft, Içami Tiba e Roberto Shinyashiki.

Outra coisa em que me pus a pensar é: mas se nos propomos a escrever blogues, que são páginas públicas, por que não devemos escrever sobre o que os outros querem ler? Pondero: todos aqueles que escrevem um blogue têm, nem que seja abscôndito e reprimido, desejo de serem lidos; é óbvio que, em outras pessoas, o desejo é plenamente manifestado e procuram escrever sobre assuntos do dia para fazer saltar o contador e, quem saber, ganhar vinténs e tostões com o Google Ad-Sense.

Há algumas pessoas que escrevem por escrever, com a tênue esperança que o Google mande-lhe algum leitor ou mesmo que sobreviva o blogue com os poucos acessos dos amigos reais ou da rede que também mantêm blogues.

O blogue, como conceito que vem a erguer-se, é uma vitrina de vaidades; a blogosfera é algo sem oxigênio e insuportável, com algumas poucas exceções. Daí o preconceito todo com a palavra blogue; noventa por cento dos blogues são caraminholas adolescentescas que não duram dois meses, pois adolescente é já bicho pego pelo vírus da pressa, do consumo e da fatuidade. Sete e meio porcento dividem-se em assuntos polêmicos (religião, futebol, programas televisivos), dois porcento dedica-se à literatura alcoviteita dos ditos contos eróticos e coisa de um décimo porcento, dedica-se à literatura oca da “pós-modernidade”.

É fato que atravessamos grave crise cultural e identitária, tanto no Brasil como no resto do mundo. Que fazer? Não faço a menor idéia, mas, ter já consciência de que algo está errado e ter base para mudanças futuras, mesmo que demore.

Mas, voltando ao blogue em si, o blogue é uma virtrinazinha de mediocridades. Este – e principalmente este – blogue também não escapa à regra; não tenho pretensão alguma de ser juiz e promotor. Todos queremos parecer diferentes – o que tentamos manifestar por gostos diferentes daquele gosto que consideramos majoritário e, portanto, vulgarizado – mas terminamos no balde de merda da igualdade. Uns lêem mais e são mais intelectualizados e avultam sua personalidade ególatra; outros, escondem-se atrás da própria arrogância. Outros batem e saem correndo, mas, enfim, todos os blogues significam uma única coisa e têm por trás de si um único conceito: auto-promoção. Vivemos num mundo que pede que nos projetemos sobre e acima dos outros a cada instante, num senso de competição desmesurado; nem mesmo nossa intimidade e nosso lazer fogem a tal regra.

* * *

Aliás, a palavra blog, cuja origem desconheço e costumo aportuguesá-la para blogue, é ja estranha. Eu adotaria (como já cheguei a fazê-lo) a solução castelhana: bitácora, que em português daria bitácula. O termo, segundo o Houaiss, é do jargão náutico e indica a coluna lígnea ou metálica que encerra a agulha azimutal; servindo a tal agulha para marcar o azimute dos astros. Sozinha, a palavra seria assaz pretenciosa, mas o termo para blogue em castelhano é uma redução de caderno de bitácora, segundo o Diccionário de la Lengua Española da Real Academia Espanhola: “libro en que se apunta el rumbo, velocidad, maniobras y demás accidentes de la navegación”, mas condizente para blogue.

* * *

Blogosfera. Imagino uma esfera (que genial!) composta ou preenchida com blogues. Se os blogues, como o ar, fossem um gás (ou um conjunto deles), a blogosfera seria como a atmosfera de Marte: irrespirável.

9 responses to “195. Blogosfera, esse grande circo

  1. Perfeito, Breno. Mas se trata de uma palavra inglesa prefixada (certo?). Blog continua solta e indecifrável.

  2. José Américo de Melo

    Log: “A record of a ship’s speed, its progress, and any shipboard events of navigational importance; The book in which this record is kept.”.
    Adoro metáforas náuticas. De todo modo, web-logue é o diário dos navegadores www.

  3. Hum, elucidativo. Então bitácora e bitácula são decalques honestos e válidos.

  4. Bem, não sou lá um grande leitor de blogues (sic. rs!). Leio o teu e o do meu irmão. Mas não sei se eles necessariamente são mera auto-promoção. Talvez sejam em sua esmagadora maioria, mas isso, acho eu, está mais ligado ao espírito tolo de nosso tempo do que ao “formato” blogue em si. Uma época que cria tantos narcisinhos como a nossa tende a transformar tudo em ocasião para auto-promoção. Seja falando diretamente de si, seja mostrando suas “qualidades”. Mas isso também vale para a importância da moda, do piercing em lugar inovador, Orkut, tema da tese de mestrado, círculos de amigos, gosto para cinema, música, desprezo por tal música, comportamento … Na prática, mas não necessariamente, o blogue não é mais que mais um desses canais de expressão do si. Geralmente oco.

  5. Eu prefiro “tediosfera”. Calha melhor.

  6. Eu digo de forma deslavada que o meu blogue não passa de uma auto-promoção de todo o meu lado fútil no mais alto grau. Já escrevi também coisas “sérias” (era o que os outros achavam, embora sempre tivesse eu consciência de que era um auê literário de quinta), but… O que fazer? Posto cada vez menos e cada vez mais coisas sem sentido.

    Esquizofrenia bloguesca, beibe? World Wide Web knows. Beijo!

  7. Sim, Thiago; digamos que eu tenha feito uma análise extrema, pautada pelo fenômeno majoritário que se observa. E você toca no problema: o formato do blogue está esteriotipado porque deu voz e não viu a quem: há muita gente que não vale meia pataca e está por aí, defecando simples excrementos ou dizendo desatinos a partir do púlpito do blogue. O receio é que idiotas arrebanham multidões; se com “livros” a coisa já vai mal, o blogue é uma verdadeira bomba atômica.

    Donato, de fato, é tedioso.

    Amanda: há várias categorias de blogue. O pior tipo é aquele que quer parecer algo que não é. Sentido não é um atributo inerente ao ser humano (o digo por própria experiência).

  8. “Blogosfera, esse grande circo”…
    O que faz de todos nós que por aqui andamos uns palhaços!

    E com muito orgulho!! :-)

    Abraço!

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