199. Comida

“A comida não vem à sua boca”. Realmente, não vem. Durante a semana, no trabalho, já cansa ir até o quilo vagabundo revirar as comidas previsíveis (quarta, feijoada; quinta, macarrão, lasanha; sexta, peixe) ou ir à banca de cachorro-quente para pedir um completo cheio de milho, ervilha, queijo, purê de batata, tomate, cebola e queixo ralado, vai? Não, queijo ralado não. Ambos “estabelecimentos” ficam coisa de cem metros: um deles, o quilo, um pouco mais estabelecido, encafuado num prédio feio e baixo e cheio de rampas, o outro, também devidamente estabelecido sobre o chassis do gracioso Kombinationskraftwagen, para os leigos, uma simples Kombi.

Agora, nos finais de semana e períodos de férias é ainda pior. Como já se sublinhou, a comida não vem à nossa boca por incapacidade da mesma. Tanto já se fez: robôs, bombas atômicas, reatores e computadores pessoais geniais, porém, nada de um dispensador automático e flutuante de comida para nós, pobres mortais.

A comida do vagabundo e preguiçoso eventual é o miojo. Há gente que faz medonho escarcéu por causa de comida, sabores, qualidades, um toquezinho de manjerona e pimenta síria (ui, que maravilha!); há outro tipo de gente que considera comer uma atividade secundária por vários motivos: ou porque pretende pensar em algo mais interessante ou vai ter algum plano mirabolante para ganhar dinheiro. O vagabundo eventual, geralmente, em grande parte, pseudofilósofo amador, é um ser que não tem quem o chame para um churrasco regado a cerveja, talvez ele nem queira mesmo.

Resta-lhe ir ao armário da cozinha e sacar de lá um apetitoso pacote de macarrão instantâneo, criados ali em cativeiro. Eles podem estar ali, ciscando no fundo do armário ou escondidos entre as panelas. Ou não. Podem ter fugido forçando a porta do armário. Aliás, como são vagabundos os armários de cozinha. Principalmente os comprados nos ‘lojões populares’ em cem prestações fixas, sem juros. Os pacotinhos simpáticos e temáticos forçaram a porta de chapa sem muita dificuldade e evadiram-se.

Ah, meu amigo, só lhe resta pegar o chapéu, a bolsa, a espingarda de pressão e sair em busca da comida. Se os seus macarrões fugiram, saiba que eles buscam sempre a natureza. Foram certamente parar em alguma área mais vazia; pode começar procurando nos terrenos baldios, batendo nas touças com o cabo da espingarda. Se o pacote de miojo estiver ali acantonado, sairá em disparada. Mas não atire no primeiro impulso. Siga a vítima com os olhos. O ideal é que seja pega viva. Um tiro de chumbinho pode atingir o saquinho do tempero, pois, ao contrário de caças mais convencionáis, nas quais as bexigas, vesículas e voltas de intestino estão todas devidamente acondicionadas em seus devidos lugares descritos por manuais de anatomia, o saquinho prateado de tempero zanza por todo o lado interno, sendo sempre uma incógnita onde ele estará.

* * *

P.S.: Uma postagem interessante.

One response to “199. Comida

  1. Para meu escritor favorito,
    Não seja tão exigente consigo, você consegue ver o “mundo de durepox” com criatividade. Ainda não sucumbiu ao tédio, ao marasmo e a falta de criatividade que a rotina sempre nos traz. Tenha paciência.
    Um sonho que compartilho com você é a alegria de ver um livro seu publicado, nem que seja por nós mesmos. Acredito demais na sua capacidade.
    Não deixe a criatividade e a criticidade morrerem.

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