211. Diálogo

— E então, o que você faz?

— Sou mecânico lingüista.

— Hum… interessante… no que consiste especificamente o seu ofício?

— Conserto frases defeituosas e problemas de ortografia.

— E você tem uma oficina?

— Tenho sim. É ali, perto da praça, aqui atrás.

— E tem muita clientela?

— Razoável. A maioria das pessoas ignora a mecânica da língua, o que me garante o ganha-pão. Sabe, quantas frases defeituosas que você não vê por aí, que se atritam e aquecem. Veja aqui: eu tenho um pacote de acentos diferenciais e outro de tremas no bolso da minha calça.

— Pensei que não fossem mais usados os tremas…

— Embora sejam exigidos como item de segurança, pois, uma pronúncia errada pode causar acidentes de duplo-sentido, você sabe… cada dia tem sido mais difícil encontrar tremas.

— Entendo… mas elas servem para algo?

— Não estamos em Portugal, mocinho; é exigido pelo Acordo Ortográfico. Outro dia, um fulano pediu-me um desconto na retificação de uma frase: faltava um pronome oblíquo e um trema. Ele pediu que deixasse sem o trema e descontasse o valor. Recusei-me, sabe? É um absurdo estudar e trabalhar tanto com algo, para que um reles boçal lhe diga algo do gênero, não concorda?

— Bem, a ausência de um pronome oblíquo pode provocar um acidente de sentido, dependendo do verbo… agora, com o trema também não vejo problema…

— Você não sabe o que diz, rapaz; pensa que tudo é inovação, que tudo, absolutamente tudo tem de “avançar” e que inovação é simplificação barata. Conheço bem a mecânica da língua portuguesa e digo, por exemplo, que não há sistema de acentuação tão lógico! Sabe, morro de raiva quando entra alguém na minha oficina com alguma frase capenga, com problema de crase, por exemplo, e não entende o conserto, não consegue distinguir um “a” preposição de um “a” artigo. Cada vez mais ficam dependendo de quem conserte as frases. Mas, se a frase quebrar num lugar estranho e escuro, quem o socorrerá?

— É, de fato é complicado.

— Muito, muito. Olhe para o meu macacão sujo de tinta. Cada borrão de tinta é um conserto. Mal se vê a cor original do tecido. Talvez seja azul, mas a tinta preta impede que seja vista. Veja meus bolsos; além dos consuetos acentos, minúsculos cilindros de borracha. Talvez seja contraditório, mas quanto mais a turma erra e sente insegurança em apresentar um texto, mais eu ganho, porém, dói-me a ignorância alheia.

— Entendo… E na música, o senhor tem alguma preferência?

— Gosto dum certo Strapowsky, conhece?

— Nunca ouvi falar?

— É um compositor experimental tradicional. Suas obras não são executadas com instrumentos convencionais, que, inclusive, considero-os chatíssimos e enfadonhos. Strapowsky usa máquinas calibradas para tocar suas peças.

— Não diga!

— Sim, sim. E hoje há a apresentação da sinfonia concertante opus quatro de Dimitri Strapowsky, tocada com dois aspiradores de pó e quatro lavadoras. Não a perderei por nada!

— E onde será?

— Na oficina ao lado da minha, a do Alfredo, mecânico de equações e matrizes.

5 responses to “211. Diálogo

  1. Sensacional. De verdade. Uma obra prima do gênero crônica blogueira.

  2. Sensacional!!!Adoraria saber de um lugar em que possam publicá-lo.

  3. Ótimo!!!!!!!!!!!! Sem sombra de dúvida uma pérola como só o senhor consegue extrair.

  4. Obrigado a todos pelos elogios imerecidos.
    Abraços!

  5. Muito bem conseguido!

    Elogios merecidos!

    :-)

    Abraço!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s