241. Fomes

I
Tem fome, mas não de comida. Tem fome de espaço livre pròs olhos, caminhos sem pedras pròs pés. Tem fome de cousas que se vão ao longe, fome de silêncio e fome de tempo. Há fomes que se curam com meio quilo de arroz-e-feijão; estas não se alteram com o alimento. Fomes que engrossam cadenas, incham sapatos, de multiplicar papéis, chuvas torrenciais e ônibus que nas enxurradas navegam. Fome de liberdade, da qual só há farelos miseráveis e sujos na ganga do cotidiano de esvaziador de fossa. Almoço? Um prato de ponteiros de relógios velhos temperados com sal-de-olhos.

II
Ah, os meus olhos castanhos, verdes e azuis. Quantos são? Não importa. São humanos, mas multifacetados como o dos insetos que vêem em mil direções as luzes, mas nada distinguem. Meus olhos cheios de heranças de outros povos, de caravelas, de machados e legiões. Têm fome também, de luz e de mar e de sol. A nuvem de fumaça de diesel oculta alguns raios de sol.

III
De que adianta tão colossais esforços? Na vida moderna, trabalhamos qual hércules e vivemos qual vermes, escondidos na água turva das multidões. Querem o couro, querem o sangue, querem os ossos. E, se não bastassem, querem a consciência e querem a opinião, amoldada a seus propósitos. O convívio irritante; e dos ossos, fazem-se botões.

IV
Se dentro dentro de uma represa há bilhões de copos d’água e, em cada copo d’água há trilhões de singelas moleculas, cada uma composta por três átomos (tão-somente três, o três suficiente): um de hidrogênio e dois de oxigênio. E se nesse elemento primordial, esse tal hidrogênio que tudo forma e em tudo está, se dentro de seu núcleo ainda intangível à opticocuriosidade humana (esses aprendizes de São Tomé), houver um pequeno borrão que se vai definindo, definindo e, veja, que curioso! Se parece com uma galáxia presa num pingo d’água. Mas como algo tão minúsculo pode estar profundo em uma das partículas inomináveis nas quais se divide o núcleo de um átomo?

V
Se me permitem, o próprio nome átomo é uma incoerência, pois significa em grego, justamente “indivisível”. Veja como a enciclopédia diz-se dividida em ‘tomos’.

VI
E no fundo desta espiral afogada na água elétrica nuclear, manchas menores se vão distinguindo e, que coisa, parece outro átomo, com um núcleo brilhoso e com corpúsculos que lhe giram ao redor. Curioso que o microscópio eletrônico pontentíssimo (pontentíssimo como nunca haverá) manda a informação que cada corpúsculo tem uma cor diferente e o analisador de aceleração detectou que têm órbitas e velocidades ligeiramente diferentes. Aproximou-se o foco no terceiro corpúsculo e viu-se que ele tinha a cor azul-cerúlea e manchas de cor variegada. Ampliou-se mais e surgiram ilhas de matéria semelhantes a continentes e a mancha azul como um grande oceano. Aproximou-se mais e viu que, na face escura, estranhos fenômenos de luminiscência ocorriam, como se fossem um ataque de fungos que, espalhando seu micélio e sua hifa, brilhasse no escuro. Qual a sensação quando se viu, aproximando mais que, ao que parecia, existam colônia de infinitesalmente minúsculos organismos. Algum tipo de vida nunca imaginada habitava aquele rincão de átomo, menor do que qualquer coisa que jamais foi vista pelo olho humano. Que surpresa quando, o microscópio aumentou ainda mais sua ampliação e foram vistos filetes pretos como estradas e corpúsculos retangulares que ali iam, ordenadamente, como carros. E o susto e o colapso do espaço-tempo que se sucedeu e a implosão nunca possível e nunca relatada pela engenho humano, que se sucederam à vista de uma pequena placa verde que dizia: “Caminhões mantenham a direita”.

VII
E o ônibus, com sua roda de borracha vulcanizada, joga para a calçada o oceano formado pela água da chuva, tributário do Tietê e do Tamanduateí.

VIII
A chuva que cai sobre o prédio do Correio central, gelada, tudo empapa. Vão-se criando líquens microscópicos que não sobreviverão ao pó preto soltado pelas máquinas de locomoção. Quantos virabrequins, quantos carburadores, não é? A tantos reais cada um. Uma pequena e considerabilíssima fortuna. E a tudo isso, os vidros ficam indiferentes, salvo que algo seja lançado em sua direção.

IX
O vidro sempre foi algo que me chamou a atenção. Certa vez, li numa revista de ‘ciência’ que alguns cientistas britânicos haviam descoberto que o vidro era fluido como a água. Uma lâmina feita de água, como a lastra de vidro de uma janela, não agüentaria alguns milissegundos numa estrutura estática (em condições de pressão e temperatura normais, não gelo), arrebentaria redondamente, como somente a água pode fazer. O vidro é como a água, mas o seu arrebentar redondo pode levar milhares ou milhões de anos. Os britânicos citados dizem isso baseados na medição dos vitrais de uma catedral francesa (Chartres?), nos quais, as lâminas que os formam estão mais espessas na parte inferior do que na superior, nanometricamente falando.

X
Jean Verre tinha esse nome porque seu ofício era trabalhar o vidro: colori-lo para os vitrais, soprá-lo para fazer objetos. Acreditava, sob os auspícios de Cristo e da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, que uma das maiores conquistas humanas era o transformar areia em vidro, esse gelo fantástico e belo, misterioso no seu jogo infindo de luzes. Jean enganou-se e morreu, não por causa do engano, certamente. Séculos mais tarde, descobriu-se que o mais antigo (por tanto, que tem a primazia) produtor de vidro não é o homem, mas sim uma família de seres minúsculos, de cuja existência nem se falava, e muito menos se imaginava, as diatomáceas que produzem uma caixa redonda, uma secção de cilindro, para proteger-se, e essa carapaça, similar a uma peça de dama, é de vidro. Um delicadíssimo e natural vidro.

XI
Segundo obscuras fontes, algumas algas unicelulares também sintetizam vidro a partir de silicatos da areia do mar; a produção deste vidro a partir da “chemie douce” seria, em volume, superior à produção humana do material. Vidro a partir de seres que vivem na água. Se um dia o homem conseguir usar essas algas e essas ditomáceas para produzir vidro, acabar-se-iam aqueles fornos e o vidro fundido a uma temperatura absurda. Foi a massa plástica de vidro que queimou os dedos de Jean até que eles se tornassem insensíveis e que também secou-lhe um dos olhos. Jean jamais viu o delicado estojo produzido pela Cyclotella meneghiniana, de poucos mícrons de diâmetro.

XII
Espantoso como as coisas mais fantásticas vêm da água, como esse vidro natural, feito por uma alga. Isso tudo até a nova implosão que será causada ciclicamente pela descoberta de um novo universo dentro das divisões atômicas do hidrogênio que compõe a água. Possivelmente, todas as maravilhas naturais são fruto de pequenas (no tamanho) civilizações subatômicas que se escondem nos átomos e são, por estarem num átomo universal, fonte infinita de idéias fantásticas. Civilizações que, por sua infinita fome de conhecimento, mandam sondas e coisas a explorar o espaço externo e muitas dessas coisas tomam vida própria e se tornam milhões de vezes maiores do que a civilização que o criou. Também as nossas idéias costumam ser (por mais medíocres que sejam), maiores do que nós mesmos. Quantos moles não ocuparia uma mísera idéia safada, ou uma intenção escusa?

XIII
Nos laboratórios secretos, incrustados num bunker sob algum deserto terrestre (ou até mesmo na lua), alguns cientistas apátridas (pois assim são obrigados a sê-lo) e ateus, conseguiram desenvolver um ampliador de matéria. Essa máquina amplia a matéria a ponto que coisas ridiculamente pequenas possam ser vistas a olho nu. A primeira experiência foi com uma cápsula vazia de Cyclotella meneghiniana. Após algumas horas de procedimento radioativo, apresentou-se diante dos olhos famintos dos cientistas, algo como dois grandes pirex, encaixados, redondos e chatos, como dois pratos de vaso, de vidro grosso e liso. O problema é que a estrutura atômica ampliada não resistia muito tempo ao inchamento de sua estrutura atômica (que consistia em inclusões de vazios entre a estrutura nuclear dos átomos) e implodia. Maravilhados, os cientinstas tentaram fazer o mesmo com um átomo de água, para, finalmente, poder examinar o que é um átomo, para assombro do mundo. Ligaram a máquina e puseram-se a esperar no ambiente: um foi fumar, o outro, ler um relatório, outro foi escrever (não conatava para ninguém, mas era poeta). Passadas as horas prescritas para o funcionamento eficaz da máquina, os cientistas abriam-na e o átomo de água não se havia ampliado. Ou melhor, havia sim, mas por uma falha do aparelho, ampliara todos eles e o laboratório em escala retorcida. Um deles percebeu porque seu braço afinou até sumir na extremidade, enquanto coxilou, ficando parecido com um lápis apontado. Não deu tempo para mais nada, suas estruturas atômicas (coisas e seres) implodiram por causa dos vazios instáveis.

5 responses to “241. Fomes

  1. Sensacional. Pungente e moderno.

  2. depois de ler tudo, só me resta pular da ponte.
    novo blog: http://diariodasissi.blogspot.com

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